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Por que o demônio declarou guerra ao celibato, ao matrimônio e à Eucaristia?

By zebra0209 | Shutterstock
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Quem escolhe viver a virgindade ou o celibato renuncia, por causa do “sobrenatural”, àquilo que o ser humano tem de mais “natural”. E o demônio não pode tolerar isso.

Muitas pessoas já devem ter visto esta citação de uma carta escrita por Irmã Lúcia, a vidente de Fátima: “O confronto final entre o Senhor e o reino de Satanás será sobre a família e sobre o matrimônio. Não tenha medo, porque qualquer um que trabalhar pela santidade do matrimônio e da família será sempre combatido e contrariado de todos os modos, porque este é o ponto decisivo.”

Poucos têm conhecimento, entretanto, sobre os escritos do Papa Sirício (334-399), que descreveu seu oponente Joviniano como um instrumento do “antigo inimigo, adversário da castidade, mestre da luxúria”, por este ter atacado o celibato do clero. Haveria alguma conexão entre a intuição da Irmã Lúcia e a antiga campanha do diabo contra a virgindade e o celibato pelo Reino dos Céus?

A fim de responder a esta pergunta, precisamos lançar um olhar ao diabo: quem ele é, e como trabalha.

Lúcifer odeia a virgindade consagrada e o celibato sacerdotal porque esse carisma e estado de vida é um dos mais intrinsecamente opostos ao orgulho que acarretou a sua queda, a perda de sua beatitude e danação eterna. O diabo desejava receber a bem-aventurança como uma recompensa de sua própria grandeza natural, não como um presente da graça, imerecido por qualquer criatura. Ele desejava ser o “filho primogênito” a receber homenagem das criaturas inferiores — talvez até mesmo ser o mediador entre a raça humana e seu Criador.

Quando Deus revelou, porém, que Ele mesmo entraria em amizade com os animais racionais, tão imensamente inferiores aos anjos, e lhes daria a beatitude; que sua própria Palavra iria se fazer carne; que essa Palavra encarnada elevaria a raça humana sofrendo e morrendo por ela, Lúcifer não o pôde tolerar. Ele se fechou em seu amor próprio e, cheio de orgulho, disse: Non serviam, eu não servirei a Deus, não servirei a um Deus assim, a um plano assim. Lúcifer rejeitou o sobrenatural em favor do natural.

Ora, o homem ou a mulher que escolhe a virgindade ou o celibato pelo Reino dos Céus faz justamente o oposto do que fez o diabo. De algum modo, ele ou ela está pondo de lado o natural em favor do sobrenatural. A virgem ou o celibatário renuncia àquilo que o ser humano tem de mais natural — viver ao lado do sexo oposto, encontrando nesta comunidade uma amizade e fecundidade projetadas para o homem desde o início, escritas em sua própria natureza corpórea, como vemos no relato de Eva sendo formada a partir do lado de Adão e trazida então a ele como sua esposa.

Como nada é mais natural ao homem do que o casamento, nada atesta mais supremamente o oferecimento de si mesmo a Deus do que esta renúncia feita por causa dEle. A vida da virgem ou do celibatário é um holocausto de imitação a Jesus Cristo, o Cordeiro de Deus. Assim como a Palavra se tornou carne para nossa salvação, as almas consagradas fazem de suas próprias carnes uma palavra viva de total consentimento e entrega a Deus. A virgem ou o celibatário é o sinal humano supremo do amor radicalmente abnegado e redentor de Deus — e a antítese completa da rebelião de Lúcifer.

Mas, assim como os santos oram sem cessar e geram a oração em outros, o diabo, que é um mentiroso e o pai da mentira (cf. Jo 8, 44), mente sem cessar e gera ainda mais mentiras em suas vítimas. Ele convence as pessoas a acreditarem que o celibato ou a virgindade é uma depreciação do casamento, que aqueles que promovem esse estado e vocação mais elevados de vida estão atacando a ordem da criação, a bondade da natureza e a beleza do amor conjugal. Ele se apresenta, às vezes, como um defensor destas coisas, mas apenas de um modo distorcido, como Lutero fez.

O diabo quer que o compromisso exclusivo dos padres e religiosos para com Deus e o seu povo seja diluído e abandonado, a fim de que ele possa ampliar e multiplicar sua própria rebelião infernal contra as “vestes” da graça em favor de uma natureza “despida” à qual ele possa chamar de sua — e de um exército de seguidores ao qual ele possa chamar de seu, seguindo-o rumo ao vazio e à frustração de uma natureza eternamente “desnuda”. Na maioria das vezes, porém, ele semeia a mentira de que o homem não pode se realizar sem sexo, sem uma experiência sexual — que os seres humanos são castrados e se tornam miseráveis se não apreciam a presença carnal de outro homem ou mulher.

Quão sutil é a estratégia de Satanás! A verdadeira miséria do homem é, na verdade, a vida sem Deus, a vida sem o conhecimento e o desejo da comunhão eterna com Deus no Céu. Uma vez que ambos, o sacerdócio e a vida religiosa, estão diretamente ordenados a proclamar a realidade e o primado do Reino dos Céus, é crucial para o bem-estar da humanidade que os padres e religiosos sejam sinais inequívocos de nosso destino último — pois no Céu, como Nosso Senhor ensina, não há matrimônio. O único matrimônio no Céu é o da perfeita união entre Cristo e sua Igreja.

Este matrimônio entre Cristo e a Igreja, por sua vez, tem dois sinais especiais na terra: o sacramento do matrimônio e o sacramento da Eucaristia. Por isso o diabo ataca a ambos.

Ele ataca o matrimônio destruindo pouco a pouco os bens do casamento: a prole (através da contracepção e do aborto), a fidelidade (através da fornicação e do adultério) e o sacramento (através do divórcio e de práticas pastorais que o favorecem).

Ele ataca a Santíssima Eucaristia — que é a presença corporal de Nosso Senhor Jesus Cristo, capaz de satisfazer nossa fome de amor nesta vida — atingindo a Sagrada Liturgia, tentando as pessoas a colocarem o homem no centro, numa celebração autorreferencial que deturpa o significado da Missa, ainda que o sacramento tenha sido validamente celebrado.

Portanto, a estratégia do diabo tem várias facetas:

  • Ele luta para destruir a aliança indissolúvel do matrimônio, que é o sinal sacramental da união fecunda e indestrutível entre Cristo e sua Igreja. A guerra contemporânea contra o matrimônio é também, e mais profundamente, uma guerra contra a união nupcial entre Cristo e a Igreja — um esforço frenético, ainda que infrutífero, por apagar das mentes dos homens qualquer memória dessa gloriosa união consumada na Cruz.
  • Ele trabalha para destruir a Santíssima Eucaristia, que é o sinal e a causa de nossa comunhão com Cristo e a nossa maior participação em sua auto-oblação na Cruz.
  • Ele trabalha para destruir o sacerdócio e a vida religiosa, que exemplificam e efetivamente produzem, neste mundo, o ordenamento de toda a criação, através de Cristo, ao Pai, que é o começo e o fim de todas as coisas.

O elemento comum a todos esses ataques é a fúria do diabo com a subordinação, ao sobrenatural, de qualquer coisa que seja natural. O inimigo de Deus não suporta que o sacrifício fiel e radical de si mesmo seja caminho de salvação e bem-aventurança.

(via Pe. Paulo Ricardo)

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