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Aquela reação de Francisco à pergunta sobre a Aids e a camisinha

© Antoine Mekary / ALETEIA

Andrea Tornielli - Vatican Insider - publicado em 03/12/15

Papa comparou pergunta de jornalista àquelas que eram feitas a Jesus pelos doutores da lei para poder acusá-lo

Se tivesse dito que a distribuição de preservativos, sem campanhas de educação sexual e à fidelidade, não adianta, ele teria sido atacado como aconteceu com Bento XVI. Se tivesse feito aberturas explícitas, teria sido alvejado pelos ambientes jornalístico-eclesiásticos dos “controladores da doutrina” que, todos os dias, tentam colocá-lo em apuros.

Nunca tinha acontecido até agora que Francisco, ao qual, durante a coletiva de imprensa no avião, foram feitas perguntas de todos os tipos, reagisse como aconteceu nessa segunda-feira no voo Bangui-Roma, quando um jornalista alemão especialista em África lhe perguntou, depois de falar da difusão da epidemia de Aids, se não era o caso de a Igreja mudar de posição sobre o “não” aos preservativos.

O papa definiu a pergunta como “parcial” e depois a comparou àquelas que eram feitas a Jesus pelos doutores da lei para poder acusá-lo. A pergunta citada pelo pontífice está relatada no capítulo 12 do Evangelho de Mateus: “É lícito ou não curar no sábado?”.

Francisco disse que, sim, a camisinha “é um dos métodos” para limitar a difusão da infecção e que “a moral da Igreja, sobre esse ponto, se encontra diante de uma perplexidade”, tendo que manter presente tanto a necessidade de preservar a vida das pessoas, quanto evitando que sejam infectadas, quanto ainda de defender o exercício de uma sexualidade aberta à transmissão da vida.

“Mas esse não é o problema”, acrescentou o papa. “O problema é maior. É obrigatório curar!”, explicou, assumindo a resposta de Jesus, que curou o doente de hidropisia, embora fosse sábado. E continuou: “A desnutrição, a exploração, o trabalho em escravidão, a falta de água potável, esses são os problemas. Não falamos se se pode usar este curativo para tal ferida. A grande injustiça é uma injustiça social, a grande injustiça é a desnutrição. Eu não gosto de descer para reflexões casuísticas quando as pessoas morrem por falta de água e por fome. Pensemos no tráfico de armas. Quando não houver mais esses problemas, acho que se poderá fazer a pergunta: é lícito curar no sábado? Por que as armas continuam sendo fabricadas? As guerras são o maior motivo de mortalidade. Não pensar sobre se é lícito ou não é lícito curar no sábado. Façam justiça, e, quando todos estiverem curados, quando não houver injustiça neste mundo, podemos falar do sábado”.

Bergoglio, portanto, convidou a um olhar realista sobre a realidade e sobre os males da África.

A recordação não pode deixar de ir a outra entrevista no avião e a outro papa na sua primeira visita à África. Era março de 2009, e Bento XVI foi questionado de modo semelhante sobre a suposta falta de “realismo” da Igreja na luta contra a Aids durante o voo de Roma a Yaoundé, no Camarões.

“Eu diria o contrário – foi a resposta –, porque a realidade mais presente e mais eficiente na luta contra a Aids é precisamente a Igreja Católica (…) Eu diria que não se pode superar esse problema só com dinheiro, embora necessário, mas, se não houver a alma, se os africanos não ajudarem, não se pode superar com a distribuição de preservativos, que, ao contrário, aumentam o problema. A solução só pode ser dupla. A primeira: humanização da sexualidade, isto é, renovação espiritual humana que envolve um novo modo de se comportar um com o outro e de acordo com uma verdadeira amizade, sobretudo para com as pessoas que sofrem, e uma disponibilidade também com sacrifícios e renúncias pessoais para estar perto dos que sofrem. E estes são os fatores que ajudam e que trazem consigo verdadeiros e visíveis progressos.”

A referência do pontífice ao fato de que a simples distribuição indiscriminada de preservativos não resolve o problema estava fundamentada em fatos. As campanhas anti-Aids que tiveram sucesso foram aquelas baseadas no chamado à fidelidade do casal, no convite de adiar as relações sexuais precoces entre adolescentes e no preservativo aconselhado para certas categorias de maior risco (homossexuais, toxicodependentes, prostitutas). Na Uganda, uma campanha com essas prerrogativas fez com que se passasse, na década de 1991 a 2001, de 15% a 5% da população infectada.

Além disso, é preciso lembrar que as aberturas à utilização da camisinha, em particular para categorias em risco ou nas relações de casal no caso de um cônjuge soropositivo, não são novas na Igreja: tinham se expressado nesse sentido nas últimas décadas os cardeais Carlo Maria MartiniDionigi TettamanziJavier Lozano BarragánGeorges Cottier.

Quem diria o mesmo, provocando reações variadas e também algumas dores de cabeça, seria Bento XVI em 2010, no livro-entrevista com Peter Seewald, Luz do mundo.

“Concentrar-se apenas no preservativo – tinha respondido o Papa Ratzinger – significa banalizar a sexualidade, e essa banalização representa precisamente a perigosa razão por que tantas pessoas, na sexualidade, não veem mais a expressão do seu amor, mas apenas uma espécie de droga, que administram a si mesmas. Por isso, a luta contra a banalização da sexualidade também faz parte do grande esforço para que a sexualidade seja avaliada positivamente e possa exercer o seu efeito positivo sobre o homem na sua totalidade.”

O papa, porém, acrescenta: “Pode haver casos individuais justificados, por exemplo, quando um prostituto usa um preservativo, e este pode ser o primeiro passo para uma moralização, um primeiro ato de responsabilidade para desenvolver de novo a consciência do fato de que nem tudo é permitidos e que não se pode fazer tudo o que se quiser”.

No entanto, conclui, “este não é o modo verdadeiro para vencer a infecção do HIV. Realmente é necessária uma humanização da sexualidade”.

Portanto, no caso preciso de quem se prostitui, o pontífice, no livro-entrevista, admitia o uso da camisinha para evitar a infecção do cliente, mesmo que esse deveria ser apenas “um primeiro passo para a moralização”. Aliás, no texto original alemão, Bento XVI não tinha usado a palavra “prostituta” no feminino, mas o termo masculino, “prostituto”.

A esse respeito, o porta-voz vaticano, padre Federico Lombardi, havia observado que, para o papa, não era importante que o sujeito fosse masculino ou feminino: “O ponto é a responsabilidade ao levar em conta o risco da vida do outro com quem se tem a relação. Se é um homem, uma mulher ou um transexual, dá no mesmo”.

(IHU)

Tags:
EntrevistasPapa Francisco
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