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Reforma da cúria: as mudanças do Papa Francisco

FILIPPO MONTEFORTE

Chiara Santomiero - publicado em 22/04/13

Escolher cardeais de todos os continentes é abrir-se à lógica da periferia, deixando de pensar em uma Igreja eurocêntrica

Oito cardeais de cinco continentes: estes são os componentes da comissão instituída pelo Papa Francisco para ajudá-lo no governo da Igreja. Qual será a influência desta inovação da cúria na vida da Igreja?


A Aleteia fez esta pergunta a Andrea Grillo, professor titular de teologia sacramental no Ateneu Pontifício S. Anselmo de Roma e no Instituto de Liturgia Pastoral da abadia de Santa Justina de Pádua.

Alguns dizem que a eleição do Papa Francisco é um marco decisivo na Igreja. É verdade?


É uma eleição que certamente demonstra a vontade do Papa de influenciar a estrutura da cúria romana. A comissão é um instrumento funcional para chegar a um objetivo global, que é o reequilíbrio entre o primado de Pedro e o grupo dos 12, reforçando a colegialidade com a atenção aos territórios mais distantes de Roma.


A relação entre o Papa e os cardeais é somente uma das formas da colegialidade que repercute em todos os bispos. A comissão, como se entende hoje, tem o dever de refletir sobre uma série de intervenções de reforma sobre a maneira como a Santa Sé se comunica com a base, a forma como os bispos são consultados pelo poder central.


Provavelmente incidirá na estrutura do Sínodo, que agora se reúne a cada dois anos e no qual os bispos do mundo têm pouco espaço para influenciar, porque os conteúdos já estão substancialmente determinados pela Cúria, tornando-a uma estrutura de maior periodicidade, quando não permanente, e com um poder real de conselho.


Podemos esperar, portanto, momentos mais significativos do trabalho desta comissão, que poderão acontecer, como mínimo, durante um ano, já que os encontros começam em outubro. Ainda que não possamos superestimar a comissão, tampouco se pode reduzir sua importância a um maquinário jurídico que distribui o peso do governo da Igreja: este ponto é verdade, mas a reforma é a maneira como a Igreja se apresenta.


Escolher cardeais de todos os continentes é abrir-se à lógica da periferia, deixar de pensar em uma Igreja eurocêntrica, insistindo muito para que se abra ao exterior.


É verdade que há necessidade de um centro unificador, mas a unidade não significa uniformidade nem homogeneização. Esta é uma tentação na Igreja e seu grande equívoco na época moderna: olhar para si mesma como para um bloco único.


O Papa está ao serviço da unidade na diversidade: a uniformidade destrói a Igreja, a fecha e a afunda. Os cardeais tiveram a coragem de eleger alguém que, desde o começo, disse que a Igreja não deve ser autorreferencial, mas colocar-se ao serviço do outro, que é Cristo nos mais pobres.


Os gestos de Francisco, desde o início do pontificado, que tanto surpreenderam pela sua novidade, devem se tornar um estilo eclesial completo, que deve passar necessariamente pela reforma institucional. Trata-se de um passo necessário e muito delicado.

O comunicado de imprensa que anunciou a decisão de Francisco destacou que o Papa seguiu uma sugestão das congregações gerais anteriores ao conclave. Poderíamos dizer que existe um impulso em direção a uma colegialidade mais definida por parte de toda a Igreja?


Por meio do comunicado de imprensa da Secretaria de Estado, entende-se uma eleição que, de alguma maneira, precede do Papa e que encontrou um consenso em suas intervenções antes do conclave, tanto que levou à sua eleição. É uma mudança de rumo que provocará certo incômodo, mas que transforma a maneira de lidar com a autoridade, estruturada a partir de séculos de costume.


Em uma Igreja rica em culturas diversas, o debate é positivo. Pela primeira vez, aplica-se completamente a intuição do Concílio, que acendeu um entusiasmo que com o tempo foi esfriando. Há um novo passo do Espírito que o 50º aniversário do Concílio voltou a propor: desde a comemoração da abertura do Concílio, em 11 de outubro, muitas coisas mudaram e isso não é por acaso.


Retomando os textos conciliares, percebemos que mudanças que nos pareciam impossíveis (a não ser que acontecessem com o passar dos séculos) estavam ao alcance das mãos. E um processo que ocupará a Igreja durante os próximos anos, já que será necessário tempo; o que está em jogo não são apenas os equilíbrios romanos.

Debate ou ferida?


A Igreja estará preparada para o debate quando renunciar às antigas formas de pertença. É um processo que afeta todos: bispos, sacerdotes e leigos. Todos devem deixar costumes cômodos, mas inúteis, estilos de participação mediante os quais se dá formalmente o "sim", mas depois prevalece o desacordo. O estilo do debate é um confronto levado adiante na verdade.


O Concílio apresentou as premissas; agora, temos de seguir com as consequências. Confio em que a parte preponderante da Igreja será capaz, aceitando a necessidade de uma "conversão pastoral" como critério para interpretar também a nova evangelização.

Não se pode evangelizar sem sair de nós mesmos e dos velhos esquemas: a novidade dos gestos de Francisco é uma maneira, ainda que não a única, de dizer isso.


A maneira como a Igreja viveu a transição complicada da renúncia de Bento XVI à eleição do novo Papa e a maneira como esta aconteceu diz muito sobre esta instituição com relação ao que ela pensa sobre si mesma ou se entende comumente.


Vendo Francisco aparecer no balcão para a bênção, lembrei do filme de Moretti, "Habemus Papam": acho que desta vez a realidade superou a ficção e nos deu um final que o diretor não teria podido imaginar.

Por que Francisco, desde o começo do Pontificado, destacou mais sua eleição como bispo de Roma que como Pontífice?


Francisco aceitou seu papel como Papa sob a condição de ser o bispo de Roma para poder desenvolver um ministério de unidade a partir desta função. Imediatamente, recuperou uma relação com o seu povo por meio de um gesto único e exemplar, que foi o de pedir a bênção, saindo do estereótipo que impõe ao Papa uma identidade muito além desta relação.


Foi um gesto simbólico fundamental, que destaca que este papado está à altura para mudar de rumo: não parte do geral, mas do particular; não dos valores, mas dos rostos. De fato, Francisco fala sempre por meio de casos concretos, enfrenta os temas de fé por meio da vida das pessoas.


Atuando como bispo de Roma, ele recupera o serviço à colegialidade de pontífice. Isso, no campo do diálogo ecumênico, do diálogo inter-religioso, dos temas éticos, afirma uma estratégia que consiste em levar ao divino partindo do que é plenamente humano: a primazia do rosto para chegar ao valor. Nos seus escritos, lemos que a luta contra o relativismo não deve criar marginalização, para que todos se sintam acolhidos.

A importância do valor não pode superar a do encontro: este é um programa que até agora foi interpretado de maneira impecável, mas que deve se tornar o estilo de toda a Igreja.

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