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Francisco, a cultura e a opção pelos pobres

Francisco Borba Ribeiro Neto - publicado em 26/07/13

Quem ler sempre os pronunciamentos de cunho mais político do Papa verá que a denúncia se centraliza, sobretudo, na cultura individualista e egoísta

Sem fazer discursos teóricos abstratos, mas comentando situações concretas da vida de seus interlocutores, o papa Francisco vai explicitando seu modo de compreender a ação transformadora da sociedade que considera adequada para que a Igreja leve adiante a sua opção pelos pobres.

Em seu discurso na favela de Manguinhos, no Rio de Janeiro, não partiu de análises estruturais, nem terminou com grandes reivindicações aos governos – ainda que a realidade brasileira e latino-americana bem mereçam boas análises estruturais quanto fortes movimentos reivindicatórios. Partiu da xícara de café que se oferece ao amigo que chega, ou da “água no feijão” que aumenta quanto o dinheiro é pouco e são muitas as bocas para sustentar. Terminou com exortações para que tanto os jovens quanto as demais pessoas não desistam de lutar pelo bem comum e pela justiça.

Para entender esta posição do papa Francisco precisamos entender, em termos gerais, a compreensão do papel do pobre no processo de transformação da sociedade segundo a visão marxista tradicional e a visão culturalista seguida pelo papa. Para o marxismo, o pobre é o grande agente transformador da sociedade por causa de sua posição nas relações socioeconômicas do capitalismo. Tanto sua consciência quanto seu papel no processo de transformação são determinados pelas relações materiais em que se encontra. A posição culturalista irá considerar que o pobre é o grande agente transformador da sociedade na medida em que se mantém fiel a uma visão de mundo e a uma prática social solidária que nascem de sua história social e cultural, de sua educação, das relações interpessoais que estabelece com os demais. Sua consciência depende da formação cultural (não confundir cultura com erudição) que recebe e da sua fidelidade aos valores que constroem o bem comum. Seu papel no processo de transformação não é o resultado de uma determinação material, mas uma função de sua mentalidade e do quanto está disposto a arriscar sua liberdade na defesa do bem comum.

Na América Latina, a Igreja Católica foi fundamental para criar uma cultura solidária e de compromisso com o outro que é fundamental para a superação das injustiças sociais e para a construção do bem comum. Uma cultura centrada no valor da vida, na contribuição da família à sociedade, na educação do ser humano como pessoa. Uma cultura que sem dúvida precisa crescer numa consciência política capaz de enfrentar os problemas da sociedade latino-americana, mas que está sendo cada vez mais ameaçada por uma cultura egoísta e individualista, que fecha o indivíduo em si mesmo, deixando que ele cresça na consciência da necessidade de lutar pela justiça e de se solidarizar com os que sofrem.

Mas voltemos à delicada concretude do papa Francisco em seu discurso em Manguinhos. Ele começa falando justamente daquelas relações sociais simples e corriqueiras, nas quais as pessoas vão se encontrando e reconhecendo a importância de umas para as outras, praticando a solidariedade e se reconhecendo como um povo. Não está falando para teóricos e, portanto, sua preocupação é que estas pessoas reconheçam em suas vidas estes laços de solidariedade, para daí recuperar a consciência da própria dignidade, de seus direitos e da necessidade de lutarem, solidários, para a construção do bem comum.

Quem ler sempre os pronunciamentos de cunho mais político do papa Francisco verá que a denúncia se centraliza, sobretudo, na cultura individualista e egoísta que domina o mundo globalizado. Não por um moralismo piedoso, mas sim porque esta cultura do ter destrói a solidariedade tradicional do povo, dificultando a construção de um verdadeiro processo de mudança social.

E a conclusão final é sempre um convite para que as pessoas assumam o protagonismo de suas vidas, não de forma individualista e egoísta, mas solidária e comprometida sobretudo com os mais pobres e com os que sofrem. O olhar capaz de ver a mudança da sociedade não é o olhar determinado por uma posição de classe social, mas o olhar iluminado pelo amor de Cristo, que vê a necessidade da fraternidade e da dedicação ao próximo. 

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