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Um guia para ajudar seu filho a descobrir sua vida espiritual 

PRAYING CHILD

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Edifa - publicado em 27/10/20

Os pais são os primeiros educadores na fé. Mas para que esse aprendizado seja bem-sucedido, é preciso levar em consideração a idade e o desenvolvimento psíquico de sua criança

Como falar sobre Deus para as crianças de acordo com a sua idade? O padre Philippe de Maistre, capelão geral do colégio Stanislas, em Paris, decifra as diferentes idades da vida espiritual de crianças e adolescentes. Com este guia, você vai conseguir ajudar melhor o seu filho a descobrir sua vida espiritual.

Até 2 anos, a consciência do amor: a percepção de seu mistério

Desde a concepção, a criança tem um relacionamento com Deus. No misterioso momento em que ele sopra a alma na criança, Deus cria, de certa forma, uma “linha direta” com ela. Ao contrário do que Freud pensa, a primeira consciência do bebê, ligada à mãe de maneira vital, é, portanto, inteiramente, uma consciência de amor e unidade. É nesta primeira língua, em que fala Deus, que os Apóstolos são lançados ao Pentecostes: “Todos os ouvem na sua língua materna” (At 2, 8).

A criança percebe uma interioridade e também uma exterioridade. É por isso que a oração dos pais com a criança é importante desde a vida uterina. O filho é sensível à voz do pai, que não deve hesitar em falar, abençoando-o através do ventre da esposa em voz audível.

Desde o nascimento, o filho, portanto, tem uma vida espiritual. Jesus não diz: “Deixai vir a mim os pequeninos” (Mc 10,14)? Como um moribundo que não tem mais consciência intelectual, o bebê ainda não consegue conceituar, mas mantém uma consciência de amor em seu corpo.

É por meio de seu corpo que a criança faz a experiência fundamental do encontro com Deus. Esta é a aposta da teologia de São João Paulo II: nosso corpo é mais consciente, mais inteligente que nossa alma. Nesta idade, pode-se marcar a hora da oração apagando a luz e acendendo uma vela em frente a um ícone, que poderia representar a Sagrada Família. Na imagem no espelho, a criança ao lado do pai e nos braços da mãe começa então a perceber que ele prova de uma fonte de amor diferente da de seus pais: Deus.

Dos 3 aos 7 anos, consciência da luz: os fundamentos da fé

Antes da idade da razão, a criança se separa da mãe e percebe que vive no interior de uma rede. Ela aprenderá a se comportar e Deus deve ter o seu lugar neste amplo tecido relacional formado por sua família e entes queridos. A partir dos três anos, seu “pequeno eu” aparece; a criança deixa a comunhão original para entrar na oposição. É o “eu” do pecado, ainda visto como desobediência aos pais. A aposta da primeira educação é colocar esse “eu” de volta à aliança original selada por Deus com seus pais.

Conforme a criança cresce, ela precisa que o Antigo Testamento seja lido para ela: o sacrifício de Isaque, a história de Caim e Abel, a de José e seus irmãos, dentre outras. Ela se apaixona por essas histórias que contam os primeiros dramas das alianças feitas com Deus, pois sua relação com Deus se forma sob o selo da afetividade. Os sentimentos de José que quer monopolizar o amor do pai, ou a raiva de Caim com ciúme de seu irmão, habitam nela. Por meio desses problemas de relacionamento e familiares, do medo do abandono, ela aprende que nem tudo termina em drama. Perdão, misericórdia e bênção continuam fluindo, e a última palavra é para a reconciliação.

Conte a ela as histórias dos Patriarcas. Abraão, Isaac e Jacó devem ser como seus avós ou primos. Ao mergulhar na Bíblia com a mesma paixão que fazemos com os contos de fadas, a criança encontrará a chave para todas as questões espirituais e emocionais da vida familiar! Ela pode então nomear seus dragões internos (roubo, mentiras, ciúme, etc.) e aprender a derrotá-los. Também podemos falar sobre a Criação, Adão e Eva, explicar que ela foi criada por Deus, à sua imagem e semelhança.

Não devemos privar as crianças dos relatos dos primórdios. Mas, acima de tudo, devemos falar sobre o céu. A Idade da Luz é a idade preferida para falar sobre o paraíso. A criança compreende a morte como uma passagem para o céu com mais facilidade do que o adulto, que muitas vezes a teme. Muitas vezes é ela que consola a família quando morre um ente querido: “Mamãe, por que você está chorando? A vovó está no céu agora, com Jesus”.

Dos três aos seis anos ainda não se pode falar em espiritualidade autônoma, mas a interioridade se desperta sob o selo de uma relação de amor com Jesus. No catecismo, podemos falar sobre a alma que vem de Deus, essa dimensão invisível que a criança esconde em seu interior. Podemos também explicar sobre seu corpo, que os outros veem, que os pais podem abraçar, mas também existe para um relacionamento com Deus. Ela pode sentir sua alma ao meditar e rezar, de olhos fechados, falando diretamente com Deus – é a intuição dos “pequenos adoradores “. Portanto, é importante não “falar de Deus” em geral, mas dirigir-se a Jesus, ao Pai, na frente da criança. Isso beneficia o despertar da vida espiritual do filho.

Dos 7 aos 10 anos, a idade da razão: o desdobramento da interioridade

Essa idade abre o que na psicologia é chamado de período de latência. Época que se desenvolve sob o signo da harmonia, pois Deus quer desenvolver a interioridade do ser. Esta é a era da luz interior que se estende pela absorção do conhecimento. Agora não basta simplesmente ter desenhos para colorir, é preciso um catecismo muito nutrido com a vida de Jesus, a cronologia, a aprendizagem de cor das orações. Nessa idade, para o desenvolvimento da vida espiritual do filho,  as crianças devem aprender como usar a Bíblia. Na faculdade, o jovem será estimulado intelectualmente; por isso, ele também deseja e precisa ser motivado espiritualmente. A criança experimenta a consciência do pecado, aprende a pedir perdão. Não hesite em explicar para ele como funciona a confissão e oferecer a oportunidade de fazê-la.

Em família, podemos fazer um momento de silêncio durante a oração, e assim a criança pode se confiar a Jesus e adorá-Lo. Até então, a criança era guiada essencialmente pelo discernimento dos pais, mas agora o significado do certo e do errado fala diretamente a ela. Ao perguntar-lhe como se sente depois de uma boa ação ou de uma confissão, a ajudamos a verbalizar esta “grande luz” recebida no fundo da sua consciência. O mesmo ocorre depois de uma má ação: por que ela se sente triste? A voz de sua consciência fala, ela sente que fez alguma coisa que não deveria. Da nossa vida espiritual pode brotar uma verdadeira vida mística de oração. Para algumas crianças, a relação com Jesus é mais do que uma relação amigável, torna-se nupcial. Frequentemente, essa é a idade em que nascem as vocações.

Para a formação da vida espiritual do filho, é preciso entender que a criança deve se apropriar do Evangelho. Os pais podem ler para ela ou dar-lhe para ler, a vida do Cura d’Ars. A criança então percebe que uma parte dela pertence apenas a Deus. É por isso que São Pio X recomendou a primeira comunhão pouco antes da idade da razão, antes do despertar da consciência racional, quando surge uma consciência teológica e uma consciência moral. Pio X também pediu que elas tivessem acesso à oração e à confissão. A criança tem um sentido moral independente, podemos ensina-la a voltar-se para a vida interior e entender que Jesus está sempre presente ali.

Dos 10 aos 13 anos: consciência da vida, o tempo das amizades

A criança se desenvolve, é a idade da esperança, onde Deus se mostra abundância de vida. Deus nos chama às coisas grandes, nem tudo pode ser vivido em família. Os jovens precisam ir além do círculo familiar e escolar, fazer vínculos, desenvolver o senso de fraternidade, conhecer os padres, sinais de uma maior paternidade. Ela agora precisa de irmãos mais velhos na fé, que os ensine a seguir. Ao conviver com meninos e meninas mais velhos vem o desejo de crescer por meio de brincadeiras e da amizade em bases espirituais. Ao descobrir a fraternidade, é finalmente a Igreja que ele descobre. A amizade, a experiência moral e espiritual, a envolve fidelidade, faz crescer. Nos exames de consciência, podemos perguntar-lhe como ela escolhe os seus amigos, fazê-la ler a vida de São Domingos Sávio, que fala por si. Que responsabilidades ela pode assumir na escola, como ela se sente responsável pelos outros, como ela vê os outros crescerem? Assim se contribui para a formação da vida espiritual do filho.

A partir dos 13 anos, a consciência do fogo: a adolescência traz o desejo de conquistar a verdadeira liberdade

É fundamental dizer que a adolescência é antes de tudo um acontecimento espiritual. É uma iniciativa de Deus que mexe com a consciência da criança, antes de ser uma transformação hormonal e psíquica. A adolescência é chamada a idade do fogo, ela toma o coração da criança e o expande. Por isso o surgimento de tantas tensões, mesmo entre Jesus e sua mãe. “Por que me procurá­veis? Não sabíeis que devo ocupar-me das coisas de meu Pai?” (Lc 2, 49), responde aos pais, aos 12 anos.

O adolescente aprende que sua vida não se destina apenas a receber amor, viver e desenvolver-se tranquilamente à luz de Deus. O desejo de seu coração é maior do que este mundo pequeno. Ele foi feito para amar e feito por um amor absoluto que o mundo não pode dar. Ele precisa, já que o fogo de Deus o conduz, que sua adolescência não seja reduzida a uma “idade ingrata”. Deus o guia, a sua sexualidade é boa, o desejo de amar é bom e é Deus quem o confronta com a percepção de seus limites. Ele precisa de um Moisés para cruzar este Mar Vermelho, experiências espirituais de fogo, típicas desse tempo: ele precisa de confirmação.

Para a formação da vida espiritual do filho, é preciso reconhecer que a missa continua sendo a base de tudo. Se ele reclamar sobre ir, seus pais podem dizer-lhe que se comprometeram no dia do casamento e no dia do seu batismo a assumir a responsabilidade de transmitir-lhe a fé. Sobre o pecado, não esqueçamos de dar a ele este versículo para meditar: “Não faço o bem que quero, mas faço o mal que não quero” (Rm 7,19). Aos dez anos, a criança é mais legalista, um pouco moralista. Depois, fica dividida, tem impulsos, não está mais unificada. É necessária uma leitura mais profunda, como o Apocalipse.

A vida realmente aparece sob uma luz um tanto trágica. Existe uma tensão entre o desejo de absoluto – este novo ímpeto – e a consciência dos limites irredutíveis, das fragilidades, da percepção das rupturas provocadas pela morte ou separações. É o coquetel explosivo, analisado por Freud, entre Eros e Thanatos, a chamada ao absoluto do amor e aos limites da morte. A vida parece muito estreita para um adolescente satisfazer os desejos de seu coração. Para sair desse impasse, o adolescente precisa de modelos fortes que tenham passado por esse estágio e o abram à esperança. Ele precisa de heroísmo, precisa ser levado a ler a vida dos mártires, a discutir sobre São Maximiliano Kolbe, o Beato Pier Georgio Frassati ou Chiara Luce. Ele não deve se relacionar apenas com seus ídolos ou atletas favoritos.

Sair de si

Mais importante do que viver, é amar e encontrar significado naquilo que se faz. O padre Thomas Philippe, autor de Tempo de vigor na vida do adolescente (em tradução livre), chegou a dizer que seria necessário comungar sob ambas as espécies nesse período da vida, que o efeito proporcionado pelo vinho tinha um significado, um forte simbolismo. O adolescente busca a si mesmo e não se encontra ao se olhar no espelho, se mostrar nas redes sociais ou mesmo encontrando a primeira(o) namorada(o). Ele deve sair de si mesmo através de experiências fortes de evangelização e de serviço, como ir às pessoas de rua, aos deficientes, dentre outros. Ele necessita superar-se, experimentar a verdadeira embriaguez da alegria de se doar; se não vive essas experiências, ele pode entrar numa realidade de paraísos falsos, como sexo ou drogas. 

Para a formação da vida espiritual do filho, é preciso saber que uma vida cristã realizada não é uma vida para si mesmo, mas uma vida feita para ser doada. Ele pode experimentar isso sendo escoteiro ou dando aulas de catecismo para crianças mais novas. Assim ele ajuda o menor a cruzar o caminho que ele também atravessa e isso faz com que os dois cresçam ao mesmo tempo. Ele está então em uma posição de transmissão; entretanto, o adulto é quem transmite. Quando você atribui responsabilidades a um adolescente, ele se torna um homem – e para de nos incomodar com seus pequenos problemas de adolescência!

Para além das rupturas, do luto da infância e do paraíso dos seus sonhos, o adolescente entra no dom de si e ultrapassa os limites da morte e da separação através de fortes experiências de fogo. Jesus transformou água em vinho, o adolescente deve experimentar então a sóbria embriaguez do Espírito Santo.


MOTHER AND CHILDREN

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Olivia de Fournas

Tags:
catequeseEducaçãoFilhos
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