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“Ele me irrita, ela me esgota”: e se você aceitasse seu cônjuge como ele é?

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Os pequenos defeitos do outro podem ser difíceis de viver no dia a dia e podem corroer o amor recíproco no casal. Como podemos superar os hábitos insuportáveis ​​do homem ou da mulher que amamos?

Fake news ou conto de fadas? Talvez uma lenda habilmente mantida ao longo dos séculos e rapidamente desmontada após alguns anos de casamento…

“Depois de trocarem um beijo, eles se casaram e ficaram surpresos ao descobrir muitas manias que incomodavam tanto um como o outro”. Essa versão vende menos do que a fórmula usual, mas está mais próxima da realidade.

Deixe o leitor ou a leitora julgar (mas tenha cuidado, algumas cenas descritas neste artigo podem ferir a sensibilidade dos mais jovens): o príncipe azul roncava como um trator, desprezava as reuniões de pais e professores e nunca localizava geograficamente o cesto de roupa suja no apartamento.

A princesa não fechou o creme dental novamente e jurou com a mão no coração que não sabia quem tinha sido capaz de amassar a porta esquerda do carro da família…

Pequenas ninharias, ninharias que não questionam o casamento, mas cuja recorrência e acúmulo fazem que o dia a dia às vezes seja doloroso e inclusive insuportável.

A ponto de nos perguntarmos, às vezes, por um momento, por que estranho feitiço decidimos nos amarrar até a morte nos separar, com os olhos que vemos até as estrelas, alguns anos antes. Como diabos não percebemos?

Desde a etapa de “desidealização”…

“No começo, os jovens esposos estão numa etapa de idealização”, explica Anne Videlaine, conselheira matrimonial. “Eles não vêem o outro em sua realidade. No máximo, eles percebem algumas manias que os fazem sorrir”.

A magia do amor é tão grande que os pombinhos acreditam que o capítulo das disputas matrimoniais abordado nos preparativos para o casamento é reservado a outros casais, não a eles.

“Quando o padre que nos preparou para o casamento, me disse que meu noivo tinha necessariamente ‘defeitos’, fiquei tão indignada que quis pedir que outro padre casasse nós”, lembra Joséphine, 45 anos de idade, que agora é capaz de elaborar facilmente a lista das cem esquisitices do seu amado.

“O amor é cego, o casamento retorna à vista”, dizia Oscar Wilde. Uma versão mais contundente do que poderíamos chamar de etapa de “desidealização”, durante a qual o casal toma consciência de sua alteridade. O outro não sou eu. O outro é outro. Uma revelação para os noivos que continuam se concentrando no maravilhoso “os dois serão apenas uma carne”!

Porque existem muitas diferenças: individuais (cada ser é único), sexuais, educacionais e, é claro, sociais.

“Essas diferenças geralmente aparecem nos três primeiros anos de vida comum. A princípio, cada um tenta se ajustar ao outro; então, pouco a pouco, nos deixamos vencer pela vida cotidiana. Paramos de concordar com os momentos para uma reunião e uma conversa. O reservatório afetivo esvazia e os pequenos desconfortos assumem uma dimensão diferente. Eles podem se tornar repreensões contínuas que, às vezes, trazem de volta histórias antigas abafadas”, analisa Anne Videlaine.

É o que Benoît chama de “coleção de selos”: “Quando minha esposa me censura por minhas más maneiras à mesa, muitas vezes recebo, como se isso não bastasse, um pequeno recital sobre a falta de educação de meus pais, depois de um curioso desvio pelas minhas repetidas ausências e a lembrança de um grande erro que cometi há três meses na casa de uns amigos”.

Adaptação

O que fazer então? Ir para a etapa de adaptação. Para começar, aceitar a ideia que somos diferentes, como Gary Chapman recorda alegremente em Casados e felizes… depois de tantos anos: “As diferenças também têm a sua origem em que todos nós somos criaturas de Deus, e a criatividade divina é infinita. Não existem duas criaturas exatamente iguais. Somos todos peças únicas, e Ele nos fez assim para podermos nos complementar”.

Depois, é necessário distinguir as diferenças derivadas da disparidade sexual. E é que muitos problemas decorrem do fato do qual não se compreende a maneira como o outro sexo funciona.

Por exemplo, o homem é sequencial, a mulher é multi-tarefa, então ela fica brava quando o marido se levanta da mesa de mãos vazias. Identificado como uma patologia masculina ou feminina, os maus hábitos são mais fáceis de aceitar. Mas, acima de tudo, você tem que falar sobre isso! E não apenas com os amigos, mesmo que você se dê bem e permita que os problemas sejam relativizados.

O casal precisa conversar um com o outro: “As bandeiras vermelhas são exibidas, o que você sente é discutido e você conversa cara a cara, escolhendo o momento certo e o tom certo”, explica Anne Videlaine. “Não fale a frase ‘me incomoda’, mas sim fale ‘me incomoda quando [por exemplo, você não me diz que chega atrasado em casa]’. E concluímos a conversa expressando nossas necessidades: ‘Sinto-me bem quando a casa está arrumada’”.

Casados ​​desde 1966, Vincent e Anita praticam ativamente esse diálogo com fidelidade todos os meses. É uma sessão que eles descrevem como “essencial” e que lhes permitiu “crescer seu amor”.

“Isso nos oferece a oportunidade de falar com calma, sem esperar a panela de pressão explodir”, explica Vincent. “Não me chateia que você me diga o que o incomoda, tudo depende da maneira como você diz”, confirma Anita.

“Certifico que o simples reconhecimento pelo outro do sofrimento que seu comportamento gerou já alivia a lesão. Depois tentamos ver como nos adaptamos um ao outro. Avaliamos o que podemos mudar e o que temos de aceitar, apesar de tudo”.

Quando as fraquezas se tornam uma oportunidade de amar mais os outros

Apesar de todos os nossos esforços de comunicação não-violentos, sempre existem fontes de irritação. No entanto, como recorda o padre Cédric Burgun: “A santificação no casamento é acima de tudo a humilde aceitação das pobrezas do outro”.

Então você tem que amar o outro, não só apesar de suas fraquezas, mas amá-lo por causa dessas fraquezas. Num casal cristão, as fraquezas são abraçadas e se tornam numa oportunidade de amar ainda mais. Esse é precisamente o caminho do amor verdadeiro, isto é, o incondicional.

E, acima de tudo, não devemos esquecer que a harmonia do começo não pertence a um passado perdido. Essa harmonia é uma luz que pode nos fazer lembrar à noite para avançar até o próximo momento de luz. Aquela que faz os contos de fadas dizerem “eles viveram felizes para sempre”.

Élisabeth Caillemer

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