Corria o ano de 2005 que, para a Igreja Católica, era o Ano da Eucaristia. No mundo fez barulho o atentado de Londres em julho; não fez barulho, mas é impactante até hoje o lançamento da plataforma de vídeos YouTube; já o mundo ficou inquieto com a morte violenta da missionária Irmã Doroty Stang, no Brasil. Contudo, 2005 ficou marcado pela partida do Papa João Paulo II.
Emoção, gratidão, tristeza e dor tomaram conta dos católicos e de pessoas que admiravam o pontífice que por 26 anos esteve à frente da Igreja Católica.
No ano 2000 o Papa João Paulo II conduziu a Igreja Católica durante a celebração do Jubileu por ocasião dos dois mil anos do nascimento de Jesus. Embora enfraquecido pela idade e pela doença de Parkinson, a disposição do Papa para se fazer presente nas cerimônias e, de modo especial, na Jornada Mundial da Juventude em Roma, mostrou a força interior do cardeal polonês que foi escolhido como papa em 1978.
Além da cortina de ferro
O Papa João Paulo II, ao se apresentar aos fiéis após sua eleição afirmou: “Venho de uma terra distante”. A Polônia não é muito longe de Roma, se chega após um dia de viagem. Mas, naquela época, a Polônia estava sob a cortina de ferro, ou seja, fazia parte da União Soviética e as barreiras eram mais amplas do que os muros, como aquele de Berlim.
Na Polônia havia dois cardeais: O Cardeal Carlos Wojtyla que se tornou papa; e o Cardeal Estevão Wyszyński, que era o primaz da Polônia. Wyszyński tinha 77 anos quando houve o conclave que elegeu seu compatriota. Conhecido como Cardeal de ferro, suportou as durezas da Segunda Guerra Mundial e da ocupação soviética. Em 1966 propôs a celebração do primeiro milênio do batismo da Polônia com uma novena de nove anos que foi um símbolo da resistência da fé diante das perseguições soviéticas. Isso rendeu a Wyszyński o nome de Cardeal do Milênio.
O Papa João Paulo II conduziu a Igreja para o novo milênio por meio de uma preparação de três anos dedicados à reflexão sobre a Santíssima Trindade. Além disso, visitou 697 cidades em 129 países em suas emocionantes viagens apostólicas. Escreveu 14 encíclicas, proclamou 482 novos santos e criou 231 cardeais em 9 consistórios.
Após o grande jubileu do ano 2000, perguntaram ao Papa se não deveria renunciar devido à idade, 80 anos, e o Mal de Parkinson que avançava. Com sabedoria, o Papa respondeu: “A força não é um problema meu, mas daquele que me chamou”. E assim seguiu confiando em Deus.
Janela do céu
No início de fevereiro o Papa foi internado por problemas respiratórios e ficou quase um mês no hospital. Foi necessária a realização de uma traqueostomia que causou dificuldades para o Papa falar. Contudo o pontífice se esforçava para se apresentar à janela do hospital para abençoar silenciosamente os fiéis.
Na Semana Santa de 2005 o Papa voltou ao Vaticano, mas estava debilitado e não pode conduzir todas as cerimônias na Praça de São Pedro. No domingo de Páscoa, dia 27 de março, no qual costumava saudar em dezenas de línguas os fiéis, o Papa não pronunciou a bênção. Na hora do Angelus se aproximou da janela da qual ao longo de mais de duas décadas saudava o povo e não conseguiu dizer palavra, mas sua dolorida fisionomia revelou o testemunho de força e dedicação.
A saúde do Papa se enfraqueceu muito naquela semana e durante a noite os fiéis se reuniam na Praça de São Pedro para rezar o Rosário pelo Papa. Na sexta-feira, primeiro dia de abril, a vigília de oração reuniu milhares de jovens. O Papa foi informado do que acontecia e pronunciou suas últimas palavras, direcionadas aos jovens: “Antes eu procurei vocês. Agora vocês vem até mim. Eu agradeço”.
Na vigília da noite seguinte, após o Rosário, o Bispo Leonardo Sandri comunicou a morte do Papa, às 21h37 daquela véspera do domingo da misericórdia. Logo após, os fiéis entoaram o canto da Salve Regina e os sinos do Vaticano soaram em luto.
Chefes de estado compareceram aos funerais no Vaticano, em 8 de abril. Fiéis de todo o mundo se emocionaram e prestaram homenagens. Sobretudo os jovens mostravam gratidão e tristeza pela partida daquele que era “o papa deles”. Na missa antes do sepultamento, o Cardeal Joseph Ratzinger recordou a imagem de João Paulo II nas janelas do hospital e do Vaticano para abençoar silenciosamente e garantiu que o saudoso papa nos “abençoa da janela do céu”.