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Nagasaki: a dilacerante mensagem do menino que carrega nas costas seu irmãozinho morto

Joe O'Donnell - CC
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Foto monumental de Joe O'Donnell foi tirada logo após a explosão, em 1945

O jornalista e fotógrafo norte-americano Joe O’Donnell, que trabalhava para a Agência de Informação dos Estados Unidos, entrou para a história com seus registros de Hiroshima e Nagasaki.

Sua foto mais famosa eterniza a imagem arrepiante de um menino de Nagasaki que, sobre as próprias costas, carrega, com o olhar fixo, o cadáver do seu irmãozinho morto pela segunda bomba atômica, em 9 de agosto de 1945.

Dos Marines à fotografia

O’Donnell tinha alistado na Marinha norte-americana em 1945, aos 23 anos, disposto a lutar contra os japoneses. No entanto, recebeu ordens para estudar fotografia e, em setembro, cerca de um mês após as explosões atômicas, foi enviado para fotografar as duas cidades devastadas: Hiroshima, bombardeada em 6 de agosto (140.000 mortos), e Nagasaki, atingida em 9 de agosto (70.000 mortos).

O rosto sereno

Foi na segunda cidade destruída que O’Donnell capturou uma imagem histórica sem precedentes. Sua foto mostra dois meninos. Um de cabeça inclinada, rosto sereno, quase relaxado. Ele parece dormir sobre as costas de seu irmão, que permanece imóvel, como se não quisesse perturbar o sono inocente do pequeno.

Mas o irmãozinho está morto, e o menino, de apenas 10 anos, está esperando para que ele seja cremado.

O relato de Joe

Esta foto ratifica o clichê da imagem que diz mais que mil palavras. É uma cena de silêncio ensurdecedor que proclama, como só uma grande foto consegue proclamar, a tragédia da guerra estampada nos olhos apagados de um menino órfão de dez anos de idade. É uma imagem que abalou profundamente o fotógrafo, de acordo com o relato dele próprio em entrevista a uma emissora japonesa:

Eu vi aquele menino que caminhava… Devia ter cerca de 10 anos. Notei que ele carregava uma criança nas costas. Naqueles tempos, era uma cena bastante comum de se ver no Japão. Cruzávamos muitas vezes com crianças que brincavam com seus irmãozinhos e irmãzinhas carregando-os nas costas. Mas aquele menino tinha algo diferente“.

Um olhar para todo o sempre

A força da imagem está nos olhos fixos daquela criança: estoico; sem emoção. Ele permanece imóvel, durante cerca de 10 minutos, com o pequeno cadáver sobre suas costas. Depois, homens de máscaras brancas se aproximam: com extrema delicadeza, eles soltam os laços que atam a criança às costas do irmão. Eles o pegam, pelas mãos e pelos pés, e o pousam sobre as chamas.

A cremação do irmãozinho

O menino assiste à cena. Não pisca. Um único movimento, quase imperceptível, vem dos lábios – que sangram. Ele está mordendo o lábio inferior. Mas não derrama uma lágrima. As chamas vão esmorecendo, como um sol poente. O menino se vira. E se vai, em silêncio, como em silêncio tinha chegado.

Nunca mais. Nunca mais.

A trágica história daquele menino atingiu O’Donnell profundamente. Em uma entrevista de 1995 para a emissora japonesa NHK, por ocasião do 50º aniversário do ataque norte-americano, Joe se desculpou perante o povo do Japão, especialmente às famílias das vítimas dos bombardeios:

Eu quero lhes manifestar nesta noite a minha dor e amargura pela dor e pelo sofrimento provocados pelos cruéis e inúteis bombardeios atômicos das suas cidades. Nunca mais Pearl Harbor! Nunca mais Hiroshima! Nunca mais Nagasaki!“.

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