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Carta aberta a um amigo que vive sua velhice com dificuldade

OLD, MAN, WRINTING

Lena Evans | Shutterstock

Edifa - publicado em 27/08/20

Convidamos você a descobrir cinco cartas que o levarão numa viagem pelas diferentes idades da vida. Hoje, mergulhe na última carta desta série, dirigida a uma pessoa idosa que não tem mais nada a esperar além da morte

Querido amigo,

Ouvi dizer que você gosta das palavras cantadas por Michel Sardou: “A vida, a morte, nós entramos, nós saímos, isso é tudo”. Isso é tudo? Mas viver e morrer já são coisas tão magníficas! Nossa vida segue em procissão, carregada por uma multidão de rostos invisíveis, aqueles que nos amaram, aqueles que apoiam nossa peregrinação aqui embaixo e às vezes nos enviam um sinal como um sorriso do além. A memória daqueles que perdemos é sempre mais do que uma foto amarelada. É como uma “memória do além-túmulo”, não proveniente do passado, mas vinda da eternidade, do “além morte” como uma graça que nos ajuda a viver aqui na Terra, porque esta “ponte dos mortos” é necessária para o caminhar dos vivos.

Guardamos as memórias como sinais de esperança. Alguns dizem que eles partiram muito cedo. Mas o que significa “muito cedo”? Existe um “tarde demais”? É por medo de partir “tarde demais” que alguns querem escolher a morte, “morrer de pé” como cantava Jean Ferrat, “morrer no palco” com Dalida, para não a ver partir. Exercemos a nossa vontade sobre a vida nascente, e também queremos exercê-la sobre o mistério do último suspiro.

“Eu amo o homem!” Diz Al Pacino, que faz o papel de Satanás em O Advogado do Diabo. Por trás dessa filantropia satânica está a recusa da vulnerabilidade humana e a dureza de um orgulho que se recusam a passar pela porta da humildade. “Eles confundem a decadência de suas almas com humanismo e generosidade”, escreveu Stendhal. “A velhice é um naufrágio”, disse o general de Gaulle. Mas e se ela fosse também o noviciado do Céu, onde o homem finalmente aprende a compreender sua impotência e a depender de Deus?

Teremos que diminuir, se quisermos que Cristo cresça em nós. Um idoso não pode retornar à infância, mas pode ser elevado por ela. “É claro que minha vida já está cheia de mortes”, escreve Georges Bernanos. “Mas o mais morto dos mortos é o menino que eu fui. E ainda assim, a hora chegou. É ele quem vai retomar seu lugar à frente da minha vida, juntando meus pobres anos até o último, e como um jovem que lidera seus veteranos reunindo a tropa desordenada, entrará em primeiro lugar na casa do Pai”.

Padre Luc de Bellescize

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