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Espiritualidade

Cordel: Como cuidar de almas e corações feridos

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A12 - publicado em 05/12/18

Uma imprescindível (e bela) reflexão sobre a evangelização em um mundo doente

RETRATO DE UM MUNDO DOENTE

Olhando a atualidade, na bruta realidade, em que vive o ser humano,

Sem esforço percebemos que o planeta em que vivemos

Segue sem rumo e sem plano.

A inversão da consciência faz gerar a violência, que onde passa causa dano.

Vai semeando doença, idolatria, descrença, incerteza e desengano.

Deus fez tudo com bondade, “fez nascer a eternidade num momento de carinho”.

Nos fez dotados de fé, fez o homem e a mulher,

Pra ninguém viver sozinho.

Com o seu agir preciso, nos botou num paraíso e nos traçou um caminho.

Nos entregou o universo, mas o pecado perverso nos prendeu em seu domínio.

E foi assim que o pecado, virou mal estruturado e alastrou-se entre nós.

Virou praga matadeira, delinquência sem fronteira,

É o bicho mas feroz.

Esse jeito de ofender invadiu o nosso ser de forma triste e veloz,

Virou comunicação no mundo da relação e nos fez seu porta-voz.

Assim, toda a sociedade virou presa da maldade, que onde chega finca o pé,

Impõe suas condições, envenena as relações,

Sem escrúpulo qualquer.

Dissemina a violência, infecta com indecência, seja homem ou mulher.

Essa doença surgiu, se alastrou e invadiu e ‘salve-se quem puder’.

E essa selvageria deixa a humanidade fria, sem piedade e sem amor.

Grandes pisam nos pequenos, quem pode mais chora menos,

Só os grandes têm valor.

Nos palcos da impunidade desfila a banalidade, sem vergonha e sem pudor.

Quem devia governar, inventou de se aliar ao sistema malfeitor.

O mundo está revirado, religião virou mercado, a graça hoje tem preço.

Muitos fiéis iludidos, tantos milagres vendidos,

O céu já tem endereço.

Pilantragem vergonhosa, com pregações enganosas, coisa pior não conheço.

E acredite se quiser, é tudo em nome da fé. A terra virou do avesso.

Vejo que não tem mais jeito, ninguém se dá o respeito, já se foi a educação.

No universo do banal, o derrotismo cultural

Virou letra de canção.

A mensagem apelativa, com letra repetitiva já chegou lá no sertão.

Eu rezo horas inteiras: Deus, leve embora essas sujeiras e devolva o Gonzagão.

No espaço esportivo, eu reflito, apreensivo, vendo a coisa como é.

Um futebol feio e chato, em que só tem pé de rato

E cartolas de má fé.

Eles são ruins de bola, não conhecem a escola de Rivelino e Pelé.

Quando os vejo dando bico, sinto saudade do Zico e do eterno Mané.

No mundo da educação, vejo com apreensão o futuro do Brasil.

A burrice estrutural solapou nosso quintal

E o cenário estudantil.

Escolas são depredadas, as leis são desrespeitadas, a velha ordem sumiu.

Vendo tudo como está, nós podemos constatar que o mundo está doentio.

No tocante à saúde, só um tonto é que se ilude e acha que melhorou.

A coisa está piorando, hospitais estão fechando

E a pobreza aumentou.

Cada vez aumenta o tédio da espera por remédio que o governo não mandou.

Pobre sofre todo dia, esperando a cirurgia, mas o dinheiro acabou.

O pobre sofre amiúde, sem ter plano de saúde para ter atendimento.

O rico pode pagar, tem quarto particular,

Não sabe o que é sofrimento.

O País do carnaval é um País desigual, onde há pobre e avarento.

E essa desigualdade é uma enfermidade que causa dor e lamento.

No campo da moradia, até louco desconfia dos absurdos que há.

Lá tem gente sem escola, passa fome, pede esmola

E não tem casa pra morar.

Um pecado estrutural nega aos pobres um quintal e um espaço pra habitar.

Lá, um clamor indiscreto diz que nosso irmão sem teto merece ter o seu lar.

Na grande população existe uma danação que devia ser banida.

A maldita violência, que traz dura consequência

Aos que lutam pela vida.

As pessoas de bondade se escondem atrás da grade, pelo medo construída.

Nossa gente amedrontada, vive sempre apavorada e não encontra saída.

E falando em sofrimento, quem quer um atendimento não encontra um ombro amigo.

Se alguém quer desabafar, ser ouvido e até chorar,

É visto como um perigo.

Neste mundo desigual, em que tudo é pessoal, há um mal que é antigo:

Ninguém imita Jesus, cada um leva sua cruz e suporta o seu castigo.

Se alguém procura um irmão, pra falar de sua aflição, do seu mundo machucado,

Já se ouve a hipocrisia, indicando terapia

Com quem é qualificado.

Ele engole o seu lamento, esconde seu sofrimento e sai meio desolado,

Pois queria só bondade, amor na gratuidade, não amor terceirizado.

Pra curar um mal antigo, busca em outro ombro amigo o remédio pra sua dor.

E encontra atendimento, pois não foi com pagamento

Que ele recebeu amor.

Ali encontrou remédio, pra curar todo o seu tédio e todo aquele pavor.

Como uma ovelha ferida, ele encontrou acolhida no ombro de outro Pastor.

Nesta triste realidade, falta sensibilidade pra acudir quem está sofrendo.

No mundo do egoísmo, reina o individualismo;

Nosso amor está morrendo.

Cada um só quer ganhar, pra isso tem que lutar e o tempo está correndo.

Não é loucura, nem engano; nos falta um samaritano pra ouvir quem está gemendo.

Na opção que fizemos, muitas vezes nós sofremos com nossos próprios pecados.

Fazemos e desfazemos, e às vezes nos esquecemos

Que também somos julgados.

Tratamos com aspereza, sem bondade e com dureza nossos irmãos consagrados.

Agimos como leões, invadimos corações e os deixamos machucados.

Na convivência diária, uma lepra hereditária afeta o nosso agir.

A tal da maledicência, tem uma forte potência

Pra manchar e denegrir.

Com seu jeito ardiloso, faz comentário maldoso com força pra destruir

Tacha o nosso pobre irmão, que apesar da vocação, ele pensa em desistir.

A inveja destruidora, também é a causadora desse mal que nos afeta.

Ela provoca intriga, desconfiança e briga;

Sua maldade é discreta.

É uma praga perigosa, é serpente venenosa, sua ruindade é completa;

Puxar pessoas pra trás, sujar o que o outro faz é sua arma predileta.

O ciúme desmedido é outro mal embutido na consciência da gente.

É um sentimento feio, que se instala em nosso meio

Deixa a pessoa doente.

A doença do ciúme é algo que se resume como um ser deficiente

Quem tem ciúme tem medo, não sabe guardar segredo e é muito impertinente.

Há também a vaidade, que vem com tudo e invade nossos puros pensamentos

Chega impondo sua norma, nos envolve e nos transforma

Muda os nossos sentimentos.

A busca pelo poder e a ganância pelo ter são nossos contentamentos

Com isso nos esquecemos do lugar onde nascemos e ficamos avarentos.

Com o impulso da vaidade, se temos autoridade, somos diferenciados

Carro novo em nossa mão, dinheiro à disposição

E outros bens reservados.

Esses males perigosos, que nos deixam vaidosos, nos mantêm escravizados

A vaidade causa danos, nos faz viver de enganos e nos deixa enfeitiçados.

A maldita prepotência e a auto suficiência também causam danação.

Há elemento empinado, porque é mais estudado

Ofende sem compaixão.

Arrota sabedoria, não aceita companhia, vai sempre na contra mão

Esquece que algum dia vamos fazer moradia debaixo do mesmo chão.

A disputa vergonhosa é outra peste danosa que invadiu nosso meio.

Há sujeito à toda hora correndo sempre por fora

No embalo do devaneio.

Usa o fim como proposta, apunhala pelas costas e não tem nenhum receio

Vai sem ver o mal que faz, passando os outros pra trás e não acha isso feio.

A falta de humildade é outra triste verdade que temos que encarar.

Geralmente é quem foi pobre, que se reveste de nobre

Se camufla pra esnobar.

Usa seu potencial de ser sujeito do mal para ferir e pisar

Esse tipo de pessoa não pode ser coisa boa e nunca vai melhorar.

Outro veio da maldade chamada infidelidade, eu não posso esquecer

Esta age com lisura, deixa nossa estrada escura

Faz a gente se perder.

Nos coloca em confusão, provoca decepção, problemas pra resolver

Mancha nossa integridade, fere nossa identidade, nosso sim e o nosso ser.

Outro mal que causa arraso, é o chamado descaso, tenho que salientar.

É doença enraizada, é uma marca registrada

Ninguém pode duvidar.

A triste realidade apresenta propriedade começando a se estragar

Quem olha com mais cuidado percebe prédio estragado prestes a desmoronar.

Outro fruto da maldade, a danosa falsidade impregnou o nosso agir.

Essa gente causa medo, não sabe guardar segredo

E tem fama de fingir.

Não usa a consciência, ignora a confidência de alguém que quis se abrir

Aborta nossa esperança, não inspira confiança, é falso até no sorrir.

Em nossa sociedade, a ausência da verdade provoca destruição.

A pessoa mentirosa, é serpente perigosa

E mãe da corrupção.

A mentira causa briga, provoca ódio e intriga, faz surgir separação

Quem mente não tem moral, caminha num lamaçal, é estada de perdição.

Querer ser dono do alheio, esse é o vício mais feio que mancha o nosso ideal.

Numa atitude tão feia, mete a mão na coisa alheia

E acha tudo normal.

Essa coisa doentia, que é doença universal

Desvia o comportamento, causando constrangimento e mancha a nossa moral.

Nosso mundo está doente; é mundo feito de gente, é obra da criação.

Deus criou tudo perfeito, planejou com muito jeito

E indicou a direção.

Mas chegou o triste dia, em que o homem, sua cria, levado pela ilusão,

Com o apoio da mulher, desvirtuou sua fé, e assim nasceu a ambição.

A autossuficiência, mãe de toda violência, autora de todo mal,

Confundiu o ser humano, chegou ditando seu plano,

Fez ali o seu quintal.

Esbanjando competência, invadiu a consciência, sem precisar de aval.

Com seu jeito dominante, fez nascer, naquele instante, nossa doença moral.

Num momento inesperado, apareceu o pecado, pra trazer destruição.

Prontos pra fazer besteira, o homem e a companheira

Mancharam a reputação.

E o casal iludido, vendo o fruto proibido, cedeu à corrupção.

Hoje nos resta a esperança: para que haja mudança, tem que haver a Conversão.

Por Padre Anchieta Tavares, publicado originalmente em A12.com

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