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A qualidade da democracia e as amizades verdadeiras

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Ana Lydia Sawaya - publicado em 14/12/21

Não se pode pensar em uma organização social e política sem que um número significativo de pessoas que viva a amizade entre si

Para continuar a reflexão sobre a amizade em Aristóteles, apresentada numa série de artigos ao longo deste ano, vejamos como ele descreve, em “Ética a Nicômaco”, a amizade entre as pessoas boas e as que são perversas, pois ele diz que uma cidade (ou um país) precisa de um número significativo de pessoas que vivam amizades verdadeiras entre si para ter um bom governo:

“Só a pessoa virtuosa é coerente consigo mesma […] deseja para si o que é bom e o que parece sê-lo, e o faz; […] assim procede para o seu próprio bem; age a partir da própria racionalidade […] Ela deseja viver consigo mesma; realizar aquilo no qual encontra prazer; e o faz com prazer, já que se compraz na recordação de seus atos passados e suas esperanças para o futuro são boas, e, portanto, agradáveis. Tem, do mesmo modo, uma mente rica de reflexões […] Ela não tem, por assim dizer, nada de que possa se arrepender. Logo, como cada uma destas características pertence à pessoa boa em relação a si mesma, ela se relaciona com o seu amigo como faz consigo mesma (pois o amigo é um outro ‘eu’)”.

As pessoas perversas, porém, experimentam o contrário. Passam “os dias a fugir de si mesmas; pois lembram-se de muitos crimes e preveem outros semelhantes quando estão sozinhas, mas esquecem-nos quando têm companhia. E, não possuindo em si nada amigável, não são amigas de si mesmas. […] Sofrem quando se veem privadas de algumas coisas, enquanto a outra parte de sua alma sente prazer; uma parte as arrasta numa direção e a outra na direção contrária, dilacerando-as. […] Os maus são cheios de arrependimento. Por esses motivos, a pessoa má não parece ser amiga de si mesma, uma vez que nela não existe nada digno de amizade”.

Organização social e política

Por fim, Aristóteles afirma que não se pode pensar em uma organização social e política sem que um número significativo de pessoas que viva a amizade entre si:

“Uma cidade vive em concórdia quando as pessoas concordam sobre o que é de seu interesse, escolhem as mesmas ações e fazem em comum o que resolveram. É, portanto, a respeito das coisas a fazer que se diz que as pessoas são concordes; e, entre elas, dos assuntos importantes em que é possível a ambas ou a todas as partes obterem o que pretendem; por exemplo, uma cidade é unânime quando todos os cidadãos pensam que os seus cargos públicos devem ser eletivos, ou que convém fazer alianças […]. Há concórdia quando tanto o povo quanto os da classe superior desejam que as melhores pessoas governem; porque assim, e só assim, todos alcançarão o que pretendem. A concórdia parece, pois, ser a amizade política, como, de fato, é geralmente considerada; pois ela versa sobre coisas que são de nosso interesse e que têm influência em nossa vida. Ora, uma tal concórdia é encontrada entre as pessoas boas, pois estas são concordes tanto consigo mesmas quanto umas com as outras e têm, por assim dizer, um só pensamento (já que os desejos de tais pessoas são constantes e não estão à mercê de correntes que vão e vêm); e desejam o que é justo e útil, e os buscam em concórdia. As pessoas más, entretanto, não podem estar de acordo ou serem amigas a não ser dentro de limites muito reduzidos, visto que ambicionam obter vantagens nas coisas que são úteis, enquanto, no trabalho e no serviço público, ficam muito aquém da parte que lhes compete. E cada uma, desejando vantagens para si mesma, critica seu vizinho e lhe impõe obstáculos; de modo que, se as pessoas não cuidarem da comunidade, esta não tardará a ser completamente destruída”.

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AmizadePolíticaVirtudes
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