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Quando precisamos repensar a nossa humanidade: “Mas você, irmã, você nunca mais vai voltar”

Amanda e Mayara - Reprodução Facebook

Aleteia Brasil - publicado em 03/02/17

Um relato-denúncia de partir o coração – mas capaz, também, de reconstruí-lo e transformá-lo

Compartilhamos a seguir uma história de partir o coração – mas capaz, também, de reconstruí-lo e transformá-lo com base nas reflexões cruciais que suscita sobre as nossas atitudes para com o próximo.

É um relato postado no Facebook, neste último dia 31 de janeiro, por uma jovem chamada Mayara Rodrigues, da cidade fluminense de Campos dos Goytacazes. No relato, que rapidamente se tornou viral, ela conta a história de Amanda, sua irmã. Nossa irmã.

Nossa irmã Amanda morreu no hospital, aos 19 anos, depois de passar por uma cirurgia bariátrica onze dias antes. O caso envolve a contestação, por parte da família, do laudo da morte da jovem, bem como uma denúncia de negligência que ainda está sendo apurada. Para além dos devidos esclarecimentos a respeito da causa da morte de Amanda, o que também exige a nossa atenção é o conjunto de atitudes que levaram a vida desta jovem a se transformar num sofrimento desumano desde a infância, por conta de valores e atitudes sociais que precisam, urgentemente, ser revisados.

Como católicos, nós somos obrigados pelo mandamento do amor ao próximo, promulgado pelo Cristo a quem dizemos seguir, a não ficar de modo algum indiferentes à desfiguração da humanidade que leva a tantos e tão frequentes extremos, como o que é narrado neste relato repleto de exemplos graves de falta de amor. Aliás, falando no mandamento do amor ao próximo: o nome “Amanda”, em latim, significa, nada menos, “Aquela que deve ser amada”… E Amanda foi amada, certamente. E muito! Mas não por todos. E isto não pode ser visto com normalidade por nenhum cristão.

O relato de Mayara Rodrigues pode ser lido na íntegra em seu perfil no Facebook. A seguir, compartilhamos excertos que nos convocam à reflexão e ao exame de consciência.

___

“Amanda sempre foi uma criança gordinha, gordinha e muito alegre. Boa de coração e cheia de alegria. Amanda começou a sofrer preconceito a partir dos 7 anos. As crianças da sala dela não aceitavam a minha irmã porque ela era gordinha.

Amanda não podia sentar na mesma mesa das meninas na hora do lanche, não podia ser do mesmo grupo nas brincadeiras na hora do parquinho e da educação física, e muito menos conviver junto na sala de aula.

Amanda foi uma criança excluída pelas meninas. E os meninos? Ah, os meninos batiam nela; por diversas vezes, Amanda chegou em casa machucada, espancada, com as perninhas roxas. Em uma das vezes que ela nos contou de mais um dia terrível de aula, ela nos disse que desceu pro lanche e, quando subiu, suas coisas estavam rasgadas e no chão da sala. Rasgaram tudo, seu caderninho, seu estojo, sua mochilinha. Estava tudo rasgado no chão.

Os apelidos? Eram vários, de todos os tipos. Até alguns professores já apelidaram a minha irmã. Muitas vezes eu escutei dos meus parentes na frente dela: “Olha Mayara, você está engordando, vai ficar igual a sua irmã”. Como isso a machucava! Já passou por várias escolas e nunca foi aceita como uma pessoa normal. No ano passado, ela não foi fazer a prova do Enem por vergonha de não caber na cadeira e todos rirem dela.

Na escola, ela tinha que escolher algumas cadeiras que ela conseguia sentar, com bastante dificuldade e muita vergonha de todos. As pessoas sempre a discriminaram. As pessoas olhavam a minha irmã de uma forma diferente.

Ela sentia vergonha de tudo, ela não ia ao shopping à noite por vergonha das pessoas. Ela não segurava sua bandejinha de lanche. Ela não ia ao mar, e fazia muito tempo que ela não sabia nem como era pisar na areia.

Amanda nunca soube o que era entrar em uma loja e escolher a roupa que ela queria. Nessa virada de ano, ela passou com uma blusinha branca e um short. Ela queria um vestido, mas não tinha o tamanho dela. Ela me perguntou se estava bonita e eu respondi que ela estava linda; logo em seguida eu escutei mais uma das frases doídas que sempre saíam dela: “Irmã, eu não gostei dessa roupa, estou me sentindo muito feia. Mas era a única que cabia em mim”.

Nós tentamos de tudo com a Amanda: médicos, dietas, remédios, atividades físicas. Nada foi capaz de conter o peso dela. O peso dela nunca estabilizou, ela engordava cada vez mais. Optamos pela cirurgia. Depois de pensar muito, chegamos à conclusão de que essa era a única saída.

Ela estava tão feliz, tão feliz… “Eu vou ficar bonita, as pessoas vão gostar de mim”. “Esse sofrimento vai acabar, irmã”. “Eu vou vestir 38”. Ela me falava tantas coisas…

(…)

No dia 17 de janeiro a minha irmã fez a cirurgia. Assim que ela voltou para o quarto, reclamou de uma dor na perna. A minha mãe notificou aos enfermeiros dessa dor, e o doutor (…) pediu que aplicassem uma dose do anticoagulante e, no dia seguinte, mais uma dose. A minha mãe conversou com ele e disse que ela tinha [propensão] genética para trombose e perguntou se não seria necessário mais doses do anticoagulante. Ele disse que não seria necessário.

No dia 27 de janeiro a minha irmã sentiu uma dor muito forte na barriga e a levamos às pressas para o beda. Chegando lá, ele fez uma tomografia e disse que estava tudo bem. A minha irmã estava com falta de ar, estava morrendo de dor, e ele pediu pra diminuir a dosagem do remédio para dor. Ele conversou com a minha mãe e disse que achava que a dor era psicológica. Ele a internou e disse que, se a dor persistisse, ele iria fazer uma nova cirurgia no dia seguinte para investigar o que estava acontecendo.

A minha irmã estava com dor e segurava as mãos da minha mãe dizendo que a dor não era psicológica, e os enfermeiros diziam que só podiam seguir o que o doutor (…) disse para fazer.

Às 3h do dia 28, a minha mãe acordou e a minha irmã não conseguia respirar, estava sufocada, não conseguia falar. Só olhava para minha mãe desesperada. A minha mãe saiu gritando por socorro pelo hospital. Levaram a minha irmã para a UTI. A minha irmã teve embolia pulmonar, dentro do hospital, no socorro, e ninguém descobriu. O médico, sabendo do histórico da minha irmã, nem desconfiou da trombose.

A minha irmã não resistiu. Ela entrou no hospital com a carteirinha e a identidade e saiu com um atestado de óbito. A minha irmã não ficou nem 24 horas no hospital. A minha irmã morreu com sede, com dor, arrependida da cirurgia. A minha irmã não vai mais sorrir, não vai dirigir, não vai se formar, não vai trabalhar, não vai namorar, não vai ser mãe, nem tia.

O carro dela continua na garagem. Os seus perfumes continuam no armário. Sua cama ainda está aqui. Sua bolsa está pendurada no lugar de sempre. Seus sapatinhos estão onde você deixou. Sua gatinha está te procurando. Mas você, irmã, você nunca mais vai voltar.

Eu te amo, para sempre”.

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