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América Latina pede na ONU acesso livre à vacina e créditos

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Shutterstock | Nelson Antoine

Agências de Notícias - publicado em 27/09/20

A região é a que paga o preço mais alto do mundo pela crise de saúde, com quase nove milhões de infecções e mais de 330.000 mortes em seis meses

A América Latina fez um apelo, na ONU, à solidariedade das maiores potências mundiais para conseguir superar a pandemia da covid-19 na região mais desigual do mundo e a mais castigada pelo coronavírus, por meio do acesso a uma vacina livre de patentes e de créditos multilaterais sem juros.

A região é a que paga o preço mais alto do mundo pela crise de saúde, com quase nove milhões de infecções e mais de 330.000 mortes em seis meses, um terço do total mundial, de acordo com um balanço da AFP com base em dados oficiais.

“Da pandemia, como da pobreza, ninguém se salva sozinho”, afirmou o presidente argentino, Alberto Fernández, solicitando a ajuda da comunidade internacional em seu discurso na Assembleia Geral da ONU na terça-feira.

Brasil, Colômbia, Peru, México e Argentina estão entre os dez países com mais infecções no mundo. A pandemia causará uma queda de 9,1% no PIB da América Latina e do Caribe neste ano, e 45 milhões de seus habitantes cairão na pobreza, estima a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal).

Os líderes latino-americanos estão especialmente preocupados com o acesso a uma vacina contra o vírus, em meio a uma corrida global para ver quem é o primeiro a desenvolvê-la, patenteá-la e garantir mais doses.

Dezenas de vacinas estão sendo pesquisadas no mundo, mas apenas 11 estão na fase 3 dos ensaios clínicos, com milhares de pessoas participando do estudo.

Os presidentes da Argentina e do Peru pediram na ONU que a vacina e o tratamento contra o vírus sejam declarados “bens públicos globais”, acessíveis a todos.

O Chile pediu às potências mundiais que deixem de “se confrontar permanentemente” para “liderar a luta contra esta pandemia e recessão global”, em uma referência tácita à China e aos Estados Unidos, cada vez mais confrontados e que trocam agressivas acusações sobre o vírus na ONU.

“Em matéria de saúde, isso inclui compartilhar diagnósticos e conhecimentos, coordenar fechamentos e aberturas de fronteiras, unir forças para o desenvolvimento e a disponibilidade de uma vacina eficaz e segura e colaborar com os países mais vulneráveis”, disse o presidente chileno, Sebastián Piñera, em seu discurso.

Desde o final de maio, a Organização Mundial da Saúde (OMS) promove uma plataforma que busca a troca voluntária de informações, conhecimentos e propriedade intelectual para que os testes e tratamentos contra a covid-19 “sejam acessíveis a todos, em qualquer lugar”, lembrou o presidente costa-riquenho, Carlos Alvarado, também na ONU, convocando mais países a aderirem à iniciativa.

A plataforma, batizada de Covax, busca garantir dois bilhões de doses de vacinas até o final de 2021 e já conta com o apoio de 156 países (14 da América Latina e Caribe), mas não da China e dos Estados Unidos. Este último já anunciou sua saída da OMS, alegando que a organização é controlada por Pequim.

“Só assim poderemos ter vacinas e tecnologias sem patentes, bem distribuídas, com atenção especial aos mais vulneráveis e desprotegidos”, disse o presidente do Equador, Lenín Moreno.

Os primeiros-ministros de Japão e Austrália se uniram nesta sexta-feira ao pedido latino-americano por uma vacina universal.

“Quando trata-se de uma vacina, o ponto de vista da Austrália é muito claro: quem a descobrir precisa compartilhá-la”, declarou Scott Morrison em discurso na Assembleia da ONU. Caso isto não ocorrer, a história “será um juiz muito, muito severo”, continuou.

“Faremos nossos maiores esforços para garantir uma distribuição universal de vacinas e tratamentos”, concordou na Assembleia o novo primeiro-ministro japonês, Yoshihide Suga.

Vários países da região que não recebem muitos créditos por serem considerados de renda média, como Argentina e Equador, ou de alta renda, como Uruguai, exigiram da ONU a revisão desses critérios. Pedem para serem incluídos em empréstimos de organismos multilaterais para conseguirem enfrentar a pandemia, ou mesmo o perdão da dívida.

Dos 33 países da região, 28 são considerados de renda média, quatro de alta renda e um de baixa renda (Haiti), segundo a Cepal.

“Nenhum país pode pagar sua dívida às custas de deixar seu povo sem saúde, sem educação, sem segurança, ou sem capacidade para crescer”, defendeu o presidente da Argentina.

A covid-19 “agravará a pobreza, a desigualdade e o desemprego”, destacou o presidente do Equador, que insistiu na necessidade de receber “apoio financeiro e técnico” multilateral.

A Costa Rica promoveu na ONU a criação de um fundo extraordinário de apoio de meio trilhão de dólares para combater a crise econômica gerada pela pandemia. Este fundo seria financiado com 0,7% do PIB das maiores economias do mundo e concederia empréstimos de longo prazo e com taxas fixas aos países em desenvolvimento, por meio de bancos multilaterais de desenvolvimento.

Este fundo “é nossa única opção para evitar a desestabilização econômica dos nossos países e do sistema financeiro global”, advertiu o presidente costa-riquenho.

(AFP)

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