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De Bergoglio a Irmã Thea : 6 rostos que fizeram Francisco de Assis continuar vivendo

8 min de leitura
PAPIEŻ FRANCISZEK

Crédito: GALAZKA/SIPA/EAST NEWS

Oito séculos depois de sua morte, Francisco de Assis continua aparecendo onde o Evangelho encontra a vida: entre os pobres, na Amazônia, na luta contra o racismo, diante dos desafios da ciência, através dos meios de comunicação e na busca incansável pela fraternidade.

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Oito séculos depois de sua morte, Francisco de Assis continua aparecendo onde o Evangelho encontra a vida: entre os pobres, na Amazônia, na luta contra o racismo, diante dos desafios da ciência, através dos meios de comunicação e na busca incansável pela fraternidade.

Na noite de 4 de outubro de 1226, Francisco de Assis atravessou a última fronteira. A Igreja chama aquele momento de Trânsito de São Francisco.

Oito séculos depois, a pergunta talvez não seja apenas quem foi Francisco. É também: quem continua sendo Francisco no nosso tempo?

Não se trata de procurar cópias do Poverello. Trata-se de reconhecer homens e mulheres que, cada um à sua maneira, deixaram que alguma coisa do seu espírito — a pobreza, a fraternidade, a paz, a proximidade dos últimos, o amor pela criação — continuasse viva.

Entre eles estão seis nomes de continentes, histórias e vocações muito diferentes.

Papa Francisco: o nome que nasceu dos pobres

13 de março de 2013.

Na Capela Sistina, os votos chegaram aos dois terços. Jorge Mario Bergoglio acabava de ser eleito Papa.

Ao seu lado estava o cardeal brasileiro Cláudio Hummes, seu amigo.

Hummes abraçou-o e disse:

“Não te esqueças dos pobres.”

Anos depois, Francisco contou que aquelas palavras entraram nele. Pensou nos pobres. Depois pensou nas guerras. E então pensou em Francisco de Assis.

Foi assim que nasceu o nome de um Papa.

Francisco explicou que o santo era, para ele, “o homem da pobreza, o homem da paz, o homem que ama e protege a criação”.

O Papa morreu em 2025. Mas o nome que escolheu naquela noite continua sendo uma espécie de programa espiritual: não esquecer os pobres.

Talvez nenhum outro gesto tenha tornado São Francisco tão presente no coração da Igreja contemporânea.

Dom Cláudio Hummes: o homem que não esqueceu

E então é preciso voltar ao homem que pronunciou aquelas palavras.

Franciscano, brasileiro, arcebispo de São Paulo e depois cardeal, Dom Cláudio Hummes fez da proximidade com os pobres uma marca de sua vida pastoral.

Nos últimos anos, seu coração voltou-se especialmente para a Amazônia e para os povos indígenas. Foi uma das vozes importantes na preparação e realização do Sínodo para a Amazônia, em 2019.

kardynał Claudio Hummes
Dom Cláudio Hummes faleceu em 4 de julho de 2022 aos 87 anos

Seu brasão episcopal trazia uma expressão que parecia resumir sua vida: “Omnes vos fratres” — “todos vós sois irmãos”.

Quando morreu, em 2022, o Papa Francisco recordou seu serviço à Igreja e seu compromisso com a Amazônia, além de guardar na memória aquelas palavras de 2013: “não te esqueças dos pobres”.

É uma imagem bonita para o aniversário de Francisco:

um frade disse ao futuro Papa para não esquecer os pobres; o Papa jamais esqueceu o frade.

Desmond Tutu: quando a fraternidade atravessa a cor da pele

Francisco de Assis encontrou o leproso e descobriu que o medo podia transformar-se em abraço.

Séculos depois, em outro continente, Desmond Tutu enfrentou outra forma de separação: o apartheid.

Arcebispo anglicano sul-africano e Prêmio Nobel da Paz, Tutu combateu o racismo e tornou-se uma das vozes mais fortes pela reconciliação na África do Sul.

Mas existe uma ligação franciscana pouco conhecida: Tutu pertencia à Terceira Ordem da Sociedade de São Francisco, na tradição anglicana. A própria Ordem o recordou, após sua morte, como um franciscano “em espírito, palavra e obras”, destacando sua defesa dos pobres e marginalizados.

Talvez seja por isso que sua história combine tão bem com Francisco.

Tutu não pregava simplesmente a vitória de um grupo sobre outro. Pregava uma sociedade na qual o outro pudesse voltar a ser reconhecido como irmão.

Francisco atravessou o medo do leproso.

Tutu atravessou o medo do diferente.

Ambos apontam para a mesma pergunta: é possível chamar de irmão aquele que o mundo nos ensinou a considerar distante?

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Irmã Thea Bowman: uma voz que cantava a unidade

Ela tinha uma voz extraordinária.

Mas talvez sua maior força não estivesse apenas na voz.

Irmã Thea Bowman, franciscana das Irmãs da Adoração Perpétua, nasceu em 1937, nos Estados Unidos. Afro-americana, professora, teóloga, cantora e evangelizadora, tornou-se uma presença marcante na Igreja católica norte-americana.

Foi também uma mulher que conheceu o racismo de perto.

Em vez de deixar que a dor a calasse, transformou sua própria vida em uma ponte entre culturas.

Cantava. Contava histórias. Pregava. Falava da fé católica e da riqueza da espiritualidade afro-americana. Em 1989, diante dos bispos dos Estados Unidos, falou sobre a experiência dos católicos negros e chamou a Igreja a reconhecer seus dons e sua dignidade.

Morreu em 1990, aos 52 anos.

THEA BOWMAN

Sua causa de canonização avançou recentemente: em fevereiro de 2026, terminou a fase diocesana do processo, e a documentação foi encaminhada a Roma.

Thea Bowman parece ter compreendido algo muito franciscano: a unidade não significa que todos tenham de ser iguais. A fraternidade nasce quando aprendemos a receber o outro como dom.

Irmã Ilia Delio: Francisco diante do universo

E se Francisco de Assis estivesse diante das perguntas do nosso século?

Diante da inteligência artificial? Da evolução? Da cosmologia? Das novas tecnologias?

Talvez conversasse durante horas com Irmã Ilia Delio, OSF.

Franciscana e teóloga, Ilia Delio tem formação científica em biologia e farmacologia e é professora de teologia na Villanova University. Seu trabalho procura aproximar ciência e religião, refletindo sobre evolução, tecnologia, consciência e o futuro da humanidade.

Irmã Ilia Delio

Sua obra também retoma uma das grandes intuições franciscanas: a criação não é um cenário vazio ao nosso redor. É uma realidade na qual estamos profundamente inseridos.

Ela escreveu sobre Francisco, criação, evolução e até sobre os desafios espirituais da inteligência artificial.

É Francisco entrando no século XXI.

Não mais apenas diante do irmão sol e da irmã lua, mas diante de um ser humano que agora pergunta o que acontecerá quando suas próprias máquinas começarem a aprender.

A pergunta continua sendo franciscana:

Como cuidar daquilo que recebemos antes que nossa capacidade de criar nos faça esquecer nossa responsabilidade de amar?

Madre Angélica: da pequena garagem para o mundo

Talvez a história de Madre Angélica pareça improvável demais para ser verdadeira.

Religiosa contemplativa, pertencente às Clarissas Pobres da Adoração Perpétua, ela começou uma aventura de comunicação católica que cresceria até alcançar milhões de pessoas em diversos países.

Em 1981, iniciou as transmissões daquilo que se tornaria a EWTN, a rede católica internacional que ela fundou.

Mas talvez o mais franciscano de sua história esteja justamente no começo.

Não havia uma grande estrutura.

Havia uma pequena religiosa, uma pequena comunidade e uma grande confiança na Providência.

Madre Angélica morreu em 2016. A EWTN, porém, permaneceu como seu grande legado de evangelização.

Francisco começou com uma pequena igreja em ruínas.

Madre Angélica começou com recursos que pareciam pequenos demais para a missão que imaginava.

Os dois conheceram uma mesma lógica do Evangelho:

Deus pode fazer muito quando alguém oferece aquilo que tem.

Seis vidas. Um mesmo caminho.

Papa Francisco.

Dom Cláudio Hummes.

Desmond Tutu.

Irmã Thea Bowman.

Irmã Ilia Delio.

Madre Angélica.

Seis histórias que não são iguais. Seis vocações que não devem ser confundidas. Alguns pertencem diretamente às famílias franciscanas; outros viveram uma ligação franciscana em diferentes tradições cristãs.

Mas todos ajudam a compreender por que Francisco de Assis não ficou preso ao século XIII.

Ele continua caminhando.

Caminha quando alguém se aproxima do pobre.

Quando um bispo escuta os povos da Amazônia.

Quando uma vítima do preconceito escolhe construir uma ponte.

Quando uma mulher coloca sua inteligência a serviço do diálogo entre fé e ciência.

Quando uma voz negra ensina à Igreja que a diversidade também é um dom.

Quando uma religiosa acredita que uma pequena semente pode alcançar o mundo.

O dia 4 celebra sua festa.

E talvez esta seja a melhor maneira de celebrar seus 800 anos: perceber que Francisco não terminou sua caminhada naquela noite de 1226.

Ele continua caminhando em cada homem e cada mulher que decide fazer do Evangelho uma vida de fraternidade, simplicidade, paz e amor pelos últimos.

Oito séculos depois, Assis continua tendo algo a dizer ao mundo.

E talvez a voz seja ainda a mesma:

irmãos, irmãs — todos.