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Cristãos: “bodes expiatórios” do Egito, afirma Anistia Internacional

© AIN

Alvaro Real - publicado em 15/10/13

Uma longa história de abuso e discriminação com relação aos cristãos coptas

Mais de 200 casas de cristãos foram atacadas e 43 igrejas acabaram gravemente danificadas em todo o Egito após os acontecimentos de 14 de agosto. Um relatório detalhado da Anistia Internacional revela como os serviços de segurança egípcios se mantiveram passivos na hora de proteger esta minoria.

O relatório explica detalhadamente como "as forças de segurança não impediram os ataques da multidão enfurecida, que incendiou e destruiu igrejas, escolas e centros de beneficência cristãos". Pelo menos quatro pessoas morreram.

"É profundamente perturbador que, em todo o Egito, as comunidades cristãs tenham sido vítimas de ataques por parte de alguns simpatizantes do deposto presidente Morsi, em vingança pelos acontecimentos no Cairo", disse Hassiba Hadj Sahraoui, diretora adjunta do Programa Regional para o Oriente Médio e o Norte da África, da Anistia Internacional.

Ela destaca que "deveriam ter previsto uma reação violenta contra as comunidades de cristãos coptas e, no entanto, as forças de segurança não impediram os ataques nem intervieram para acabar com a violência".

A Anistia Internacional pede às autoridades egípcias que realizem uma investigação imparcial e independente sobre estes ataques sectários e tomem medidas imediatas para impedir que voltem a ocorrer. "É preciso elaborar e aplicar uma estratégia integral de luta contra a discriminação das minorias religiosas e revocar as leis e políticas discriminatórias", explica.

"Se os responsáveis pelos ataques sectários não forem levados à justiça, a mensagem transmitida será a de que os coptas e outras minorias religiosas são alvos legítimos. As autoridades devem deixar totalmente claro que os ataques sectários são intoleráveis", afirmou Hassiba Hadj Sahraoui.

A Anistia Internacional visitou lugares onde houve ataques de violência para entrevistar testemunhas, funcionários e líderes religiosos. Nos depoimentos, revela-se como os que saqueavam as igrejas e propriedades dos cristãos gritavam: "Deus é grande!" ou "Malditos cristãos!".

"Morsi é o meu presidente" e "Mataram nossos irmãos durante a oração" são algumas das mensagens que podem ser lidas nos locais dos ataques. Além disso, a Anistia Internacional denuncia que, "muitas vezes, antes dos ataques, houve incitações de líderes religiosos e em mesquitas da região".

"Os líderes da Irmandade Muçulmana intervieram pouco e tarde, colocando a culpa nos 'bandidos' e desvinculando seus simpatizantes dos ataques", comentou Hassiba Hadj Sahraoui, recordando que "os líderes devem condenar os atos dos seus simpatizantes e convencê-los a não atacar mais".

"No Egito, há uma longa história de abuso e discriminação com relação aos cristãos coptas. Sob o regime de Mubarak, houve muitos abusos, bem como sob o regime militar e a presidência de Morsi", denuncia a Anistia Internacional, que publica o relatório por ocasião do segundo aniversário da repressão sanguinária das forças de segurança contra manifestantes diante do Maspero, em 9 de outubro de 2011, na qual morreram 26 manifestantes cristãos coptas e um muçulmano.

"As 'sessões de reconciliação', método preferido pelas autoridades para resolver as disputas sectárias no Egito, até agora só serviram para consolidar o sentimento de injustiça entre as comunidades minoritárias e deixar os autores dos ataques livres."

"É preciso introduzir mecanismos adequados para proteger as minorias religiosas e seus direitos", afirma a Anistia Internacional, destacando que "as comunidades de cristãos do Egito sofreram violência sectária durante muito tempo. Esta inação sistemática das autoridades deve mudar".

O relatório faz um balanço geral da situação dos cristãos coptas no Egito e sublinha que "os sucessivos governos não abordaram a discriminação e a vitimação das minorias religiosas no país".

Assim, destacam que, sob o regime de Mubarak, "há pelo menos 15 grandes ataques documentados contra os coptas. (…) Após sua queda, continuou havendo conflitos sectários", afirmou o relatório, explicando que "a situação não melhorou sob a presidência de Morsi: os ataques contra os coptas continuaram, e o discurso anticristão se intensificou. As comunidades cristãs sofreram obstáculos legais e burocráticos durante décadas, para construir e restaurar lugares de culto".

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