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Papa celebra casamento de casais que já moravam juntos. Fez bem?

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AP Photo/Alessandra Tarantino

Catherine Ruth Pakaluk - publicado em 22/09/14

Os prós e contras de oferecer o sacramento do matrimônio a casais que já moram juntos, em uma cultura não catequizada

O New York Times publicou um artigo intitulado “Beyond Marriage” (“Para além do casamento”), informando sobre as altas taxas de coabitação e nascimentos fora do casamento, e do casamento que desaparece como norma social. No mesmo dia, o Papa Francisco presidiu a cerimônia de casamento de 20 casais, alguns dos quais já moravam juntos  – um dos casais havia inclusive tido um filho fora do casamento.

Nenhum dos meios de comunicação pareceu surpreso ou incomodado pelos fatos apresentados por “Beyong Marriage”, mas as ações do Papa Francisco suscitaram o frenesi da mídia. Será que o Papa está mudando as regras? Estará superando os limites diante do sínodo extraordinário sobre a família, que será realizado em outubro?

Podemos deixar de lado a pergunta sobre se um casal pode ser admitido ao matrimônio sacramental após já ter morado junto. A resposta obviamente é “sim”, dado que nenhuma lei impede um matrimônio desse tipo (Código de Direito Canônico, 1073-1094).

A pergunta mais interessante, na verdade, é se deveriam se casar, dado que já moram juntos.

Consideremos, primeiramente, os argumentos contra a admissão ao casamento dos casais que já moram juntos. Estas argumentações se baseiam na ideia de que os casais que coabitam, por definição, não compreendem a natureza do matrimônio. Em casos extremos, esta argumentação poderia ser inclusive usada para opor-se à sua validez.

Um filósofo católico e amigo meu dizia isso:

“Eu me pergunto se seria possível elaborar uma argumentação de direito canônico, ou, mais concretamente, uma argumentação contra a validez:

– Você não pode se casar validamente se não reconhecer que o compromisso deve ser total.

– Você não pode manter um compromisso total se não acredita que as relações sexuais estão sob a lei de Deus.

– Se você mora junto, é porque não considera que as relações sexuais estão sob a lei de Deus.

– É difícil acreditar que um só ato (por exemplo, o voto matrimonial) possa mudar a intenção e as convicções de uma pessoa que viveu de determinada maneira por um longo tempo.”

Em outras palavras, pela sua própria história, os que coabitam destroem as condições exigidas para contrair um matrimônio válido. Tais matrimônios poderiam ser considerados como casos de nulidade ipso facto.

Quais são os possíveis argumentos a favor da admissão ao casamento por parte dos casais que já moram juntos? Neste caso, tais argumentos se baseiam em três ideias:

1. O casamento é uma instituição natural à qual as pessoas tendem de alguma forma em toda cultura (por exemplo, formando uniões domésticas).

2. Dado que se tende naturalmente a ele, evitar a regularização de acordos domésticos colocaria um peso irracional sobre as pessoas.

3. O casamento dos que pretendem fazer um voto matrimonial próprio pode ser entendido como um passo no caminho rumo à conversão plena, e não como o prêmio pela conversão já alcançada.

A cobertura que a mídia fez da cerimônia no Vaticano informou que um dos noivos disse: “Quando compreendemos o que estava acontecendo, que não era um sonho, isso nos transformou”.

Que tipo de pastoral é a melhor, então?

Supondo que estamos em uma cultura cristã na qual as pessoas sabem (sentem e compreenderam) o que é o casamento, então, o melhor caminho poderia implicar no fato de convidar os casais a reformar-se, a rezar e a estudar antes de optar pelo matrimônio sacramental.

E o Papa Francisco? Penso que a Evangelii Gaudium (EG) é uma apologia por excelência do que ele pensa. No texto, o Pontífice diz muito claramente que tipo de mundo ele acha que é o nosso: um mundo no qual devemos “colocar tudo em chave missionária” (EG 34).


É verdadeiramente difícil imaginar que o Papa não tenha pensado no trabalho pastoral com os casais quando escreveu:

“Há normas ou preceitos eclesiais que podem ter sido muito eficazes noutras épocas, mas já não têm a mesma força educativa como canais de vida. São Tomás de Aquino sublinhava que os preceitos dados por Cristo e pelos Apóstolos ao povo de Deus ‘são pouquíssimos’. E, citando Santo Agostinho, observava que os preceitos adicionados posteriormente pela Igreja se devem exigir com moderação, ‘para não tornar pesada a vida aos fiéis’ nem transformar a nossa religião numa escravidão, quando ‘a misericórdia de Deus quis que fosse livre’" (EG 43).

O Pontífice prossegue, afirmando que “Estas convicções têm também consequências pastorais, que somos chamados a considerar com prudência e audácia. Muitas vezes agimos como controladores da graça e não como facilitadores. Mas a Igreja não é uma alfândega; é a casa paterna, onde há lugar para todos com a sua vida fatigante” (EG 47).

E conclui: “Saiamos, saiamos para oferecer a todos a vida de Jesus Cristo! (…) Lá fora há uma multidão faminta e Jesus repete-nos sem cessar: ‘Dai-lhes vós mesmos de comer’ (Mc 6, 37)” (EG 49).

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