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“Ítaca”, um conselho aos caminhantes

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Aleteia Brasil - publicado em 17/05/16

"Se partires um dia de volta a Ítaca, pede que o caminho seja longo, rico de experiências, rico de saber"

Foi da ilha de Ítaca, segundo os mitos da Grécia, que o rei Ulisses partiu para a guerra de Troia. Ele deixou em casa, à sua espera, a esposa Penélope e o filho Telêmaco, ainda no ventre da mãe. Os pesadelos da guerra, suportados entre sofrimentos e mortes selvagens, se acumularam sobre uma pilha de dez anos não apenas de horror, mas também de ausência da mulher amada e do filho a quem jamais pudera ver. Até que, finalmente, dos destroços ainda ardentes da Troia vencida, Ulisses empreende o caminho de volta.

Mas a viagem de retorno será tão longa quanto a espera indefinida dos anos da guerra: Ulisses, ou Odisseu, terá de enfrentar outros dez anos de aventuras e desventuras mar afora antes de conseguir aportar em sua ilha. O relato da volta de Ulisses para casa é um dos monumentos imortais da literatura clássica grega, erguido nas páginas da “Odisseia” de Homero.

Dois milênios e meio depois, inspirado pela épica jornada de retorno do “rei rico em astúcia”, outro poeta grego, Constantinos Kavafis, nos provoca uma instigante reflexão: Ítaca é a meta de chegada, mas… por que apressar-nos em chegar?Seu poema “Ítaca” sugere que, ansiosos pelo destino, muitas vezes deixamos de aproveitar o trajeto. E é no trajeto que vivemos. A meta de chegada deve estar sempre nítida e motivadora, mas é no trajeto, no aqui, no hoje que a vida nos abraça.

E o que essa “literatura pagã” tem a ver com o catolicismo?

Desde os primórdios, a Igreja católica incentivou os seus fiéis a conhecerem e apreciarem os clássicos universais da literatura, da arte, da música, da filosofia. O tesouro cultural produzido pelo espírito humano tem sido legado ao mundo antes, durante e depois da vinda de Cristo a esta terra, e inclui, também, as contribuições preciosas de povos e pessoas que não conheceram ou não abraçaram a fé cristã. Deus não é alcançável apenas pela Revelação, mas também por meio de toda a sua obra natural e dos sinais que o espírito humano exala na história. Deus nos fala não apenas mediante a Escritura, mas também por meio da história e da cultura humana, espalhando pelo mundo “sementes do Verbo”, ou “sémina Vérbi”: sinais, indícios, experiências, intuições, anseios e descobertas humanas que preparam a alma para buscá-Lo e acolhê-Lo. Se Deus nos deu a razão e não apenas a fé, é para que a usemos e, racionalmente, leiamos e compreendamos a Sua obra e o Seu plano. Temer ou desprezar manifestações do espírito humano é temer ou desprezar algumas das inúmeras formas do agir divino em meio a nós. É claro que é preciso discernir e cuidar-se de conteúdos incompatíveis com a Verdade que é Ele próprio, mas, mesmo para refutar e corrigir imprecisões e erros, é necessário, antes, conhecê-los. Todo católico é chamado por vocação não apenas a conhecer a Deus, mas também a conhecer os seus irmãos espalhados pelo mundo, as suas inquietações, angústias, alegrias, ideias, vivências, conceitos, questionamentos, visões de mundo – os seus acertos e os seus erros. Assim como as ciências exatas, que revelam tanto sobre o sentido e a ordem da criação, também as ciências humanas constituem parte imprescindível da formação integral, à qual o católico apaixonado por Deus e pela humanidade não deve furtar-se, sob pena de grave omissão.

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ÍTACA

Kavafis

Se partires um dia de volta a Ítaca,
pede que o caminho seja longo,
rico de experiências, rico de saber.
Não temas lestrigões nem os ciclopes,
nem nunca o Posidon furibundo;
não acharás aqueles seres na tua rota,
se for alto o teu pensamento
e sutil emoção mantiveres em teu corpo e teu espírito.
Nem ciclopes, nem lestrigões,
nem o Posidon bravio acharás nunca,
se tu mesmo não os trouxeres em tua alma,
se a tua própria alma não os puser diante de ti.

Pede que o caminho seja longo!
Sejam numerosas as manhãs de verão nas quais tu,
com prazer, com felicidade,
aportes em baías nunca vistas;
demora-te em empórios da Fenícia
e compra belas mercadorias,
madrepérola e coral, e âmbar, e ébano,
perfumes deliciosos e diversos;
quanto puderes, investe em perfumes,
voluptuosos e delicados.
Visita muitas cidades do Egito e,
com avidez, aprende dos seus sábios.

Guarda Ítaca sempre na memória.
A tua meta é lá chegar.
Mas não apresses a viagem.
Melhor é que ela dure longos anos,
e que chegues à tua ilha na velhice,
com o que tiveres ganho pela estrada,
sem esperar que Ítaca te enriqueça.

Ítaca te presenteou uma bela viagem.
Sem Ítaca, não terias te aventurado.
Mas nada além ela te dará.
Mesmo que a encontres pobre, Ítaca não terá te enganado.
Rico em saber e em vida, como voltaste,
entendes, por fim, o que significa uma Ítaca.

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