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Sob ameaça de morte, é permitido fingir que renegamos a fé cristã?

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Até que ponto podemos ser chamados ao martírio?

A resposta para esta questão é bastante drástica. Existe algum caso em que o cristão pode renegar a sua fé? Não. E se ele estiver sob ameaça de morte de um fanático terrorista? Também não. E se for evidente e inevitável que ele vai ser assassinado se não renegar a fé cristã? Também não. E se for só “de mentirinha”, quando, na verdade, ele conserva a fé interiormente? Também não. Mas ele vai perder a vida! Alto lá: ele vai perder esta vida, mas não A Vida! Aliás, ele vai ganhá-la de modo garantido: o sincero e autêntico martírio pela fé, afinal, nos confere indulgência plenária!

©Tony Rezk

São João Paulo II abordou esse tema na encíclica Veritatis splendor. Ela contém uma seção intitulada O martírio, exaltação da santidade inviolável da lei de Deus (números 90-94).

O número 91 nos diz:

A Igreja propõe o exemplo de numerosos santos e santas que testemunharam e defenderam a verdade moral até ao martírio ou preferiram a morte a um só pecado mortal. Elevando-os à honra dos altares, a Igreja canonizou o seu testemunho e declarou verdadeiro o seu juízo, segundo o qual o amor de Deus implica obrigatoriamente o respeito dos seus mandamentos, inclusive nas circunstâncias mais graves, e a recusa de atraiçoá-los, mesmo com a intenção de salvar a própria vida.

A última frase diz tudo.

Prossegue o texto no número 92:

No martírio, enquanto afirmação da inviolabilidade da ordem moral, refulge a santidade da lei divina e, conjuntamente, a intangibilidade da dignidade pessoal do homem, criado à imagem e semelhança de Deus: é uma dignidade que nunca é permitido aviltar ou contrariar, nem mesmo com boas intenções, sejam quais forem as dificuldades. Jesus adverte-nos, com a máxima severidade: «Que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma?» (Mc 8, 36).

Convém notar as palavras “nem mesmo com boas intenções”. A boa intenção é um elemento necessário no agir, mas não é suficiente. A boa intenção não transforma o que é mau em bom; por isso, não pode justificar o que injustificável.

No Evangelho também encontramos algumas palavras do próprio Jesus que fecham a questão:

“Todo aquele que me confessar diante dos homens, também eu o confessarei diante do meu Pai que está nos céus. Mas aquele que me negar diante dos homens, também eu o negarei diante do meu Pai que está nos céus” (Mt 10, 32).

Sim, custa entender que a mensagem de Jesus no Evangelho seja tão exigente; mas ela é. E é até o extremo.

O exemplo dos cristãos coptas martirizados pelos fanáticos do Estado Islâmico, em 2015, é certamente admirável. A Igreja copta os proclama oficialmente santos: afinal, eles deram a vida por Cristo.

Aliás, a propósito deles:

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O que a mídia não mostrou sobre o vídeo da execução dos 21 cristãos egípcios

 

Na época do Império Romano, as perseguições foram atrozes e, algumas, generalizadas. E nunca houve dúvidas entre os fiéis cristãos de que eles eram chamados a confessar a fé até o martírio. Eles eram orientados a não procurar o martírio, mas, caso se vissem em tal situação, a encará-lo de frente, sem temer, sem hesitar, sem rejeitar a sua fé. Não havia desculpas.

O que chegou a ser discutido foi o perdão e o reingresso na Igreja daqueles que, por fraqueza, tinham cedido. A questão se resolveu sempre de acordo com o Evangelho: sim, é claro que é possível o perdão e o retorno à Igreja, pois não existe pecado que Deus não esteja disposto a perdoar a quem está sinceramente arrependido e pede misericórdia de coração contrito e confiante. Mas ninguém duvidava de que a negação da própria fé, mesmo diante de uma ameaça tão apavorante, era um pecado gravíssimo, já que não priorizava o amor a Deus acima de todas as coisas.

A história também testemunha a serena fortaleza dos mártires.

Deus sempre deu a Sua graça – extraordinária, se quisermos qualificá-la assim – para encarar essa prova suprema e esse chamado extremo a testemunhar a fé. Aliás, “martírio”, em grego, significa precisamente “testemunho”.

Tertuliano escreveu, por volta do ano 200, que o sangue dos mártires era semente de novos cristãos. Foi assim, é assim e será assim.

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