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Divulgação dos arquivos secretos de Pio XII: “a espera será breve”

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O relator da causa de beatificação do papa Eugenio Pacelli, pe. Peter Gumpel, fala dos seus vinte anos de trabalho em meios aos papéis de um pontificado convulso

Qual é o material que existe nesse arquivo de Pio XII?

Gumpel: Muitas pessoas não fazem ideia. Fala-se em 16 milhões de páginas! É uma enormidade de cartas recebidas pela Santa Sé, respostas enviadas etc. Você pode imaginar o trabalho gigantesco para colocar aquele material em ordem. A equipe era muito limitada: nos primeiros vinte anos, só tínhamos dois arquivistas profissionais. Agora tem muito mais, pela necessidade de tornar esses arquivos finalmente acessíveis. É isso o que nós queremos, até para conseguir refutar definitivamente tantos ataques e tantas estupidezes que são ditas sobre aquele pontificado.

Qual é o período que o material do arquivo abrange?

Gumpel: O arquivo abrange todo o período de Pio XII. Se alguém quiser entender as coisas que aconteceram durante a guerra, tem que ver também as coisas precedentes, porque elas explicam muitas decisões que foram tomadas. Também é interessante olhar para os doze anos em que Pacelli foi núncio apostólico na Alemanha e, depois, para os nove anos em que ele foi secretário de Estado de Pio XI. Pio XI morreu em fevereiro de 1939, ou seja, os atos e arquivos dele já estão abertos. Mas quem é que os consulta? Quase ninguém. Temos que lembrar também que a Santa Sé, com o papa Paulo VI, deu a ordem de publicar documentos diplomáticos relacionados com a Segunda Guerra Mundial. São doze volumes, com milhares e milhares de documentos, uma coleção intitulada “Atos e Documentos da Santa Sé Relativos ao Período da II Guerra Mundial”. Eles já foram publicados. Eu tive contato com os três peritos envolvidos na preparação desses volumes. O primeiro volume saiu em 1963 e o último, ou seja, o décimo segundo, em dezembro de 1981. Levou 18 anos, portanto. Esses especialistas acharam as caixas do jeito que eu também achei. Uma caixa atrás da outra, eles foram pegando na mão cada documento que estava lá dentro, selecionaram o que era de interesse e publicaram milhares e milhares de páginas que estão hoje disponíveis. Mas quem as lê? Pouquíssima gente. Eu constatei isso em conversas particulares com professores universitários, especialmente da América do Norte, e notei que muitas dessas pessoas não sabem nem italiano, nem alemão, e, portanto, não tiveram a oportunidade de estudar esses documentos. Mesmo o francês é um problema para eles. Mas nós esperamos, de todas as maneiras, que, dentro de um prazo relativamente breve, todos os documentos do arquivo secreto do Vaticano e do arquivo da Secretaria de Estado sejam disponibilizados.

Como é que os arquivistas trabalham?

Gumpel: O trabalho que precisava ser feito, em primeiro lugar, era reunir o que tinha que ficar junto, porque, durante anos, muitos documentos afins ficaram espalhados em diversas caixas. Depois, tinha que ser feita uma divisão por assunto: havia algumas cartas pedindo dinheiro, outras pedindo informações sobre pessoas desaparecidas, outras são documentos estritamente diplomáticos. Enfim, uma mistura de coisas. Uma possibilidade era separar tudo em pastas. A vantagem é que assim os documentos ficam soltos e podem ser fotocopiados mais facilmente. Depois, é preciso atribuir um número para cada material, para que o pesquisador encontre facilmente o que está procurando. Além disso, e esse é um trabalho gigantesco, é necessário fazer índices com as dezenas de milhares de nomes que são mencionados: este é um primeiro índice, um índice de pessoas, que permite verificar com relativa facilidade se uma pessoa X teve contatos com a Santa Sé e sobre quais assuntos. Depois, vem um segundo índice: por diocese, por país, e assim por diante, para saber se uma diocese teve contatos com a Santa Sé naquele período, qual era o assunto, qual foi a resposta recebida etc. E o terceiro índice é temático: para cada assunto, pode-se saber quais foram as respostas da Santa Sé para os governos, as posições fundamentais que foram adotadas. Tudo isso exige muito tempo.

Eles ainda estão trabalhando nisso?

Gumpel: Sim, e já fizeram um trabalho muito bom. Eu pergunto regularmente ao prefeito dos arquivos secretos, o bispo Dr. Sergio Pagano: "Quando é que vocês vão deixar tudo pronto?". Ele é muito cauteloso e não quer estabelecer uma data determinada, mas, sem especificar quando exatamente eles vão abrir os arquivos, podemos acreditar que será uma espera curta.

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