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Os cristãos árabes podem usar o nome “Alá” para se referirem a Deus?

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Afinal, o que “Alá” realmente significa?

O que “Alá” (ou “Allah”) realmente significa?

O termo “Allah” (ou “Alá”, na transliteração adotada em português) é, simplesmente, a palavra que o idioma árabe usa para se referir a Deus. Assim como em italiano se diz “Dio”, em inglês “God”, em espanhol “Dios”, em árabe se diz “Alá”.

Uma teoria diz que a palavra vem do aramaico “Alaha”. Outra tese diz que vem da contração entre o artigo árabe “al” e a palavra “Ilah”, que significa “divindade”. Assim, “Allah” significaria “A Divindade”, “O Deus”, no sentido de “a única divindade”, “o único Deus”.

O fato é que “Alá” não é uma palavra usada apenas pelos muçulmanos, como é comum que se pense: na verdade, todos os falantes da língua árabe, sejam eles muçulmanos, cristãos ou judeus, usam a palavra “Alá” para se referirem a Deus.

Mesmo antes do surgimento do islã, os pagãos de Meca, na Arábia, já usavam a palavra “Alá” como referência ao deus-criador.

No século IX, foi feita a primeira tradução de que se tem notícia da Bíblia para o árabe – e o termo usado para Deus, nessa tradução, é Alá. Os cristãos árabes já usavam a palavra Alá desde antes do início do islã. É importante notar, porém, que eles a usavam no lugar do aramaico “Elohim”, mas não no lugar de “Yahweh” (“Javé”). A diferença é sutil, mas significativa: “Alá” significa Deus, mas não é o “nome pessoal” de Deus. Um exemplo para entendermos um pouco melhor essa distinção: no Ocidente de hoje em dia, tanto os cristãos quanto os não cristãos costumam usar a palavra “Deus” (ou “deus”, com minúscula) para se referirem à ideia geral de divindade, mas isso não quer dizer que todos estejam falando especificamente do mesmo e único Deus da Bíblia. Para deixar bem claro que falavam do único Deus verdadeiro, os hebreus passaram a usar o termo “Javé” como o nome pessoal do Deus único e verdadeiro. Em português acontece algo parecido: quando usamos o termo “Deus”, com maiúscula, sabemos que estamos falando da única divindade, mas essa divindade única pode ser entendida do ponto de vista cristão católico, cristão protestante, judaico, mórmon, muçulmano… Ou seja: todos estão falando de um Deus único, mas cada um tem um entendimento diferente de quem é e como é esse Deus único. Já quando dizemos “Javé”, sabemos com mais clareza que estamos nos referindo ao mesmo Deus único, só que de um ponto de vista bem específico: estamos falando do Deus Criador conforme entendido pelo Antigo Testamento da tradição judaico-cristã. Pois bem: assim como acontece em português, os cristãos árabes também mantiveram tanto o uso do termo específico “Yahweh” quanto o uso do termo “Alá” para falar de Deus, com os devidos matizes de significado. É interessante observar, por outro lado, que os radicais muçulmanos que vivem hoje no Ocidente afirmam que o nome do único Deus verdadeiro é Alá, não Javé nem qualquer outro nome usado na Bíblia.

Quando Maomé começou a pregar, ele considerou adotar um nome diferente para se referir a Deus. Seu favorito era “Ar-Rahman”, mas ele acabou escolhendo “Alá”. Com a propagação do islã pelo Oriente Médio, os cristãos árabes continuaram a usar a palavra “Alá”, já que ela não tem nenhuma conotações negativa: não é um termo que signifique especificamente a visão islâmica de quem é “Deus”. Por mais que o “Alá” dos árabes muçulmanos não tenha as mesmas “características” do “Alá” dos árabes cristãos, a palavra “Alá” significa, basicamente, o mesmo e único Deus.

Hoje em dia, no Ocidente, o uso do termo “Alá” ganhou dimensões “políticas” ou “ideológicas”. Há muçulmanos que acham que só eles têm o direito de usar esse nome para se referirem ao “seu” Deus, e há cristãos, em especial de vertentes neopentecostais, que acham que o nome “Alá” deve mesmo ser evitado porque não se refere ao Deus verdadeiro.

O grande problema é que esta discussão, se mal contextualizada, pode prejudicar seriamente a evangelização.

Há ministérios cristãos que chegaram a substituir a palavra Alá por “Ilah” (“deidade”) em sua versão da Bíblia em árabe. Com isto, o risco é o de reforçar a ideia de que cristãos, judeus e muçulmanos estão falando cada um de “um Deus diferente”, quando, na verdade, todos estão falando do mesmo e único Deus, só que cada um a partir de um conhecimento diferente sobre esse único Deus. A proposta adequada deveria ser a de que todos conheçam melhor esse único Deus – e não que cada um prejudique mais ainda esse conhecimento de Deus ao optar por termos separados, que reforçam as diferenças de perspectiva em vez de procurar chegar ao conhecimento mais profundo do único Deus.

Por sua vez, existe uma forma de propaganda islâmica no Ocidente que vem adotando a palavra “Alá” no lugar da palavra “Deus” nas próprias línguas ocidentais, especialmente em inglês, com o propósito de promover sectariamente o islã. Uma rápida olhada em sites islâmicos confirma que a palavra “Allah” é amplamente usada nos textos em inglês em vez da palavra “God”, ou nos textos em francês em vez da palavra “Dieu”. É preciso ficar atento para que a palavra “Deus” não perca o seu sentido bíblico cristão de modo a se tornar cada vez mais um termo “genérico”, enquanto a palavra “Alá” se torne cada vez mais o termo “específico” de referência ao “Deus único e verdadeiro”. E este risco já se verifica até mesmo em sites cristãos que apresentam o texto da Bíblia em inglês usando a palavra “Allah” em vez de “Deus”, como tentativa de aproximação dos muçulmanos. Ao fazerem isso, estes sites cristãos afirmam, inadvertidamente, que “Alá” é o nome do único Deus verdadeiro, gerando mais confusão do que verdadeiro diálogo, dado que o uso descontextualizado do termo pode carregar consigo uma determinada interpretação de Deus que não é a cristã.

Podemos, então, usar o termo “Alá” quando compartilhamos o Evangelho com os muçulmanos?

Os cristãos de língua árabe devem continuar a usar a palavra Alá em sua língua para se referirem a Deus, uma vez que esta é a sua palavra genérica para significar o Deus único e verdadeiro. Não faz sentido renunciar a uma palavra da própria língua como se ela fosse de uso exclusivo de uma determinada religião. É verdade que o entendimento específico sobre quem é e como é o Deus único é diferente entre a revelação cristã e a interpretação islâmica, mas este problema deve ser encarado mediante um diálogo mais aprofundado – que não se resolverá com uma simples e artificial substituição de nomes.

Já os cristãos que não usam a língua árabe não têm motivo algum para adotar o termo “Alá” em sua própria língua, precisamente porque não é um termo pertencente à sua língua. Deve ser usado o termo existente no respectivo idioma: “Deus”, “Dios”, “Dio”, “Dieu”, “God”, “Gott”… De novo: o importante, para um entendimento frutífero, é que se deixe cada vez mais claro quem e como é esse Deus único, de modo a se fomentar o diálogo e o crescimento na compreensão do único Deus.

Não faz sentido entrar em polêmicas quanto ao uso de uma palavra quando o importante é o entendimento sobre quem é, afinal, esse Deus único ao qual a palavra se refere. E, para mostrar aos muçulmanos quem é e como é o Deus único no qual acreditamos, não há palavras que substituem o testemunho.

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A partir de texto de Michael Abd el-Massih em CharismaNews