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Sem ajuda de Bagdá, comerciantes reconstroem bairro histórico de Mossul

Mystyslav Chernov | CC

Agências de Notícias - publicado em 24/12/17

Cansados de esperar pela ajuda de Bagdá, que não vem, comerciantes do mercado de Sérail, no bairro histórico de Mossul, decidiram reconstruir por conta própria suas lojas, uma tarefa titânica considerando a extensão da destruição.

Depois de meses de silêncio lúgubre, o bairro voltou a ouvir o som de martelos, enquanto escavadeiras retiram os detritos em um cenário de desolação.

“Fui o primeiro a reabrir minha loja há dois meses depois de ter limpado o local com a ajuda de outros comerciantes”, diz Zanun Yunès Rajab, de 44 anos.

Para retirar os escombros da rua, esse pai de cinco anos gastou, como seus colegas, 25 mil dinares, ou 20 dólares. O mesmo para as ruas vizinhas, das mercearias, onde, novamente, nenhuma ajuda do Estado chegou.

– Ainda perigoso –

O mercado, do qual uma parte data do período dos Omíadas, há 13 séculos, traz cicatrizes de nove meses de combates de violência inédita que resultaram na expulsão dos jihadistas do grupo Estado Islâmico (EI) de seu reduto no Iraque.

Fachadas destruídas, tetos derrubados, ruas obstruídas por ferro retorcido e mercadorias saqueadas nas lojas: não resta muito do que era antes da guerra um dos bairros mais animados da segunda maior cidade do país.

O mercado está localizado na margem oeste de Mossul – cidade cortada pelo rio Tigre -, a parte que mais sofreu por conta dos bombardeios aéreos.

O bairro de Sérail é um emaranhado de ruas estreitas onde estão instaladas lojas das mais variadas, de especiarias, café, carvão, roupas ou doces.

As portas que dão acesso ao mercado viraram cinzas e é difícil e até perigoso entrar, mesmo que agentes da segurança assegurem que a área seja segura.

Bombas e outros dispositivos explosivos ainda estão sob os entulhos, onde corpos estão em estado de putrefação.

Mas nada disso tem desanimado os comerciantes locais, decididos a reviver seu bairro, um dos últimos reconquistados pelas forças governamentais.

Operários tentam remover uma laje de concreto. Outros instalam uma armação de ferro antes de quebrar o concreto para reconstruir uma calçada na frente de uma loja.

“Não vamos esperar a prefeitura porque é extremamente lenta e certamente levará meses” para adotar um plano para Mossul, diz à AFP Abu Spice, vendedor de especiarias de 33 anos.

O prefeito, Zuhair al-Araji, defende-se dizendo que deve trabalhar “com meios limitados” disponíveis para o município, enquanto que os equipamentos da prefeitura foram roubados ou destruídos pelos jihadistas.

– ‘Nossa alma’ –

“Contamos apenas com nós mesmos, porque o governo central até agora não tem plano para a reconstrução de Mossul”, indicou à AFP.

Enquanto a eletricidade e o abastecimento de água ainda não foram restabelecidos em algumas áreas, e algumas estradas ainda são intransitáveis, Araji, assegura que faltam veículos para os funcionários municipais.

“De um total de 1.800, só restam 300”, explica.

No mercado do Sérail são voluntários a pé que percorrem as ruas, que se tornaram um verdadeiro canteiro de obra ao ar livre.

Abu Nabil, de 65 anos, passou quase toda a sua vida na mais antiga loja de tapetes da cidade, transmitida de pai para filho.

Cansado de esperar desde o anúncio, no mês de julho, da “libertação” de Mossul, assumiu a tarefa de reconstrução. “Não consigo imaginar a minha vida sem o meu trabalho e a minha loja. Estou limpando e começando a trazer de volta tudo o que tinha guardado antes da batalha”, explica à AFP.

Porque para ele, assim como para seus vizinhos, “nossa loja é nossa alma, não podemos viver serenos sem ela”.

(AFP)

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