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A invasão da Ucrânia e a doutrina católica sobre a paz

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WOLFGANG SCHWAN / ANADOLU AGENCY / ANADOLU AGENCY VIA AFP

Francisco Borba Ribeiro Neto - publicado em 27/02/22

Existem “guerras justas”, segundo a doutrina social da Igreja. Elas atendem a quatro critérios. A guerra na Ucrânia seria, afinal, uma "guerra justa"?

Ainda que certas conclusões sobre a invasão da Ucrânia pela Rússia sejam óbvias, o conflito não deixa de nos dar uma ocasião para nos convertermos mais e refletirmos sobre a justiça de Deus e o compromisso dos cristãos e de todas as pessoas de boa vontade.

Diante da guerra, os católicos do mundo são sempre chamados a rezar pela paz. A oração é nossa maior força, ainda que aparentemente tão frágil aos olhos de quem não tem fé. Sempre nos parece quase impossível que o bem possa nascer dos grandes males e das grandes tragédias. Como isso pode acontecer, é sempre um mistério para cada um de nós. Acreditamos porque vislumbramos a ação maravilhosa da graça, em nossa experiência e nas histórias de outros, até mais santos do que nós. Por isso, sabemos que nessas situações o mais sábio é rezar, mesmo reconhecendo que a misericórdia de Deus não poupará nossos irmãos tanto quanto gostaríamos e que alguns só verão os frutos da graça no Paraíso – pois a salvação após a morte continua sendo a maior promessa que Deus nos fez.

Guerra justa?

Existem “guerras justas”, segundo a doutrina social da Igreja. Elas atendem a quatro critérios, segundo o Catecismo da Igreja Católica (CIC 2309): (1) que o prejuízo causado pelo agressor à nação ou comunidade de nações seja duradouro, grave e certo; (2) que todos os outros meios de lhe pôr fim se tenham revelado impraticáveis ou ineficazes; (3) que estejam reunidas condições sérias de êxito (4) que o emprego das armas não traga consigo males e desordens mais graves do que o mal a eliminar.

Ora, essas condições já tornam claro que uma invasão militar muito dificilmente seria justificável – mesmo sob a alegação de apoio a populações perseguidas. As negociações e o apoio aos mais vulneráveis são uma responsabilidade da comunidade internacional, mas em pouquíssimos casos se chegaria ao ponto de justificar uma ação armada. Assim, não há como legitimar, numa ótica cristã, a invasão da Ucrânia pela Rússia.

Existe uma parte da comunidade cristã que apoia Putin, por considerar que ele resguarda valores da tradição cristã e defende a Igreja Ortodoxa em seu país. Curiosamente, alguns grupos de esquerda, com posições bastante extremistas, também vêm defendo a ação da Rússia em nome de uma suposta oposição ao poderio do capitalismo ocidental. O perigo, para um discernimento cristão, é querer legitimar um erro porque ele foi praticado por um suposto aliado. Ao longo da história, os católicos muitas vezes se viram em situações contraditórias e até escandalosas porque não condenaram o erro quando ocorreu. Não importa se estamos entre aqueles católicos que admiram líderes como Putin ou se estamos entre aqueles que os condenam, à luz de nossa fé não podemos admitir uma invasão militar de um país sobre outro.

Mas então a defesa do território ucraniano é justa? E uma intervenção militar de outros países? A legitima defesa é um direito sagrado do povo ucraniano e apoiá-lo é uma responsabilidade da comunidade internacional. Contudo, as melhores estratégias para fazer isso devem ser pesadas a partir da existência das alternativas e da possibilidade de êxito. Assumir uma guerra suicida, que levasse ao extermínio da população ucraniana por uma força militar desproporcionalmente maior, não seria uma atitude sábia. A omissão, do governo ucraniano ou dos demais países também não sábia (lembrando que os países aliados se omitiram quando Hitler invadiu a Renânia, em 1936, sem que isso evitasse a Segunda Guerra Mundial). Contudo, soluções diplomáticas e sanções econômicas devem ser tentadas sempre, procurando ao máximo evitar o conflito armado.

Não validar a violência

Mesmo para aqueles que estão longe do conflito e sem nenhuma responsabilidade por ele, a invasão da Ucrânia lança um alerta importante. Nunca poderemos legitimar a violência, ela deve ser sempre a última alternativa.

A legitimação da violência nos induz a validar comportamentos agressivos em nome de uma pretensa justiça, que pode levar facilmente a ações tão inaceitáveis quanto a guerra. No caso brasileiro, não teremos problemas com guerras, pois nossas fronteiras são pacíficas. Contudo, convivemos com índices de assassinatos e violência interna que nos aproximam de países em guerra. O perigo reside em acreditarmos que a violência pode ser sanada pelo uso de uma violência ainda maior, criando uma espiral de agressões cada vez mais inaceitável, que vitima cada vez mais inocentes.

A paz exige o diálogo e a justiça. Querer construí-la a partir da violência é uma ilusão. A legitima defesa, seja de países, seja de pessoas, é um direito sagrado, mas não implica em fazer uso da violência contra o violento. Rezemos pela paz na Ucrânia e em todo o mundo. Rezemos pela paz em nossas casas e nossas cidades. Saibamos que a construção da paz sempre exige firmeza e decisão, mas não é obra da violência, e sim do diálogo e da justiça.

Tags:
Doutrina Social da IgrejaGuerraUcrânia
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