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Um tesouro cultural ameaçado de extermínio pelo Estado Islâmico

James Gordon

John Burger - publicado em 08/09/14

Dom Louis Raphael I Sako também teme uma "potencial destruição se a integridade desses lugares for comprometida pelas operações militares".

Ainda mais denso que a herança cristã no Iraque e na Síria, conforme todo estudante aprende na escola, é o fato de que a terra em questão é conhecida como “o berço da civilização”. A Mesopotâmia, a terra entre dois rios, é uma área repleta de sítios arqueológicos. "É toda uma cultura que está em jogo, porque é o lugar onde surgiu a escrita, um lugar onde a escrita, a história e a cultura se desenvolveram", comenta o padre dominicano Marcel Sigrist, em entrevista recente. Sigrist é especialista em assiriologia e dirige a Escola Bíblica e Arqueológica Francesa de Jerusalém. "Temos 5.000 anos de escrita, em todas as formas, em tabuletas de argila, em estátuas, em pedra. Todas elas existem lá e agora nós estamos vendo pessoas de baixa instrução que estão prontas para destruir tudo".

Sigrist afirmou que, sob o regime de Saddam Hussein, as relíquias culturais eram preservadas em museus e muitos estrangeiros iam até o Iraque para fazer estudos e explorações. "Prosperava-se intelectualmente, em termos de arqueologia, de história".

Infelizmente, durante a primeira Guerra do Golfo, as forças norte-americanas não protegeram os museus, que foram saqueados. "Eles começaram imediatamente a reconstruir, porque sabem que todo o turismo depende disso", observa o pe. Sigrist.

O dominicano esteve no Curdistão para uma conferência sobre arqueologia pouco antes de o EI invadir o norte do Iraque. Entre os habitantes locais, ele percebeu o sentimento de que era preciso salvar a sua cultura.

Mas uma nova tendência preocupante parece ter emergido recentemente. Um artigo do New York Times, publicado nesta última sexta-feira, informa que o Estado Islâmico não está apenas lucrando com antiguidades roubadas, mas perturbando um delicado equilíbrio e provocando implicações graves para o retorno à normalidade no Iraque e na Síria.

Em vez de saquear e roubar artefatos culturais preciosos por si mesmo, o EI, aparentemente, está permitindo que os próprios moradores escavem em busca de tesouros enterrados. Os terroristas então cobram impostos sobre qualquer coisa que os moradores encontram. O que os habitantes locais fazem com as descobertas depois disso é uma incógnita.

"O EI parece estar incentivando a exportação clandestina de achados arqueológicos, que se concentra principalmente na fronteira da Síria para a Turquia, perto de Tel Abyad, uma fortaleza do EI", dizem os autores do artigo, os antropólogos Amr Al-Azm, da Universidade de Shawnee, e Salam al-Kuntar, da Universidade da Pensilvânia, além de Brian Daniels, diretor de pesquisa e programas do Centro do Patrimônio Cultural da Pensilvânia, desta mesma universidade. "Há razões para suspeitarmos que o EI tenha aprovado e incentivado o comércio de antiguidades trans-fronteiriço. Ao institucionalizar este sistema, que fornece ao EI mais um dos seus muitos fluxos de renda, o grupo causa danos irreparáveis ​​ao patrimônio cultural da Síria".

Os autores argumentam que a interrupção do comércio ilícito é imprescindível porque "põe em risco a possibilidade da estabilização pós-conflito e da reconciliação. Na Síria, o patrimônio cultural faz parte da vida cotidiana. Os sírios vivem em cidades e bairros antigos, rezam em mesquitas e igrejas históricas e fazem compras em bazares que existem há séculos. Se e quando a luta acabar, este patrimônio vai ser fundamental para ajudar o povo da Síria a se reconectar com os símbolos que o unem no meio da diversidade religiosa e política".

Assiriólogos, arqueólogos e antropólogos não são as únicas pessoas preocupadas com o que pode se perder no Oriente Médio em consequência do atual terror. Um baterista de punk rock também está bastante preocupado. Jason Hamacher, ex-membro da banda Frodus, começou a viajar para Aleppo, na Síria, em 2006, para fotografar e documentar monges ortodoxos sírios que conservavam um cântico de 1800 anos de existência e que nunca tinha sido escrito nem gravado. Esta herança cultural de valor incalculável vinha sendo transmitida oralmente desde os tempos em que o cristianismo começou a florescer na região.
Com a guerra, porém, durante quanto tempo essa tradição ainda poderá sobreviver? Segundo o bloguero Rod Dreher, a música em Aleppo "tem sobrevivido desde o início da Igreja, mas agora pode morrer como tradição viva e contínua".

Um dos poucos sacerdotes que conheciam todo o corpus deste cântico pode estar entre os muitos homens assassinados pelo terror que assola aquelas partes do mundo. Em uma das suas visitas à Síria, Hamacher se hospedou com o bispo siro-ortodoxo Yuhanna Ibrahim, que, não muito tempo depois dessa visita, acabou sendo sequestrado juntamente com o arcebispo greco-ortodoxo Paul Yazici, com quem retornava de uma missão de ajuda humanitária. O sequestro aconteceu em abril de 2013 e nenhum dos dois bispos voltou a ser visto desde então.

A voz de dom Yuhanna, no entanto, está preservada em uma das gravações de Hamacher.

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Estado IslâmicoMundo
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