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Se você quer que seus filhos te escutem, comece aprendendo a ouvi-los

Child; Mother; Scream; Obedience

© fizkes

Edifa - publicado em 11/02/21

A criança precisa ouvir os seus pais, mas, para isso, primeiro precisa ser ouvida. A seguir estão alguns conselhos de uma especialista para aprender a ouvir melhor os seus filhos

Os pais frequentemente reclamam que seus filhos nunca os ouvem… E se isso dependesse deles prestarem atenção ao que seus filhos têm a dizer primeiro? Marie-Paule Mordefroid, mãe, psicóloga, formadora de adultos na matéria de desenvolvimento pessoal, defende a escuta ativa como uma ferramenta privilegiada na relação educativa.

Os pais muitas vezes constatam amargamente que seus filhos não os ouvem. Por que?

Marie-Paule Mordefroid: Eu faria a pergunta na direção oposta: e nós, será que os estamos ouvindo? O ato de ouvir tem um poder prodigioso, pois contagia. É a base da confiança entre pais e filhos, ainda que a educação vá muito além do ouvir. A criança também precisa ouvir os conselhos dos pais, mas, para recebê-los, ela primeiro precisa ser ouvida.

Por que esta exigência de ouvir incomoda os pais?

Em primeiro lugar, porque eles serão questionados sobre sua certeza de saber tudo o que é bom para seus filhos. Trata-se de abrir mão de soluções prontas, de suas projeções. Sob o efeito da emoção, tendemos a reagir instintivamente. A escuta ativa não é natural, ela vai contra essa reação. Nossa natureza ferida pelo pecado nos leva a nos expressar em termos de nosso ego. Essa atitude nos protege dos outros, mas nos incomoda e também os incomoda. Lembrar das suas próprias necessidades também ajuda: eu também, um dia, precisei ser ouvido. É uma necessidade vital de todo ser humano.

Mas muitas vezes você tem que exercer autoridade, impor regras.

Claro, não estou dizendo que vocês precisam se tornar pais submissos! O melhor é exercer autoridade ouvindo com empatia, ao mesmo tempo em que impõe limites e aplica sanções. A educação é sobre como equilibrar esse paradoxo.

Veja o exemplo de uma criança que se recusa a ir para a cama na hora certa. Inicialmente, falamos para ela: “Em dez minutos, as luzes devem ser desligadas”. Em seguida, se a luz ainda está acesa e a criança ainda está brincando, podemos dizer: “Eu entendo que você não quer ir dormir [falando perto da criança] mas, é realmente a hora de dormir. Por favor, apague a sua luz”. Certifique-se de que esses dois desejos coexistentes sejam expressos.

Essa conversa não impedirá que os pais fiquem com raiva, e às vezes é bom botar a raiva pra fora! É impossível ser zen o tempo todo. Nossas emoções transmitem mensagens à criança e nos permitem expressar nossas necessidades mais legítimas.

Concretamente, como implementar uma escuta ativa real?

Em um primeiro nível, a escuta passiva é colocar-se à disposição; consiste em começar em silêncio, deixando que o outro se expresse. Não requer nenhuma habilidade particular. A escuta ativa vai mais longe. Permite que o outro diga o que tem a dizer por meios muito simples.

Convites: “Precisa me dizer algo? “Perguntamos, não para satisfazer a nossa curiosidade ou para projetar a nossa angústia, mas de forma aberta: “O que aconteceu? O que você sentiu? O que você pensou disso?”. O silêncio é uma forma dos pais mostrarem que estão depositando o seu tempo nessa conversa. Finalmente, é importante fazer uma reformulação, dizendo com nossas próprias palavras o que entendemos de mais essencial naquilo que a criança tentou dizer. Se ele está falando sobre “aquele professor de matemática idiota”, podemos dizer “você está bravo com aquele professor de matemática?”, assim a criança percebe que realmente a compreendemos. Depois será mais fácil para ela se expressar.

Você quer dizer que é melhor acolher o que a criança está sentindo, do que se apegar ao que ela está dizendo?

Sim, porque na maioria das vezes, o essencial é a emoção. Nomear as emoções tem um efeito muito calmante. Lembro-me de uma mãe cujo marido teve que passar vários meses no exterior. Quinze dias antes de sua partida, o filho de 4 anos estava insuportável. A mãe o chamou para conversar e disse: “Você está triste porque o papai está indo viajar. É isso?”. A criança começou a chorar bastante. A tristeza que estava sentindo se traduziu por um tempo em inquietação e caprichos. Portanto, expressar a emoção conscientemente permitiu que ele se acalmasse antes que seu pai fosse embora.

A criança frequentemente se expressa por meio de uma linguagem “não verbal”. Como decodificá-la?

A etimologia da palavra “criança” (infans) significa aquele que é privado da palavra. O que não significa que elas não se expressem de outra forma. Os pais conseguem entender os sinais que seus filhos mandam. A mãe mostra que conhece o choro de seu bebê quando diz: “Você está com fome” ou “você estava com medo”, é uma forma de reformular uma mensagem não verbal. A atenção deve se concentrar em todas as atitudes corporais da criança, seus gestos (expressão facial, seu tom), suas ações (uma porta batendo, um papel rasgado e a somatização). A criança se expressa constantemente.

Os pais precisam confiar em seus filhos para encontrar maneiras de conversar sobre o que está errado. Os filhos sempre farão coisas para chamar a atenção, especialmente aquilo que eles sabem que incomoda seus pais. Não se trata de buscar psicologicamente a causa do comportamento, mas de ser receptivo ao que a criança está querendo dizer, ali, agora, ou o que gostaria de dizer.

Por que dar preferência à escuta ativa?

Ouvir as emoções permite espaço para a expressão de necessidades íntimas. Se as crianças estão felizes, elas demonstram alegria, ardor, entusiasmo, etc. Caso contrário, a angústia, a raiva, o ciúme são acionados como um sinal de alerta. Graças à ajuda do pai ou mãe que o ouviu, a criança põe o que está vivenciando em palavras e pode então se conectar consigo mesma. Ele não é aquilo que sente. Este trabalho de unificação interior permite à criança aceitar-se como ela é.

A escuta ativa também permite que as crianças entrem em uma relação de confiança. Assim, elas aprenderão a viver a sua vida contando com seus pais, ainda que eles não tenham que resolver seus problemas, há aí um esforço para compreendê-las. Depois de aceitar o sentimento da criança como sua forma de reagir, podemos dar continuidade ao diálogo: “Como você vai garantir que isso não volte a acontecer?”.

O psicólogo americano Thomas Gordon, promotor da escuta ativa, sugere perguntar: de quem é o problema? Se depender da criança, cabe a ela resolver. Obviamente, os pais podem ajudar, oferecendo ajuda: “O que você precisa? Posso ajudar?”. Ao permitir que ele controle suas emoções, seus pais lhe dão os meios para encontrar suas próprias soluções e ser um ator em sua própria vida.

Como saber se a criança se sentiu ouvida?

Sua atitude demonstra um feedback imediato: o relaxamento corporal, um sorriso, um olhar de conivência. E ele vai querer continuar o diálogo, se permanecermos dispostos a ouvi-lo. A escuta ativa leva tempo e acarreta um risco: não sabemos até onde ela nos levará.

Se eu ouvir meu filho em tudo, será que ele não vai pensar que eu acredito em tudo que ele fala?

Devemos nos livrar desse equívoco imediatamente, que afirma que ouvir é negar a si mesmo ou aprovar o outro. Ouvir bem exige focar no outro, permanecendo você mesmo. Quando o outro fala comigo, suas palavras ressoam em mim. Cada um de nós escuta com o que é e, portanto, também com seus defeitos. Não existe escuta perfeita. Aprender a ouvir é apenas tender a compreender o que o outro está passando, sem assentir ou julgar. As respostas da escuta podem se manifestar como um julgamento precipitado (“você não deveria”), bons conselhos ou ainda o consolo (“não fique triste”). Em vez de dizer à minha filha, que me contava as pequenas vitórias do seu dia, um “muito bem, minha querida” (julgamento), preferi dizer a ela: “Você sentiu que era disso que deveria fazer” (compreensão), o que lhe permitiu se apropriar plenamente de sua ação.

Existem horários e lugares especiais para praticar a escuta ativa?

Sim, existem momentos que podemos aproveitar. Quando você está sozinho com um de seus filhos, por exemplo, de manhã enquanto o veste, a caminho da escola, ao viajar de carro, etc. Uma noite após o jantar, me vi sozinho com meu filho de 14 anos, que me disse: “Mãe, se eu sair com uma menina, tudo bem por você? Passamos a noite toda conversando!

Mas isto não é o suficiente. Gastar tempo com o outro é uma decisão. Pessoalmente, eu me determinei a passar um momento com cada um individualmente, antes de dizer boa noite. Me surpreendi! Neste momento as crianças podem nos contar coisas que poderiam ter passado completamente despercebidas em outras circunstâncias.

É difícil estar disponível o tempo todo. O que fazer quando você não consegue parar para ouvir?

Podemos mostrar a nossa empatia “o que você me diz parece muito importante” e pedir para marcar a conversa em um horário certo. Contanto que cumpramos nossa promessa! O pai recebe a demanda do filho, mas também abre espaço para sua própria necessidade. Se ele não se sentir capaz de ouvir, pode confiar essa tarefa ao seu cônjuge. O papel da mãe às vezes é sugerir que certas confidências sejam feitas ao pai. E se, dentro da família, a escuta não é possível (mesmo sabendo que os pais sempre são os primeiros educadores), é possível pedir ao chefe escoteiro, ao padrinho ou madrinha, aos avós, ao padre, ou a um especialista competente, que os escute. Se esses atores têm um relacionamento natural com seus filhos, o relacionamento de confiança será estabelecido com mais facilidade. Finalmente, se não conseguir parar para escutar, isso pode ser um sinal de que você mesmo precisa ser ouvido. O maior serviço que podemos prestar por nossos filhos é atender às nossas próprias necessidades. Acredito fortemente na virtude das redes de amigos e do apoio mútuo em grupos.

A escuta é mais fundamental ainda para os cristãos?

Não, ela é um requisito para todos, você não precisa ser cristão para isso. Mas sem dúvida é uma forma maravilhosa de viver a caridade com o próximo. Na família, meu marido e meus filhos são os meus mais próximos. Ouvir é um ato de amor verdadeiro que permite que você se sinta próximo do outro enquanto permanece você mesmo.

Como cristãos, temos a sorte de ter o modelo de Jesus, e de observar a maneira como ele praticou essa escuta. No Evangelho, suas perguntas: “O que você quer que eu faça por você? Do que você estava falando no caminho?” nos permitem exprimir o nossos desejos, sentimentos ou fé. Vejamos a sua maneira de acompanhar os discípulos de Emaús. Eles saem de Jerusalém por um caminho errante, uma forma de mostrar que estão se extraviando. Jesus não dá sermões, mas caminha ao lado deles incondicionalmente. Ele gasta tempo com eles, deixa espaço para que expressem o estado em que se encontram: tristes, decepcionados. Jesus começa ouvindo-os até o fim, e só então começa a ensiná-los, quando então são os discípulos que passam à escuta.

Ao contrário de Jesus, às vezes somos os pais que impõem condições: “Quero ouvi-lo, mas antes quero que arrume seu quarto”. A técnica da escuta é algo de domínio humano, por isso não devemos nos abster dessa graça em nenhum momento. Uma graça que vem de Deus!


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Entrevista por Raphaëlle Simon

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