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Os sonhos são mensagens de Deus?

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Shutterstock | Amelia Fox

Anna Ashkova - publicado em 01/08/22

"Peçamos a graça de saber como sonhar, procurando sempre a vontade de Deus nos nossos sonhos", declarou o Papa Francisco em 2018. Será que o Senhor nos fala realmente em sonhos?

Deus sempre usou os sonhos para se dirigir às pessoas. Na Bíblia, não faltam relatos de pessoas que tiveram visões de Deus através dos sonhos. Assim, foi dito a Abraão que os seus descendentes iriam viver como estranhos numa terra que não é a sua e que seriam escravos (Gn 15,12-16). A São José, um anjo revela num sonho a maternidade única de Maria (Mt 1,20). Ele é igualmente avisado da necessidade de fugir para o Egito (2,13) e de regressar a Nazaré (2,19). Os reis magos são também avisados num sonho de regressar a casa por outro caminho (Mt 2,12).

O Livro de Jó refere-se claramente ao fato de que Deus pode falar ao homem enquanto este dorme: “Deus fala uma, duas vezes, sem ser notado. Num sonho, numa visão nocturna, quando um torpor cai sobre os homens e eles estão sonolentos nas suas camas, então ele abre o seu ouvido e dirige-se a eles” (Jó 33, 14-18). “Escutai atentamente as minhas palavras: quando há um profeta do Senhor entre vós, dou-me a conhecer a ele numa visão, falo-lhe num sonho”, também lemos no Livro dos Números (12,6).

A vida dos santos está também cheia de revelações sem precedentes de Deus, que muitas vezes tiveram lugar nos seus sonhos. Santo Alberto, Santa Hildegard de Bingen, Santa Brígida da Suécia, São João Bosco e Santa Catarina Labouré experimentaram, em sonhos, aparições impressionantes. Santo Inácio de Loyola também explica a sua conversão por uma visão de sonho da Virgem Maria e do Menino Jesus. Foi isto que convenceu Santo Inácio a rejeitar a sua vida passada. Numa sociedade onde a busca espiritual é por vezes desenfreada, nem sempre é fácil saber que atitude adotar face a estes testemunhos ou como interpretar os próprios sonhos. Serão eles realmente mensagens de Deus?

Sonho ou sinal?

Antes de mais, é importante diferenciar entre um sonho e um sinal divino ou visão. Uma visão é um meio pelo qual Deus por vezes manifesta a Sua vontade ou revela o futuro. Enquanto que o sonho é uma expressão do nosso inconsciente, como os psicanalistas explicam hoje em dia. Os sonhos ou são inofensivos e lembram-nos em forma pictórica de um acontecimento recente, ou exprimem uma angústia ou um desejo. Finalmente, podem também ter uma ligação surpreendente com um acontecimento real, mas desconhecido para nós.

Esta opinião é partilhada por São Gregório de Nissa. No décimo terceiro capítulo do seu De hominis opificio (Sobre a criação do homem), ele escreve que os sonhos são o produto conjunto de memórias do que foi feito e visto durante o dia. Embora não exclua o fato de alguns poderem também ser um meio pelo qual Deus escolhe se comunicar conosco. Devemos, portanto, ser muito cuidadosos na forma como os “interpretamos”.

É realmente Deus quem fala através de um sonho?

Mas antes de interpretarmos, precisamos de saber exatamente o que é um sinal divino ou uma visão. Como o Padre Olivier-Marie Rousseau, Provincial das Carmelitas Descalças da Província de Paris, explica a Aleteia, “é uma realidade visível que se refere a uma realidade invisível. Quanto à questão de como discernir a autenticidade dos sinais de Deus, segundo ele, “a marca de Deus é reconhecida pelos seus frutos (Gal 5,22)”.

Pela sua parte, São João da Cruz aconselha a verificar a conformidade dos sinais com a Palavra de Deus, confiando-se a outro para não se habituar ao “caminho dos sentidos”, que não durará, e para que “a alma permaneça na humildade, dependência e mortificação”. O discernimento inaciano também pode ajudar. A chave é pesar cuidadosamente os prós e os contras, levando tempo a rezar, pois é na oração que encontramos a confirmação da nossa escolha, sobre a qual o sonho pode ter sido um ‘sinal’. Pela sua parte, Santo Agostinho, nas Confissões, afirma que a sua mãe, Santa Mónica, usou a intuição para discernir se um sonho era de origem divina ou natural.

Ou é o trabalho do Maligno?

Pois o sonho que pode ser confundido com um sinal divino ou visão e, portanto, uma suposta “mensagem de Deus” pode, de fato, revelar-se uma temível armadilha espiritual. Quando o Diabo tentou Jesus no deserto (Lc 4,1-13), pediu-Lhe sinais a fim de o desviar da sua encarnação e da sua missão. É o mesmo para um cristão. Quando atravessa um “deserto espiritual”, não está a salvo destas tentações.

Autores cristãos antigos expressaram opiniões contraditórias sobre a natureza dos sonhos e a sua interpretação. Para o Papa Gregório Magno, bem como para Santo Atanásio, há sonhos que podem ser obra do diabo. A posição de São Jerónimo sobre a questão dos sonhos como mensageiros da revelação divina é ambivalente. Por um lado, ele próprio recebeu a revelação da sua vocação como teólogo num sonho, e por outro lado, na sua famosa tradução latina da Bíblia, a Vulgata, interpretou erradamente certas passagens (especialmente Lev 19,26 e Dt 18,10) como uma proibição de interpretação de sonhos. Deste erro surgiu a proibição teológica secular de qualquer forma de interpretação de sonhos.

Devemos, portanto, reconhecer os sinais?

Sim, mas com cautela. Quando temos a graça de reconhecer os sinais divinos, estes sinais “são um caminho pelo qual Deus nos conduz”, e por isso “não há razão para o desprezá-los”, tranquiliza São João da Cruz. “Diante de Deus, uma única ação, um único ato de vontade feito por caridade, é mais valioso do que todas as visões, revelações ou comunicações que podem vir do Céu”, acrescenta o Doutor da Igreja.

“Peçamos a graça de saber sonhar, procurando sempre a vontade de Deus nos nossos sonhos”, declarou o Papa Francisco em 18 de Dezembro de 2018 na sua meditação matinal na capela da Casa de Santa Marta. Mas cuidado, lembrando sempre que, embora possa ser arrogância negar alguns sonhos como mensagens divinas, também seria perigoso apegar-se a eles ou procurá-los para seu próprio bem.

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