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Carta às vítimas de Manchester: “Morreram quase sem razões, do mesmo jeito que viveram”

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"Depois, tudo será arquivado na retórica de quem não tem nada a dizer diante das tragédias, porque não tem nada a dizer diante da vida"

Apresentamos a seguir a tradução da carta aberta publicada pelo arcebispo italiano dom Luigi Negri, de Ferrara-Comacchio, aos 22 jovens que foram mortos pelo covarde atentado terrorista do dia 22 de maio, durante um show de música em Manchester, na Inglaterra. O texto original, em italiano, foi divulgado pelo site La Nuova Bussola Quotidiana.

 

Caríssimos filhos,

Sinto-me à vontade para chamá-los assim, embora não os conheça. Nas longas horas de insônia depois do anúncio desse atentado terrível, em que muitos de vocês perderam a vida e muitos outros ficaram feridos, eu me senti ligado a vocês de maneira especial.

Vocês vieram a este mundo, em muitos casos sem sequer serem desejados, e ninguém lhes deu “razões adequadas para viver”, como pedia o grande Bernanos à geração dos seus adultos. Colocaram vocês na sociedade com dois grandes princípios: que vocês podem fazer tudo o que quiserem, porque todo desejo de vocês é um direito, e que é importante ter o maior número possível de bens de consumo.

Vocês cresceram assim, assumindo como óbvio que tinham tudo. E quando passavam por algum problema existencial (antigamente se dizia assim) e o contavam aos seus pais, aos seus adultos, lá estava a sessão de psicanálise para resolver o problema. Eles só esqueceram de lhes contar que existe o Mal. E o Mal é uma pessoa, não uma série de forças ou energias. É uma pessoa. Essa pessoa se escondeu ali, durante o show de vocês, e a asa terrível da morte, que ela traz consigo, os atingiu.

Meus filhos, vocês morreram assim, quase sem razões, do mesmo jeito que viveram.

Não se preocupem: não ajudaram vocês a viver, mas vão lhes dar um “ótimo” funeral, no qual exprimirão ao máximo o pacote retórico laicista, com todas as autoridades presentes (infelizmente, também as religiosas), de pé, silenciosas. É claro que o funeral de vocês vai ser ao ar livre, inclusive para os crentes, porque agora o único templo é a natureza. Robespierre com certeza daria risada, já que nem mesmo ele chegou a fantasiar isto. Aliás, não se fazem mais funerais nas igrejas porque, conforme a observação aguda do cardeal Sarah, já se celebra nas igrejas católicas o funeral de Deus.

Eles não vão se esquecer de colocar nas calçadas os seus ursinhos de pelúcia, nem as suas memórias de infância, dos seus primeiros anos de juventude. Depois, tudo será arquivado na retórica de quem não tem nada a dizer diante das tragédias, porque não tem nada a dizer diante da vida.

Espero que pelo menos algum desses gurus – culturais, políticos e religiosos – guarde a língua e não nos apareça com os costumeiros discursos dizendo que “isto não é uma guerra de religiões” e que “a religião é aberta por natureza ao diálogo e à compreensão”. Espero que haja um momento silencioso de respeito; respeito, primeiramente, pelas suas vidas, mutiladas pelo ódio do demônio, mas respeito também pela verdade. Porque os adultos deviam ter respeito pela verdade. Podem até não a servir, mas devem respeitá-la.

De todo modo, eu, que sou um velho bispo que ainda acredita em Deus, em Cristo e na Igreja, celebrarei a Missa por todos vocês no dia do seu funeral, para que, do outro lado – quaisquer que tenham sido as suas práticas religiosas – vocês encontrem o amadíssimo rosto de Nossa Senhora. Ela, abraçando vocês, os consolará por essa vida desperdiçada, não por culpa sua, mas por culpa dos seus adultos.

 

Dom Luigi Negri

Arcebispo de Ferrara-Comacchio

em La Nuova Bussola Quotidiana