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Liberdade e justiça apenas para os católicos?

Brian G Wilson

Stephen Herreid - Aleteia Vaticano - publicado em 08/01/14

Essa tradição da “common law” inglesa foi meticulosa e reverentemente desenvolvida durante séculos por cristãos devotos que levaram em consideração as obras de Aristóteles, Agostinho e Tomás de Aquino. Os fundadores dos Estados Unidos herdaram essa tradição. Eles "conheciam a filosofia política, assim como a história e o direito", escreve Russell Kirk. Eles tiveram o cuidado de unir "a autoridade do costume social com a autoridade dos grandes livros. Eles respeitavam a sabedoria dos seus ancestrais. Eles respeitavam, em particular, a sabedoria religiosa". Os seus “pressupostos políticos eram compostos de doutrinas religiosas judaicas, ensinamentos cristãos, filosofia clássica, aprendizado medieval e literatura inglesa”. Eles também testaram a sua política medindo-a com "a experiência histórica do mundo antigo, a sociedade medieval, o desenvolvimento social inglês e a experiência colonial americana… Somos uma nação moderna apenas num sentido restrito". Podemos encontrar, na tradição do direito comum inglês, uma concepção meticulosamente preservada de "liberdade ordenada", mantida longe das mãos corruptoras da esquerda moderna, que a reduziria a mera licenciosidade e a transformaria em arma para usos totalitários, eugênicos e anticristãos.

A fundação dos Estados Unidos foi um processo trabalhoso de transplante desse conceito de liberdade ordenada e virtuosa para o nosso continente. O totalitarismo moderno, por outro lado, pula esse processo cuidadoso na sua realidade concreta e força a criação de um teatro, que, superficialmente, se assemelha à ordem paternalista medieval católica, um Frankenstein político moderno que se inclina contra as funções da própria ordenação política medieval católica. O comunismo, por exemplo, é, em sua essência, excessivamente ordenado: ele exclui a conexão do governo com os seus propósitos para com as pessoas, desconectando-o do seu significado na vida dos governados e tornando-o um mero exercício de poder pelo poder.

Nem todos os anticatólicos que existiram durante muito tempo na América do Norte foram uma simples caricatura da intolerância religiosa dos protestantes americanos. Poucos americanos anticatólicos influentes foram motivados simplesmente por uma desconfiança modernista do passado. A principal contrariedade deles ao catolicismo romano na América do Norte nasceu, na verdade, da suspeita de que os católicos poderiam ser mais simpáticos à vertente totalitária das práticas políticas modernas do que à tradição inglesa, essencialmente conservadora, da liberdade ordenada. O primeiro Congresso Continental chegou a publicar a sua preocupação com a possibilidade de os católicos romanos canadenses "se tornarem um risco e virarem instrumentos do poder destinados a reduzir as antigas colônias protestantes livres ao mesmo estado de escravidão deles próprios".

Essa paranoia anticatólica era amplamente infundada, a ponto de, em meados do século XIX, Alexis de Tocqueville ter escrito: "Eu nunca conheci um católico inglês que não valorizasse tanto quanto qualquer protestante as instituições livres do seu país". A lealdade desses católicos à instituição americana de liberdade ordenada não exigia que eles abandonassem a fidelidade a Roma. Roma é que fez valer a posição católica americana louvada por Tocqueville promulgando-a com toda a autoridade de um concílio da Igreja:

"Acima de tudo isso, o concílio pretende desenvolver a doutrina dos papas recentes sobre os direitos invioláveis da pessoa humana e a ordem constitucional da sociedade. Este concílio Vaticano declara que a pessoa humana tem direito à liberdade religiosa. Esta liberdade significa que todos os homens devem estar livres de coação por parte de indivíduos ou de grupos sociais e de qualquer poder humano, de tal modo que ninguém deve ser forçado a agir de forma contrária às suas próprias crenças, seja privada ou publicamente, seja a sós ou em sociedade com outros, dentro dos devidos limites. O concílio declara, ainda, que o direito à liberdade religiosa tem o seu fundamento na própria dignidade da pessoa humana tal como conhecida através da palavra revelada de Deus e através da razão. Este direito da pessoa humana à liberdade religiosa deve ser reconhecido constitucionalmente por todos os governos e tornar-se, assim, um direito civil".

Se, por um lado, os anticatólicos dos Estados Unidos estavam equivocados em grande medida, não há nenhuma dúvida, por outro lado, de que existia entre alguns católicos uma intolerância religiosa que justificava o “roubo” da agência moral dos homens (a liberdade) mediante a citação do final de "O Bem" tal como concebido nos ensinamentos católicos. A Igreja nunca puniu essa intolerância entre os católicos e, embora a maioria não tenha aderido a essa postura, ela parece estar ressurgindo atualmente. Conheci e li os escritos de não poucos católicos que exibem uma confiança ingênua na autoridade divinamente outorgada ao Estado. Eles admiram, até, o poder do Estado laico moderno, que, superficialmente, recorda o coercivo "paternalismo" a que Bento XVI se referia como "humilhante".

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Doutrina Social da IgrejaliberdadePolítica
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