Aleteia logoAleteia logoAleteia
Domingo 14 Agosto |
São Maximiliano Maria Kolbe
Aleteia logo
Estilo de vida
separateurCreated with Sketch.

Sabia que a lentidão é uma qualidade sofisticada do nosso cérebro?

Este artigo é exclusivo para os membros de Aleteia Premium
BAMBINO, TARTARUGA, SORRISO

My Good Images | Shutterstock

Annalisa Teggi - publicado em 05/07/22

O pensamento rápido está relacionado à sobrevivência, já o pensamento lento está relacionado a tudo que requer consciência. A herança consumista levou-nos a idolatrar a velocidade, talvez porque é melhor para o ser humano, reduzido a consumidor, manter a sua consciência o máximo possível desligada

Mas como você é lento(a)!” Isso deveria ser um elogio…

Diz-se “matar o tempo”. E refere-se ao tempo livre, àquelas horas – por vezes apenas minutos – que passamos sem o incómodo do trabalho, da família, das urgências sociais. Mas porque é que usamos um verbo tão negativo como “matar” para descrever uma experiência tão positiva?

É a partir desta observação que a nova edição da revista BenEsseresi explora o valor da lentidão na nossa era rápida, instantânea e instintiva. Num artigo de Caterina Allegro, com a colaboração da psicóloga clínica Maria Sperotto, começamos por tomar nota da sombra negativa que associamos espontaneamente a tudo o que é lento.

É também curioso notar que quando temos uma série de atividades – uma após outra, a um ritmo rápido – dizemos que otimizamos o nosso tempo. Com a ideia de que é ótimo correr, encher-se de afazeres e tarefas no mais curto espaço de tempo possível.

A Dra. Sperotto associa esta nossa atitude bem estabelecida à impressão de que o tempo é um recurso limitado e deve, portanto, ser explorado. A primeira parte do raciocínio é correta: somos criaturas limitadas – isto é, mortais – e o tempo à nossa disposição não é ilimitado. Podemos sentir a pressão negativa deste limite, ou olhar para ele através dos olhos de um agricultor a quem é confiada uma pequena horta. E se o tempo, em vez de ser explorado, deve ser cultivado?

Para apreciar o momento é preciso parar

O verbo desfrutar é perfeito para pintar um retrato dos tempos contemporâneos. Em vez de desfrutarmos, explorarmos. Aplaudimo-nos muito quando no nosso comportamento no trabalho diário somos bons em explorar o tempo e a oportunidade.

Aproveitamos o tempo para lhe arrancarmos cada segundo, sempre afoitos. Quantas vezes dizemos: eu fui muito bem, em meia hora fiz tudo! Ou, pelo contrário: perdi uma hora sem terminar nada.

Por que é que o tempo vivido, e dado a nós, deveria ser considerado perdido? Talvez porque os critérios utilitários nos pautam? É por isso que a Dra. Sperotto se refere à distinção feita pelos antigos gregos entre kronos (tempo como uma mera sucessão de minutos, horas) e kairos (o momento oportuno, ou seja, o tempo como uma oportunidade de significado). Com respeito a isto:

[…] o valor cronológico ocupa o segundo lugar em relação ao significado desse minuto para a nossa história individual.

MAN, CROWD, WALK

A lentidão é uma conquista do nosso cérebro

Não é novidade encontrar conteúdos que valorizam a lentidão, no nosso mundo acelerado. A experiência do Slow Food, por exemplo, nasceu em 1986. Que o frenesi e a velocidade são responsáveis por uma certa corrosão da nossa humanidade, isso há muito que é conhecido.

Como diz Lamberto Maffei, antigo diretor do Instituto CNR de Neurociência, no seu In Praise of Slowness, e citado por BenEssere:

[…] o nosso cérebro é capaz de pensar rapidamente, conduzido pelo hemisfério direito, e de pensar lentamente, o que tem origem no esquerdo. A primeira forma é mais antiga: é aquela relacionada à sobrevivência, às reações instintivas e às imagens. A segundo, por outro lado, surgiu muito mais tarde, há apenas 100.000 anos, com a língua, e foi depois consolidada com a escrita.

Portanto, a velocidade é uma habilidade ligada à sobrevivência. Assim, é valiosa em situações de emergência, mas nem sempre. O impulso dado pela velocidade é grande quando nos faz correr para apanhar o nosso filho que está prestes a cair, mas não é tão grande quando nos ilude que podemos fazer tudo com um só clique.

Em suma, o pensamento rápido, que pode salvar a nossa vida em face do perigo, pode tornar-se uma ameaça à nossa própria sobrevivência quando nos leva a tomar decisões precipitadas sobre assuntos mais complexos. Por exemplo, comprar o último modelo de smartphone e ficar sem dinheiro para comprar alimentos.

A lentidão, em suma, é uma qualidade mais sofisticada, que o cérebro conquistou ao longo do tempo e produz contemplação e linguagem e todas as faculdades artísticas. A característica comum destas ações de pensamento é que elas pressupõem uma tomada de consciência. A herança consumista de que somos vítimas levou-nos a idolatrar a velocidade, talvez precisamente porque é melhor para o ser humano, reduzido a consumidor, manter a sua consciência desligada o máximo possível.

Não tenha medo do vazio

Quanta pressa, mas para onde vai? – diz uma famosa canção de Bennato. De fato, parar para compreender porque estamos com tanta pressa é uma coisa boa. E é bem verdade que o frenesi é muitas vezes uma reação ao medo de estarmos sozinhos e ainda, face a face com o nosso vazio.

Mas o horror vacui (horror do vazio) pode ser revertido ao se mergulhar nele.

A desaceleração nem sempre é possível, mas podemos decidir dar espaço às nossas emoções, mesmo negativas, em vez de as enterrar debaixo de pilhas de coisas para fazer.

Se aprendermos a ouvir-nos a nós próprios, mesmo em momentos de vazio, será mais fácil darmo-nos objetivos coerentes, contra os quais correr ou ficar parado faz sentido. Desta forma, mesmo aquele vazio de que tanto receamos, deixará de ser um poço sem fundo, mas sim um momento de passagem funcional para mudar.

O cristão, então, sabe que esse vazio é preenchido por uma presença. É um poço aparentemente sem fundo, mas do qual emerge o amor do Pai, que sempre sussurra e espera, pacientemente, toda a lentidão de que somos capazes. Espera por nós quando paramos.

Talvez a oração seja a melhor maneira de matar o tempo, ou seja, de matar os nossos apertados horários e habitar o vazio, acolhendo o sangue vital que só flui quando nos colocamos em relação com Aquele que nos criou.

Este artigo é exclusivo para os membros Aleteia Premium

Já é membro(a)? Por favor,

Grátis! - Sem compromisso
Você pode cancelar a qualquer momento

1.

Acesso ilimitado ao conteúdo Premium de Aleteia

2.

Acesso exclusivo à nossa rede de centenas de mosteiros que irão rezar por suas intenções

3.

Acesso exclusivo ao boletim Direto do Vaticano

4.

Acesso exclusivo à nossa Resenha de Imprensa internacional

5.

Acesso exclusivo à nova área de comentários

6.

Anúncios limitados

Apoie o jornalismo que promove os valores católicos
Apoie o jornalismo que promove os valores católicos
Tags:
EstressePsicologiaSaúdeTrabalho
Apoiar a Aleteia

Se você está lendo este artigo, é exatamente graças a sua generosidade e a de muitas outras pessoas como você, que tornam possível o projeto de evangelização da Aleteia. Aqui estão alguns números:

  • 20 milhões de usuários no mundo leem a Aleteia.org todos os meses.
  • Aleteia é publicada diariamente em sete idiomas: inglês, francês,  italiano, espanhol, português, polonês e esloveno
  • Todo mês, nossos leitores acessam mais de 50 milhões de páginas na Aleteia.
  • 4 milhões de pessoas seguem a Aleteia nas redes sociais.
  • A cada mês, nós publicamos 2.450 artigos e cerca de 40 vídeos.
  • Todo esse trabalho é realizado por 60 pessoas que trabalham em tempo integral, além de aproximadamente 400 outros colaboradores (articulistas, jornalistas, tradutores, fotógrafos…).

Como você pode imaginar, por trás desses números há um grande esforço. Precisamos do seu apoio para que possamos continuar oferecendo este serviço de evangelização a todos, independentemente de onde eles moram ou do quanto possam pagar.

Apoie Aleteia a partir de apenas $ 1 - leva apenas um minuto. Obrigado!

PT300x250.gif
Oração do dia
Festividade do dia





Envie suas intenções de oração à nossa rede de mosteiros


Top 10
Ver mais
Boletim
Receba Aleteia todo dia