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Por que é bom ter amigos que nos incomodam

Westend61 | Getty Images

Aleteia Brasil - Michael Rennier - publicado em 17/11/16

Viver num gueto de amigos que pensam como nós é a opção mais cômoda – mas também a mais sectária

Você também acha que as pessoas parecem estar mais divididas do que nunca?

Vemos divisão entre quem vota neste partido e quem vota naquele, entre quem vai à igreja e quem não vai, entre quem é a favor e quem é contra isso ou aquilo…

Sempre houve diferenças, é claro, mas, desde que as comunidades na internet facilitaram o encontro e as conversas com pessoas que pensam como nós, passamos a correr um risco muito alto de nos dividir ainda mais, fechando-nos em interesses comuns e passatempos compartilhados. Sim, é excelente encontrar grupos em que cada um pode ser ele mesmo e formar amizades com base no que tem em comum com o outro. Afinal, o mundo é um lugar estressante e, por isso, é agradável ter a chance de se sentir à vontade com pessoas semelhantes.

O problema é que discutir, por exemplo, sobre questões políticas ou religiosas continuamente e quase só com quem concorda conosco nos limita de um jeito perigoso em nossa rede de amizades. Quando estou cansado das notícias políticas, tendo a me fechar na minha zona de conforto e ficar na defensiva. Agindo assim, eu me sinto como um hobbit: contente na minha bela casinha do condado, enquanto a Terra Média arde em chamas ao meu redor. Cortar as pontes com o mundo me oferece comodidade e segurança… Mas será mesmo que me torna uma pessoa melhor?

Considere, por exemplo, o fato de que o Facebook tem um algoritmo que nos cataloga de acordo com as nossas ideias políticas. Todos os posts e histórias que não estão alinhados com essas preferências políticas têm menos possibilidades de aparecer em nosso fluxo de atualizações. O Facebook nos vê como “avestruzes”, que precisam esconder a cabeça embaixo da terra para não entrar em contato com um pouco mais da realidade. As redes sociais, assim, tentam ficar mais “relaxantes”, mas, por isso mesmo, nos isolam e nos tornam cada vez menos “sociais”! Esse isolamento é uma faca de dois gumes: não escutamos os outros e os outros não nos escutam. Desta forma, como encontrar e apreciar a verdade, o bem, a beleza? Como discutir e corrigir ideias limitadas e interpretações falsas? Como dialogar, aprender, ensinar e progredir?

Quando não vejo a hora de dizer o que penso sobre um tema importante, o mais provável é que eu esteja apenas “pregando para quem já se converteu”. Afinal, quem tem opinião diferente não vai ver o que eu escrevi e, portanto, não teremos possibilidade de interação. Esta divisão artificial empobrece a minha vida e a do outro, porque ambos perdemos a oportunidade de ver o que as outras pessoas têm a nos oferecer – ou a nos desafiar em nossas respectivas zonas de conforto. Perdemos a oportunidade de discutir sobre as nossas convicções – ou supostas convicções. No fim, isso afeta a nossa capacidade de mostrar empatia: os pontos de vista diferentes do meu são associados a grupos abstratos de “os outros”, a quem tenderei a rejeitar, em vez de pertencerem ao meu amigo Fulano, que eu conheço e respeito e com quem intercambio ideias e pontos de vista construtivamente, mesmo que discordemos em muitos assuntos.

É claro que não devemos nos sentir obrigados ao confronto com quem quer que seja, mas onde está o limite entre a sensata autoproteção e o sectarismo? Quando cortar a amizade com alguém que tem outras convicções? O que dizer do vizinho de porta com quem pareço não ter nada em comum, porque ele tem outra religião, pertence a outra classe social e vota em outro partido? Eu devo simplesmente ignorá-lo porque o mundo dele é diferente do meu?

Evitar esses encontros potencialmente desagradáveis parece o caminho mais simples, mas… será mesmo? Embora eu não saiba o que tenho em comum com meu vizinho, ou com um velho amigo que não encontro há muitos anos, ou com o parente taciturno que vejo em alguns encontros de família, sempre posso tentar olhar para eles com mais profundidade, superando as aparências iniciais. Podemos ter muitos pontos em comum no nosso jeito de enxergar a vida, em alguma experiência semelhante, em algum aspecto da nossa personalidade. E, no fundo, todos compartilhamos uma coisa: a necessidade de respeito. E toda vez que conseguimos nos respeitar, conseguimos melhorar as relações da humanidade consigo própria.

As interações humanas podem ser caóticas, mas é sempre possível procurar (e encontrar) o lado positivo das relações e da amizade com quem é diferente de mim. É claro que todos queremos nos proteger e preservar a nossa família, mas podemos e devemos prestar atenção ao grau de isolamento que talvez estejamos fomentando. Será que, me abrindo mais, eu não poderia exercer uma boa influência sobre os outros? Dar um conselho ou sugestão iluminadora a quem está precisando? Ajudar o próximo de alguma forma? Ou ser ajudado por ele? Será que não posso aprender algo que não conhecia, revisar ideias que não estavam claras para mim (ou que eu achava, fragilmente, que estavam claras demais), entender o que leva os outros a pensarem de modo diferente?

Interagir entre humanos, enfim, é sempre uma oportunidade para recordar que, nesta vida, estamos todos no mesmo barco. Às vezes, é só isso o que precisamos enxergar.

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