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Religião

O que o Papa quis dizer em Manguinhos

Rafael Tavares - publicado em 27/07/13

A indiferença é inaceitável, a esperança

Uma insistência que nesta coluna está sendo feita em Aleteia é que não podemos ficar no encanto de gestos memoráveis de Francisco e das calorosas atitudes do Papa latino que retorna ao seu continente natal e, por obra da Providência, chega ao maior país desta parte do globo que também é o país com o maior número de católicos no mundo. Não podemos dar-nos o luxo de ver a visita de Francisco com superficialidade. Pedro deve ser escutado, e o seu Sucessor vem para mostrar seu carinho, mas também para transmitir uma mensagem sumamente impactante para um país com o nível de desigualdades sociais como o Brasil: a indiferença ou a desesperança são inaceitáveis para um cristão. Mesmo com os problemas que temos, a realidade pode mudar se nós mudamos.

Muito se falou neste país sobre a necessidade da Igreja estar junto às bases da sociedade, ou nas periferias, como se referiu Francisco. Muitos se deixaram fascinar por uma leitura do Evangelho a partir das teses de Karl Marx e outros, segundo as quais a Igreja deveria engajar-se na luta de classes e fazer-se voz dos marginalizados, mesmo que isto implicasse atropelar sua doutrina. Entretanto, depois de tanta ideologia dentro e fora da Igreja, podemos ver algum resultado concreto em favor dos pobres? Não seguem iguais ou piores as condições de vida? Em muitos lugares onde esta errada leitura da vida cristã ocorreu a liturgia é desrespeitada em sua beleza, as pastorais se tornaram púlpitos de política e não poucos quiseram confrontar a Igreja latino-americana com Roma como se o Corpo Místico de Cristo fosse uma entidade supostamente destinada a tornar-se o sonhado “paraíso do proletariado” ou exigindo que Ela se modernizasse a modo de uma democracia, enquanto os pobres seguiam e seguem sendo mais beneficiados pelos que são fiéis a Roma e à sã doutrina. A Igreja é perita em humanidade, Ela dispensa a ideologia.

A solidariedade jamais é desculpa para que a Igreja deixe de lado os ensinamentos de Cristo, e a doutrina social da Igreja atesta que Ela jamais foi cúmplice das injustiças sociais. Entretanto, o Papa assinala no seu discurso em Manguinhos algo muito mais profundo como a raiz desta erva daninha que é a brecha entre ricos e pobres. Segundo o Papa a origem está “na cultura do egoísmo, do individualismo, que frequentemente regula a nossa sociedade, aquela que constrói e conduz a um mundo mais habitável, mas sim a cultura da solidariedade”. 

Solidariedade. Muitas vezes João Paulo II usou esta palavra em seus discursos e pronunciamentos e podemos até dizer que este vocábulo mudou a sua natal Polônia e a Europa do Leste ao longo da guerra fria. Em uma anterior coluna destacava-se o gesto do Papa Francisco como uma mostra de coerência entre suas palavras e suas ações. Temos um Papa solidário, um Papa que quer uma igualdade social baseada na igual dignidade de todo ser humano, e não uma igualdade de classes sociais. O mesmo Evangelho afirma que “pobres sempre tereis entre vós”, e o próprio Jesus não pôs abaixo o sistema de classes sociais e o mesmo foi feito pela Igreja que entrega sua riqueza, que é a fé, a pobres e ricos por igual. 

É verdade que as desigualdades e as injustiças sociais clamam a céu. Mas a doutrina da Igreja, o prévio magistério petrino confirmam as palavras do Papa em Manguinhos: “é necessário dar o pão a quem tem fome; é um ato de justiça. Mas existe também uma fome mais profunda, a fome de uma felicidade que só Deus pode saciar”. 

Enquanto a visita de Francisco começa a fazer história, seguramente entre todos os discursos e homilias no país, constará entre as frases mais impactantes uma tomada de seu discurso na favela carioca: “Não existe verdadeira promoção do bem-comum, nem verdadeiro desenvolvimento do homem, quando se ignoram os pilares fundamentais que sustentam uma nação, os seus bens imateriais: a vida, que é dom de Deus, um valor que deve ser sempre tutelado e promovido; a família, fundamento da convivência e remédio contra a desagregação social; a educação integral”.

Nestas curtas, mas certeiras palavras, o Papa praticamente realizou um diagnóstico da situação atual do país, que há pouco, teve multidões saindo às ruas não para aclamar cheia de alegria a sua, mas para elevar a Brasília e ao céu um clamor por justiça. Já nas bem-aventuranças Jesus falava da fome de justiça, tratada porém como fome de santidade. No Evangelho santidade e justiça praticamente se equivalem. Por isso, longe da vivência autêntica e da promoção autêntica do homem, da sua aspiração mais profunda de infinito, não pode haver bem comum. Um pensador também latino-americano, leigo e fundador de uma família espiritual no Peru, Luis Fernando Figari, ecoava uma frase de Leon Bloy e acrescentava sua própria: “Não há maior tristeza que a de não ser santos, nem maior INJUSTIÇA que a de não sermos santos”.

Não é apenas na promoção de ideias que radica a solução dos problemas, mas na promoção do homem. É hora de dar um basta nos escritos, e na promoção da ideologia e começar a promover aquilo que faz do homem mais humano e mais santo: a vida e a família, os valores da sociedade, a bondade e a solidariedade, e uma educação que seja integral: que solidifique a fé na mente, no coração e ensine a pô-la em prática.

Tenhamos presente que ao longo da história foram os santos que mudaram o mundo, e isto se deve ao fato que as ideias convencem, mas os exemplos arrastam. Por nossa parte, estamos diante de uma das época de maiores desafios para a vida nascente e a família neste país. A Igreja sofre a pressão de ser relegada à sacristia e amordaçada, e as palavras ficam curtas para descrever o desastre da educação brasileira.

Diante disto que fazer? Fiquemos apenas com a resposta de Francisco em Manguinhos: “nunca desanimem, não percam a confiança, não deixem que se apague a esperança. A realidade pode mudar, o homem pode mudar. Procurem ser vocês os primeiros a praticar o bem, a não se acostumarem ao mal, mas a vencê-lo. A Igreja está ao lado de vocês”.

Rezemos para que a visita de Francisco não seja para os jovens e para os brasileiros de todas as idades uma ocasião apenas de comoção, mas de conversão.

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