Aleteia

A palavra “cretino” é derivada de “cristão”?

Creative Commons
Compartilhar
Comentar

Texto de matemático italiano gerou polêmica

A palavra “cretino” é derivada de “cristão“?

Esta foi a interpretação adotada pelo matemático italiano Piergiorgio Odifreddi no início de seu livro “Por que não podemos ser cristãos (e muito menos católicos)”. A afirmação gerou polêmica na Itália. Escreveu Odifreddi:

“Com o passar do tempo, a expressão (‘cristiano’, ou cristão em italiano) passou a indicar primeiro uma pessoa qualquer, como no inglês ‘christened’, literalmente ‘nomeado’ ou ‘chamado’ e, depois, um ‘coitado’. O próprio termo ‘cretino’ deriva de ‘cristão’ (através do francês ‘crétin’, que vem de ‘chrétien’, ou seja, ‘cristão’), com uso já atestado na Enciclopédia em 1754: ‘…porque tais indivíduos eram considerados pessoas simples e inocentes, ou porque, estúpidos e insensatos como são, parecem quase absortos na contemplação das coisas celestiais’”.

DÚVIDA NA ACADEMIA

A Academia della Crusca, a mais prestigiosa instituição linguística da Itália, contesta a interpretação “radical” de Odifreddi dizendo não estar claro a quem se refere a expressão “tais indivíduos” no fragmento que ele menciona.

De fato, o Vocabulário Etimológico da Língua Italiana, de Ottorino Pianigiani, afirma que o termo cretino “corresponde ao francês crétin, ou, no dialeto da Gironda, crestin, e é o nome dado a cada uma das pobres criaturas de pequena estatura, mal moldadas, com grande bócio, encontradas especialmente nos vales dos Alpes Ocidentais; para alguns, do latim christianus (fr. chrétien), porque tais indivíduos eram considerados pessoas simples e inocentes, ou porque, estúpidos e insensatos como são, parecem quase absortos na contemplação das coisas celestiais”.

Na referência aos habitantes dos vales alpinos, o autor está falando de uma doença grave e relativamente rara, conhecida como cretinismo: trata-se de uma diminuição da atividade tireoidiana que afeta o desenvolvimento físico e intelectual. Essa condição ocorria com mais frequência nos vales dos Alpes e era atribuída ao consumo de água obtida das neves derretidas.

BRINCANDO COM A SEMÂNTICA

Os acadêmicos sugerem que é possível brincar, como faz Odifreddi, “com a semântica escorregadia da palavra cretino porque ela é polissêmica, embora hoje não seja imediatamente percebida como tal”. Mas não se pode parar nas aparências. O vocabulário de Pianigiani é datado de 1907 e, ao longo do tempo, o termo tomou duas acepções diferentes: a) pessoa de pouca inteligência; b) pessoa afetada pela doença chamada cretinismo.

A Academia italiana prossegue: “Não estamos diante de dois termos homônimos, aos quais, nos dicionários, se dedicam duas entradas diferentes e para os quais se lançam diferentes hipóteses de origem e desenvolvimentos: a raiz etimológica de ‘cretino’, em ambas as acepções, é, efetivamente, o termo ‘cristão’, como já sugeria Pianigiani”.

CRISTO SOFREDOR

É interessante, a este respeito, estudar a evolução semântica que fez um termo referido aos seguidores do cristianismo passar a indicar as pessoas afetadas por certo tipo de doença.

De acordo com alguns (Le Robert, ATLIF, Devoto Oli, Dir), esta transformação é explicada pelo uso de eufemismos: para identificar os doentes, a palavra era usada no sentido comiserativo de ‘pobre homem’, ‘coitado’, em referência à imagem do Cristo sofredor“.

CRETINICE?

Como quer que seja, o que realmente corre sério risco de parecer “cretino”, na acepção atualmente mais comum da palavra, é descontextualizar fatos para tentar com isso ridicularizar alguém. Principalmente se quem procura ridicularizar o outro se apresenta como autoridade “científica”.

Temas deste artigo:
cultura
Boletim
Receba Aleteia todo dia