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Não há pesquisas suficientes sobre os perigos da maconha

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John Burger - publicado em 03/02/19

À medida que mais Estados pressionam pela legalização, os especialistas alertam sobre os efeitos psicológicos, o aumento dos acidentes de trânsito, a violência

A maconha agora está legalizada nos Estados Unidos para uso medicinal em 33 Estados e para uso recreativo em 10. Há movimentos em vários Estados, incluindo Nova York, Nova Jersey, Connecticut e Minnesota, para permitir a maconha para uso recreativo.

Não deveria ser tão rápido, diz o autor de best-sellers do New York Times Malcolm Gladwell. Em um longo artigo na New Yorker, Gladwell adverte que a ciência está longe de afirmar a segurança da maconha.

Em um relatório de 468 páginas publicado há dois anos pela Academia Nacional de Medicina, categoria após categoria de supostos benefícios do uso da maconha recebeu o mesmo veredicto da Academia: “evidências insuficientes”. Esses alegados benefícios incluíam tratamento para náuseas associadas com quimioterapia, epilepsia, síndrome de Tourette, ELA (Esclerose Lateral Amiotrófica), Huntington, Parkinson, síndrome do intestino irritável e ansiedade.

Quando se trata de saber se a maconha pode ser útil para males como depressão, demência e glaucoma, a resposta foi: “Provavelmente não”.

O potencial para o dano, por outro lado, é um pouco mais certo, Gladwell observou:

O uso de cannabis aumenta a probabilidade de acidentes de carro fatais? Sim. Mas quanto? Não está claro. Isso afeta a motivação e a cognição? Difícil dizer, mas provavelmente sim. Afeta as perspectivas de emprego? Provavelmente sim. Isso prejudicará o desempenho acadêmico? Há evidência.

Enquanto Estados e municípios parecem ansiosos para legalizar a maconha, Gladwell apontou que existem poucos estudos sobre a droga, e esses estudos foram feitos décadas atrás. Hoje, a maconha é geralmente muito mais potente.

“Por causa dos recentes desenvolvimentos em técnicas de cultivo e crescimento de plantas, a concentração típica de THC, o ingrediente psicoativo da maconha, passou dos baixos dígitos para mais de 20% – de um gole de cerveja a uma dose de tequila”, escreveu Gladwell.

Compare isso, escreve ele, à produção farmacêutica com ajustes finos e abrangentes para satisfazer à FDA (Food and Drug Administration) antes que uma droga possa ser levada ao mercado.

Havia uma área, no entanto, onde a Academia Nacional tinha muito mais certeza: “O uso de cannabis provavelmente aumentaria o risco de desenvolver esquizofrenia e outras psicoses; quanto maior o uso, maior o risco”.

O autor Alex Berenson relata evidências disso em seu livro Tell Your Children: The Truth About Marijuana, Mental Illness, and Violence. Ele cita Erik Messamore, um psiquiatra especializado em neurofarmacologia e no tratamento da esquizofrenia, que relatou um aumento acentuado no número de pacientes com esquizofrenia nas últimas duas décadas. Curiosamente, o uso de maconha nos EUA quase dobrou no mesmo período de tempo.

“Um número surpreendente deles parecia ter usado apenas cannabis e nenhuma outra droga antes de suas crises”, segundo Berenson. “A doença que eles desenvolveram parecia esquizofrenia, mas se desenvolveu mais tarde – e o prognóstico deles parecia pior. Suas ilusões e paranoia dificilmente responderam aos antipsicóticos”.

Marni Chanoff, psiquiatra do corpo docente da Harvard Medical School e do McLean Hospital, em editorial nesta semana no USA Today, alertou que ninguém com história familiar de doença mental deveria sequer se aproximar da maconha.

“Para qualquer pessoa com histórico familiar de doença mental grave, o uso prolongado ou pesado de cannabis também está associado a maiores chances de desenvolver esquizofrenia”, alertou Chanoff.

“Ter um pai ou irmão com uma doença psicótica amplifica significativamente o risco de desenvolver esquizofrenia. Ter avós ou bisavós, tias, tios ou primos com esquizofrenia alimenta esse risco. Pesquisas mostram que episódios psicóticos iniciais podem ocorrer de dois a seis anos antes em pessoas que usam cannabis diariamente, particularmente entre usuários de alta potência”.

Ela viu em primeira mão. “Como psiquiatra, eu cuidei de dezenas de jovens experimentando seu primeiro episódio psicótico, e muitos… tinham usado a erva ao longo do dia”, ela testemunhou.

Há um debate na comunidade médica, no entanto, com alguns acreditando que a alta correlação entre o uso da maconha e os problemas psicológicos não implica que um cause o outro.

“Pessoas com problemas psicóticos geralmente usam cannabis regularmente; esta é uma correlação sólida, apoiada por numerosos estudos. Mas não está claro qual veio primeiro, o hábito da cannabis ou as psicoses”, escreveu Benedict Carey, repórter de ciência do New York Times.

“Crianças que mais tarde desenvolvem esquizofrenia muitas vezes parecem se refugiar em seu próprio mundo, perseguidas periodicamente por medos e fantasias bizarras bem fora do alcance da imaginação infantil habitual, e bem antes de serem expostas à cannabis. Aqueles que se tornam usuários regulares da maconha frequentemente usam outras substâncias também, incluindo álcool e cigarros, tornando mais difícil para os pesquisadores desvendar a causa”.

Mas, como a maconha hoje é muito mais potente do que no passado, a maioria dos especialistas concorda que seria um risco para os jovens que estão relacionados a alguém com uma condição psicótica, observou Carey.

Defensores da maconha recreativa legalizada frequentemente apontam que o álcool e o tabaco, mesmo sendo legais, são muito mais perigosos. Eles são conhecidos por causar câncer, insuficiência cardíaca e danos no fígado, por exemplo.

“De acordo com o Centers for Disease Control, seis pessoas morrem de envenenamento por álcool todos os dias e 88.000 pessoas morrem anualmente devido ao uso excessivo de álcool nos Estados Unidos”, apontou o site ProCon.org. “Não há casos registrados de morte por overdose de maconha”.

Um estudo no Lancet classificando a nocividade das drogas coloca o álcool em primeiro lugar como o mais nocivo, o tabaco em sexto e a cannabis em oitavo lugar. Uma pesquisa nacional descobriu que as pessoas veem o tabaco como uma ameaça maior à saúde do que a maconha por uma margem de quatro para um (76% contra 18%) e 72% das pessoas pesquisadas acreditam que o uso regular de álcool é mais perigoso do que o consumo da maconha.
“Sob vários aspectos, até mesmo o açúcar representa uma ameaça maior para a saúde de nosso país do que a maconha”, disse o dr. David L. Nathan, psiquiatra clínico e presidente da Doctors for Cannabis Regulation.

Mas se a maconha realmente está levando a um aumento no disparo de doenças mentais, ela também poderia estar contribuindo para um aumento no crime e na violência? Berenson deu uma olhada nas estatísticas em Washington, o primeiro Estado a legalizar o uso recreativo da maconha, em 2014. Gladwell resumiu suas descobertas:

Entre 2013 e 2017, a taxa de agressão agravada do Estado aumentou 17%, quase o dobro do aumento registrado em todo o país, e a taxa de homicídios aumentou 44%, mais do que o dobro do aumento em todo o país. Nós não sabemos se um aumento no consumo de maconha foi responsável por esse surto de violência. Berenson, no entanto, acha estranho que, em um momento em que Washington possa ter exposto sua população a níveis mais elevados do que é amplamente considerada uma substância calmante, seus cidadãos começaram a atacar uns aos outros com uma crescente agressão.

E depois há a questão da segurança no trânsito. A Consumer Reports destacou um estudo recente que descobriu que os acidentes com veículos motorizados aumentaram 6% em quatro Estados que legalizaram a maconha recreativa em comparação com quatro Estados vizinhos onde a droga é restrita ou ilegal.

O estudo foi conduzido pelo Insurance Institute for Highway Safety (IIHS) e pelo Highway Loss Data Institute (HLDI), que dizem que os dados sugerem que quanto mais Estados legalizarem a maconha recreativa, mais esforço será necessário para determinar a melhor forma de prevenir acidentes de trânsitos, disse o instituto de pesquisa do consumidor.

“O que estamos vendo é um aumento definitivo no risco de acidentes associado ao uso recreativo legalizado da maconha”, diz David Harkey, presidente do IIHS e do HLDI.

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