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A alegria possível em tempos de Covid-19

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Miriam Diez Bosch - publicado em 14/04/20

Fala o filósofo e teólogo Francesc Torralba

A alegria não é algo que possa ser imposto, muito menos exigido. Ela nasce, flui e se manifesta espontaneamente. Quem afirma isso é o filósofo e teólogo Francesc Torralba, diretor da Cátedra Ethos na Universidade Ramon Llull (Barcelona).

– É possível ser feliz mesmo num momento de pandemia?

– Francesc Torralba: Não há dúvidas de que o momento que vivemos afeta nossa experiência de felicidade. Somos seres contextuais permeáveis, de tal maneira que o que acontece em nosso ambiente imediato nos afeta e altera nosso estado de espírito. Não somos estranhos ao infortúnio, ao sofrimento ou à dor que essa pandemia global tem gerado. É exatamente isso que é ser humano, não ser indiferente ao mal que afeta os outros e a todos.

Em um mundo escurecido pela crise viral e por expectativas sociais e econômicas ainda mais sombrias para o futuro, é difícil ser feliz. No máximo, podemos esperar manter uma certa serenidade, mas serenidade não é alegria nem felicidade.

A alegria é, como René Descartes diria, uma paixão da alma que é gerada quando percebemos um bem. Você fica feliz quando atinge um objetivo, alcança uma meta, recebe boas notícias, recebe alta de um hospital. Só podemos ser felizes se experimentamos o bem recebido, observamos o bem que somos capazes de alcançar, mesmo em contextos sombrios. Você pode ser feliz se conseguir reconhecer os bens que nos foram dados, o que recebemos de outras pessoas sem o merecer e o que somos capazes de gerar.

– A alegria é inata ou podemos trabalhar para ser felizes?

– Francesc Torralba: A alegria não pode ser imposta, muito menos exigida. Ela nasce, flui e se manifesta espontaneamente. Há pessoas que vivem confortavelmente, não carecem de nada e, no entanto, nunca demonstram alegria. Há outros, por outro lado, que têm pouco, e, no entanto, expressam uma alegria que sai de todos os poros da pele.

Dominique Lapierre narrou isso de maneira excepcional em “A Cidade da Alegria”. A alegria não é um sentimento artificial, não pode ser adquirida como um bem de consumo. Mesmo assim, quando você tomar consciência dos bens que possui, dos amigos que apreciam você, das pessoas que o amam, mesmo quando tudo desmorona, você pode manter sua alegria.

Søren Kierkegaard disse que, se alguém percebe que é amado por Deus apesar de suas tristezas, que é sustentado por Ele na noite mais escura, experimenta uma alegria tão intensa que seu peito explode. Essa alegria nasce de uma convicção interior, mas para alcançá-la, é essencial tê-la. E a fé é precisamente esse dom.

– Nesses dias não conseguimos celebrar nem festejar. Por que celebrar e festejar é tão importante para a vida?

–Francesc Torralba: Festejar constitui uma necessidade básica do ponto de vista antropológico. Nós não somos feitos apenas para trabalhar. Há um tempo para tudo, e o equilíbrio está na alternância de facetas.

Festejar é um intervalo de tempo, uma alteração de rotina, uma maneira de celebrar o fato de existir, de estar no mundo com os outros. Há o festejar como fuga, como escape do mundo. Mas há também o festejar como uma afirmação radical da vida, como uma expressão da alegria de existir.

Precisamos interromper as rotinas, celebrar a gratuidade do viver e isso só é possível ao lado dos outros. Não há festa sozinho. Sempre e em todas as civilizações, o festejar tem uma dimensão comunitária.

– Também a fé é festiva, certo?

– Francesc Torralba: A fé precisa ser comemorada em comunidade. Tem uma dimensão festiva porque, por meio dela, a vida é radicalmente afirmada. A Páscoa é a melhor notícia que um ser humano pode receber. Com a Páscoa, acreditamos que a morte não vence ao final, que seremos ressuscitados de corpo e alma. É a melhor notícia que se pode receber, porque o que mais te machuca é ter que dizer adeus às pessoas que você ama. Acreditar que a morte foi vencida por Deus é motivo de celebração. Isso é Páscoa.

– Como você mantém uma alegria vital quando vê que tudo está desmoronando à sua volta?

– Francesc Torralba: Tento me aprofundar na alegria perfeita de São Francisco de Assis. Sua figura me comoveu desde que eu era criança. Tento entender como é possível ser feliz quando o mundo cospe em você, fecha as portas, o despreza e ignora. Aquela alegria perfeita que São Francisco de Assis experimentou dentro dele nunca deixa de me surpreender. Mesmo seus discípulos mais amados não foram capazes de entender como isso era possível. Quando tudo está desmoronando, precisamos beber de fontes espirituais. Cada um tem a sua fonte. Nelas, encontramos o nutriente básico para persistir na luta contra o cansaço. É bom lembrar que a principal tentação é a exaustão.

– Como podemos incentivar aqueles que perderam tudo?

– Francesc Torralba: Não é fácil. Palavras bonitas não servem, nem relativizam o mal sofrido. Às vezes, mesmo tendo boa intenção, comunica-se uma mensagem que gera o efeito oposto. Não existem fórmulas mágicas, não existem receitas milagrosas nem meios de consolo de baixo custo.

Quando alguém perde tudo, você deve estar ao lado dessa pessoa que está sofrendo a perda. Esteja ao lado, em silêncio. Isso é o mais difícil. Além disso, é preciso procurar alternativas, imaginar maneiras de solucionar as deficiências. Isso se chama compromisso e, em tempos líquidos, gera medo e tremor. Mais do que dizer coisas para a pessoa que sofre, o que você precisa fazer é disponibilizar-se e ouvi-la, para que ela possa liberar todo o desconforto, porque ouvir é, por si só, terapêutico.

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