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Como aproveitar a quaresma com a ajuda dos mestres espirituais

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Regina Foster | Shutterstock

Edifa - publicado em 15/02/21

Durante a Quaresma, deixe-se guiar por leituras espirituais e caminhe rumo à Páscoa junto à grandes mestres antigos como São Francisco de Sales ou São Tomás de Aquino

É tão essencial para um cristão ler os textos da Tradição reconhecidos pela Igreja como ler a Sagrada Escritura. Padre Max Huot de Longchamp, explica a importância de todo cristão redescobrir os grandes clássicos da espiritualidade cristã.

São Francisco de Sales, São Cláudio La Colombière, Bérulle, Olier… Devemos realmente nos interessar por esses autores antigos com estilos às vezes já ultrapassados?

O Concílio Vaticano II nos lembra que a Sagrada Escritura e a Tradição da Igreja provêm da mesma fonte, da única Revelação que Deus nos dá de Si mesmo. No caso dos mestres espirituais, podemos dizer que seu ensino está em contato direto com sua experiência de Deus, e por isso eles estão no coração de toda Tradição. A própria Escritura é um primeiro resultado dessa Tradição, visto que foi a Igreja que discerniu e então estabeleceu o cânon das Escrituras. E é o mesmo discernimento que a fez declarar oficialmente ao longo dos séculos a santidade de alguns dos seus membros, tornando assim o seu ensino normativo para a fé dos cristãos. Ao longo deste processo, “a ciência divina se marca em nós”, diria São Tomás, fazendo-nos compreender o que ainda não compreendíamos sobre o mistério de Cristo, permitindo-nos vivê-lo e anunciá-lo cada vez melhor.

Todos os fiéis católicos são chamados a mergulhar nos escritos da Tradição espiritual da Igreja?

É tão essencial para um cristão conhecer os textos da Tradição autenticados pela Igreja como conhecer a Sagrada Escritura. São Tomás de Aquino trata simultaneamente da inspiração bíblica, da vida contemplativa, da teologia e da pregação: tudo isso caminha junto, porque é no mesmo ato que recebemos e que o transmitimos a palavra de Deus. Evangelizar é viver continuamente a Encarnação na proporção da nossa exposição ao Espírito Santo, permitindo que a Palavra se faça carne e fale em nós.

Essa tradição de conhecer os mestres espirituais não seria reservada apenas a intelectuais?

Não confundamos o intelectual e o espiritual: um texto espiritual pede para ser lido “no Espírito que inspirou seu autor”, conta-nos a Imitação de Cristo. Este Espírito é aquele cuja carta aos Romanos nos fala, o qual Cristo derramou a caridade em nossos corações. Portanto vemos que a questão é não ter estudado muito. A palavra de Deus é uma declaração de amor, e sua lógica é a do coração, que nada tira da inteligência e da cultura, mas age como uma chave.

Por que, em sua opinião, esta Tradição não é tão reconhecida?

Uma causa me parece ser o à distância tomada por parte das universidades no século XIII, estabelecendo uma separação entre a literatura espiritual e a teologia universitária. Durante sete séculos, os professores de teologia desprezaram autores como São João da Cruz e São Francisco de Sales, ainda que, paradoxalmente, sejam geralmente estes últimos os declarados doutores da Igreja! Hoje é possível ser doutor em teologia sem ter lido uma página de Teresa d’Ávila ou de João da Cruz, ambos doutores da Igreja!

O resultado é que muitas paróquias ou dioceses oferecem formação bíblica de qualidade, mas muito pouco é oferecido para aprender a ler Teresa de Ávila que nos explica sobre desenvolvimento da vida de oração, ou São Francisco de Sales que nos explica sobre os graus do amor de Deus.

O que torna um escrito espiritual um texto oportuno para a meditação dos devotos?

A canonização, pelo menos nos tempos modernos, é um rótulo oficial que convida os fiéis a seguir o ensinamento do santo sem reservas. E a Igreja reforça ainda mais este convite quando o santo é declarado “doutor”. Em todo caso, o primeiro ato de um processo de canonização é verificar com uma lupa a perfeita concordância desse ensinamento com o da Igreja. Portanto, comecemos pelos santos, pelos grandes, sem nos perdermos nos escritos duvidosos que tratam jogam com os sentimentos de que não nos convidam verdadeiramente à fé: “Reparei que muitos não fazem diferença entre Deus e o sentimento de Deus, entre a fé e o sentimento da fé, que é um defeito muito grande!”, disse São Francisco de Sales.

Devemos então ler apenas os escritos de santos “oficiais” para nutrir nossa vida espiritual?

É verdade que a Tradição espiritual tem muitos autores que não são canonizados. Existem aqueles que claramente poderiam ser canonizados e não apresentam nenhum problema de confiabilidade, como um padre de Caussade, na França, por exemplo, autor do famoso livro sobre o abandono à providência divina. Há outros, como Jeanne Guyon, que são fascinantes, mas questionáveis. O fundamental é ser orientado por alguém que seja competente e que, em particular, saiba indicar o grau de fiabilidade do texto proposto. Orientar os fiéis em suas leituras espirituais faz parte das missões da Igreja, depositária da Tradição.

Ler ou meditar, é rezar? Qual é a ligação entre a leitura de autores espirituais e a oração?

O cartuxo Guigues II, no século XII, expõe o percurso da vida espiritual do cristão nas poucas páginas de sua obra Escala do Paraíso. Ele descreve o monge como um “ruminante”: conforme a vaca pasta a grama, engole-a, regurgita-a e mastiga-a antes de engoli-la novamente e assimilá-la. Assim também há um movimento de vaivém contínuo na vida espiritual entre a palavra de Deus lida e meditada, e sua digestão e assimilação, que corresponde à própria contemplação.

Qualquer relacionamento entre duas pessoas precisa de momentos de conversa e momentos de silêncio: casais de noivos falam um com o outro, depois ficam em silêncio, depois falam novamente diante de um novo silêncio que às vezes diz mais do que o que eles disseram um ao outro ao conversarem, e é assim que sua vida comum é gradualmente tecida. É assim que a oração vai liberando gradualmente em nossos corações a caridade que Deus derrama sobre a nossa vida. Os momentos de oração explícita são necessários para que toda a vida se torne oração. É também por isso que existem mil formas de rezar, com muitos ou poucos textos dependendo dos gostos de cada um, com muitas ou poucas palavras, gestos ou imagens, dependendo dos tempos e temperamentos, mas todos convergem para esta transformação em Deus.

Alguns textos estão desatualizados em comparação ao mundo atual?

O mundo mudou, uma pena! “Stat crux dum volvitur orbis!” (“O mundo está mudando, a Cruz não se move!”), dizem os Cartuxos. A pregação da Igreja não mudou. Claro que os textos envelhecem, por isso insisto na necessária competência dos professores, que vão tirar os obstáculos técnicos criados por esse envelhecimento.

Mas não o ministério apostólico, como o descreve São Paulo, não serve precisamente para ensinar os fiéis a ler e interpretar? E isto “até que todos cheguemos à unidade da fé e ao pleno conhecimento do Filho de Deus, ao estado de homem feito, à medida da perfeita estatura de Cristo”, escreve aos Efésios. Esta é a escola dos santos! E não exageremos na distância cultural entre um São Bernardo do século XII e o leitor de uma revista cristã. Temos a sorte de pertencer a uma língua e a um país de grande tradição religiosa. O sucesso dos textos oferecidos em nossas revistas prova que São Francisco de Sales permanece muito legível.

O que o seu apostolado lhe ensina sobre a sede espiritual dos fiéis cristãos?

Uma sessão de leitura tradicional é bem-sucedida quando os participantes saem não apenas mais instruídos, mas mais cristãos. Para isso, devemos dar as palavras que nos abrirão à graça, devemos “falar a língua que Deus fala”, diria João da Cruz. Para ensinar esta língua, o pastor é quem abre o Evangelho na página certa, permitindo às ovelhas compreenderem cada vez melhor tudo o que Deus vive com ele e nele.

Os tempos atuais se prestam a isso melhor do que há vinte anos: a ideologia não interessa mais, nem tampouco a Igreja como instituição. Por outro lado, Deus apaixona os corações e a demanda propriamente religiosa explode. Para os cristãos, isso se manifesta em um retorno à oração, adoração e confissão. E entre outros, observo que o interesse pela grande literatura mística passa a ser fruto de pessoas que, embora se declarando agnósticas, nunca estudaram e publicaram tanto os textos de nossa Tradição.




Leia também:
Santa Mônica e Santo Agostinho: exemplos de persistência e conversão

Entrevista por Sophie le Pivain

Tags:
DoutrinaQuaresma
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