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Um bispo e cinco padres brasileiros na cadeia, acusados de desviar dinheiro da Igreja

acusações de desvio de dinheiro
TV Anhanguera / Reprodução
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Operação Caifás tem o sugestivo nome do sumo sacerdote que participou do injusto e torpe julgamento de Jesus Cristo no Sinédrio

Caifás é o nome do sumo sacerdote judaico, apontado ao cargo pelos governantes romanos, que participou do injusto e torpe julgamento de Jesus Cristo no Sinédrio. Acusado de blasfêmia perante aquele tribunal, Jesus foi condenado e entregue ao juízo de Pôncio Pilatos, que, ao “lavar as mãos”, assentiu à sentença de morte na cruz pedida pelo volúvel povo de Jerusalém.

Veio desse obscuro personagem o sugestivo nome da Operação Caifás, deflagrada pelo Ministério Público do Estado brasileiro de Goiás para investigar desvios de recursos da Igreja católica nos municípios de Posse, Formosa e Planaltina, situados nas proximidades de Brasília.

Nove mandados de prisão e dez de busca e apreensão foram cumpridos nesta segunda-feira, 19 de março, levando à prisão temporária de dom José Ronaldo, bispo de Formosa, além de cinco sacerdotes, dois empresários e um funcionário que trabalhava como secretário da Cúria. Todos foram acusados pelo desvio de recursos da Igreja em montante superior a 2 milhões de reais.

Maços de cédulas de reais, euros, dólares norte-americanos, dólares australianos, pesos argentinos e pesos chilenos foram apreendidos nas casas de clérigos acusados de participação no esquema de desvios, totalizando o equivalente a pelo menos 70 mil reais em dinheiro vivo. Sacos de dinheiro chegaram a ser encontrados no fundo falso de um armário dentro do quarto de um dos acusados, monsenhor Epitácio Cardoso Pereira, conforme apuração da TV Anhanguera, emissora regional.

Segundo os investigadores, dom José Ronaldo seria o articulador do desvio de dízimos, doações de fiéis, taxas de batismos e casamentos e arrecadações de festas paroquiais, num esquema que teria durado pelo menos três anos. Trata-se justamente do período em que o bispo esteve à frente da diocese de Formosa, a partir de 2015.

Escutas telefônicas autorizadas pela Justiça apontam que dom José Ronaldo e quatro sacerdotes compraram uma fazenda de criação de gado e uma casa lotérica, usando o dinheiro desviado da Igreja.

Dois empresários teriam atuado como “laranjas” para disfarçar a propriedade de bens. Sempre segundo as investigações, o pe. Moacyr Santana seria sócio oculto de uma casa lotérica adquirida por R$ 450 mil.

A prisão temporária dos acusados foi determinada pelo juiz Fernando Oliveira Samuel, que declarou a respeito dos valores arrecadados:

“Estão sendo sistematicamente desviados por ordem de José Ronaldo e igualmente aprovados em favor dos demais clérigos, chegando ao ponto na participação efetiva em atividades econômicas. Além disso, é possível que veículos adquiridos pela diocese estejam sendo destinados para uso particular do padre Moacyr na cidade de Posse”.

O juiz informou ainda que os padres envolvidos no esquema teriam forjado a contabilidade de igrejas de Posse, Formosa e Planaltina.

O promotor Douglas Chegury observa que esta não é a primeira vez que dom José Ronaldo é alvo desse mesmo tipo de acusação:

“Ele enfrentou esse mesmo tipo de problema e resistência lá na diocese de Janaúba (MG). Então ele veio transferido de lá para cá e aqui ele implementou um esquema semelhante ao que operava lá”.

Foram as denúncias de fiéis que, em dezembro de 2017, deram início às investigações. Eles afirmaram que as despesas da casa episcopal tinham subido de R$ 5 mil para R$ 35 mil por mês a partir da posse de dom José Ronaldo e solicitaram a abertura pública das contas da Cúria Diocesana, recusando-se ainda a recolher o dízimo até que a medida fosse tomada.

Na ocasião, a diocese de Formosa comunicou que o custo das suas 33 paróquias era de R$ 12 milhões por ano, que a arrecadação no período era de R$ 16 milhões e que o excedente era destinado ao fundo de cada paróquia. Na mesma época, o bispo alegou que não havia “nada de impropriedade” nas contas da diocese e que ele não tocava no dinheiro arrecadado.

A diocese de Formosa ainda não emitiu nenhum comunicado sobre o caso até a publicação desta matéria.

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) informou que está apurando informações e, na tarde desta terça (20), publicou a seguinte nota:

Diante da prisão do bispo da Diocese de Formosa, no estado de Goiás, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB manifesta a solidariedade com o presbitério e os fiéis da Diocese, recordando ao irmão bispo que a justiça é um abandonar-se confiante à vontade misericordiosa de Deus. A verdade dos fatos deve ser apurada com justiça e transparência, visando o bem da igreja particular e do bispo. Convido a todos os fiéis da Igreja a permanecermos unidos em oração, para sermos verdadeiras testemunhas do Evangelho.

Leonardo Ulrich Steiner
Bispo Auxiliar de Brasília
Secretário geral da CNBB

Bispos na berlinda

Lamentavelmente, a corrupção de membros da Igreja católica, inclusive em altos cargos hierárquicos, é um escândalo milenar que, embora público e notório, se mostra teimosamente resistente à erradicação. Ainda assim, a Santa Sé tem feito esforços intensos para separar o joio do trigo e aplicar punições severas a clérigos envolvidos em escândalos de todo tipo.

Um caso relacionado aos abusos financeiros que ganhou repercussão mundial foi o do “bispo de luxo“, em 2013. O Papa Francisco foi contundente ao retirar do cargo dom Franz-Peter Tebartz-van Elst, bispo da diocese alemã de Limburg, por escandalosas e injustificáveis despesas de milhões de euros na casa episcopal. Confira o caso aqui.

Outra área crítica é a dos abusos sexuais, em que a política de tolerância zero determinada pelos Papas Bento XVI e Francisco vem agindo apesar das resistências de burocratas acobertadores. Na semana passada, o Vaticano condenou por abusos sexuais contra menores o arcebispo de Agaña, na ilha de Guamdom Anthony Sablan Apuron, O.F.M. Cap. Saiba mais sobre este caso aqui.

Por outro lado

Também têm ocorrido, no entanto, prisões injustas decorrentes de investigações enviesadas e erros judicias clamorosos, principalmente em relação a sacerdotes acusados falsamente de abusos sexuais que nunca praticaram. Pelo menos quatro exemplos aberrantes de injustiça, em diferentes países, podem ser conferidos neste artigo.

No caso dos acusados em Goiás, é importante considerar que as prisões são temporárias e que as investigações ainda prosseguem. É dever moral de todo católico exigir clareza e justiça, atendo-se estritamente aos fatos objetivamente provados. A atenção é necessária tanto para evitar injustiças quanto para impedir impunidades. Que a verdade prevaleça e, em qualquer caso e sem exceção, que seja feita a justiça.