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Será que o Papa Francisco realmente disse que os ateus vão para o céu?

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A mídia parece não ter interesse em nuances teológicas, mas só em manchetes sensacionalistas; o Papa apenas recordou o ensinamento perene da Igreja

Com um estilo que lembra as encantadoras cartas do Papa João Paulo I a várias figuras históricas, o Papa Francisco escreveu uma carta ao fundador de um importante jornal italiano. Durante o verão europeu, Eugenio Scalfari – um agnóstico – escreveu uma série de editoriais que apresentavam algumas perguntas teológicas. O Papa Francisco respondeu com uma bondosa explicação sobre a fé cristã e o encontro com Cristo.
 
Os jornalistas ignoraram a forte mensagem evangélica transmitida pela carta do Papa para se focar em um parágrafo no qual Francisco aborda a questão de se Deus pode perdoar os agnósticos e ateus. Nick Squires, do The Daily Telegraph, afirma que o Papa disse: "Deus perdoa aqueles que seguem a sua consciência". No entanto, em outras traduções da carta, como a feita pela CNBB, essas palavras não aparecem. O Papa escreve:
 
"Antes de tudo, você me pergunta se o Deus dos cristãos perdoa quem não crê e não busca a fé. Antecipando que – e é o fundamental – a misericórdia de Deus não tem limites se a pessoa se volta a Ele de coração sincero e contrito, a questão para quem não crê em Deus está em obedecer à própria consciência. O pecado, também para quem não tem fé, existe quando se vai contra a consciência. Escutar e obedecer a ela significa, de fato, decidir-se diante do que é percebido como bem ou como mal. E sobre essa decisão se joga a bondade ou a maldade do nosso agir."
 
Em nenhum lugar aparece que o Santo Padre tenha dito que "Deus perdoa aqueles que seguem a sua consciência". O que ele realmente disse é que "a misericórdia de Deus não tem limites se a pessoa se volta a Ele de coração sincero e contrito".
 
É estranho que o Sr. Squires tenha omitido aquela palavrinha tão importante, "se", e o que veio depois dela. A misericórdia de Deus é eterna, e Ele não quer que ninguém pereça. Mas, como ensina o Papa, não podemos receber a misericórdia de Deus se não a pedirmos, e fazemos isso voltando-nos para Ele "de coração sincero e contrito".
 
Simplesmente obedecer a própria consciência não é suficiente, e o Papa nunca disse que fosse. Francisco ensina que, sem a luz da fé e da crença em Deus, a única coisa que resta para o agnóstico ou ateu é a luz da sua consciência.
 
Esta luz limitada pode ajudar a pessoa a decidir entre o bem e o mal, mas a luz da consciência humana sozinha, sem a graça divina e a aceitação da revelação divina, é muito limitada. Não é que a consciência em si seja sempre uma luz limitada, mas essa luz é sombreada pelas influências do mundo secularizado e distorcida pelo pecado individual e pela ignorância.
 
A luz da consciência individual é como a chama de um fósforo em uma caverna escura. É melhor do que nada, mas não se compara com o holofote da graça iluminadora de Deus.
 
Mais uma vez, os escritores leigos pegaram um trecho dos comentários do Papa, fora do contexto, e os distorceram para fazer o Papa Francisco se encaixar em sua agenda "progressista".
 
É encorajador que os jornalistas enfatizem a misericórdia de Deus, mas o que Squires e outros perderam de vista foi o que o Papa recordou: que, para encontrar o perdão de Deus, é preciso recorrer a Ele não só com sinceridade, mas com um coração contrito.
 
Um coração contrito é um coração arrependido. É um coração e uma mente que reconhecem: "Eu sou um pecador que precisa de Deus. Preciso de ajuda e perdão. Eu preciso da misericórdia divina".
 
Assim que qualquer filho ou filha de Adão se volta para Deus com tal estado de espírito, a eterna misericórdia transborda.
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