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“De volta ao paraíso”

Chrystus błogosławi

Luis Santos | Shutterstock

Vanderlei de Lima - publicado em 24/10/22

Você sabe o que são os apoftegmas?

Esta obra das Edições Subiaco e Lumen Christi, em coedição, publicada em dois alentados volumes – o I em 2019 e o II em 2022 –, traz, em ordem alfabética, o que o próprio subtítulo sugere: “a vida dos Padres do Deserto e seus Apoftegmas”.

Ela é, na verdade, a segunda edição revista e ampliada de Apoftegmas: a sabedoria dos antigos monges lançada, em 1979, pelas Edições Lumen Christi, tendo Dom Estêvão Bettencourt, OSB, por tradutor do grego. Há tempos esgotada, eis que, agora, reaparece, com duas excelentes novidades: a longa e oportuna introdução (cf. p. 11-115 no volume I) e as notas, ambas elaborada por Dom Justino de Almeida Bueno, OSB. Ele também retocou alguns pontos traduzidos por seu confrade e lhe acrescentou outros apoftegmas (cf. p. 107-108).

Aqui, surge a grande questão: Que se entende por apoftegmas? – A resposta não é tão simples. Com efeito, para designar as palavras dos Padres do Deserto são usados três termos gregos: logos, logion e rhêma. As duas primeiras se referem sempre à Palavra de Deus ou de Cristo, já a terceira (rhêma) faz eco a dabar, termo hebraico a significar, mais do que a mera palavra, uma coisa, um fato, um acontecimento. Não é algo morto, ou do passado, guardado na memória, mas uma palavra viva e que, portanto, produz frutos no hoje da nossa existência. Desse modo, ao se “chamar de rhêma a palavra de um Padre do Deserto, quer-se ressaltar que não é uma palavra vazia ou solta, mas uma palavra portadora de vida e eficaz, porque vem de Deus ou de um homem de Deus; que se torna fonte de vida para o discípulo que a recebe com fé e a coloca em prática” (p. 95). Daí se segue que “enquanto rhêma indica o caráter próprio da palavra por seu conteúdo, apoftegma designa a forma literária” (idem).

Mais: “Conforme era costume, na Antiguidade clássica distinguia-se a sentença (gnômé), o apoftegma e o relato (chreia). Enquanto a sentença podia ser colocada por escrito sem ter sido pronunciada, e no relato circunstanciado de um fato o principal não era a palavra, mas o próprio relato, no apoftegma, ao contrário, a palavra era o essencial porque estava em relação com as circunstâncias em que foi pronunciada e que esclarecem o seu sentido” (ibidem). 

De tudo isso, Dom Justino conclui ser melhor não tentar traduzir o termo apoftegma. Eis o seu interessante raciocínio: “Poderíamos traduzir a palavra apoftegma por ‘dito breve’ – ‘sentença, máxima’ – como Dom Estêvão Bettencourt fez na primeira edição dessa coleção que estamos introduzindo. Porém, não a substituir por uma tradução deve-se ao fato de que perderia toda a força que o termo original tem para exprimir o que significam, no seu conjunto, as palavras dos Padres do Deserto” (p. 96). Ainda: como a experiência pessoal e religiosa dos Padres do Deserto é pioneira na Igreja, “as coleções de apoftegmas são o resultado bruto, ainda não sistematizado, dessas experiências. Isso as torna uma documentação única que, apesar de sua heterogeneidade e das vicissitudes atravessadas para chegar até nós, nos restitui, nas suas grandes linhas, a experiência desses pioneiros do deserto” (p. 98). 

Longe, porém, de ser algo que se volta apenas para o além e se esquece do aquém, a rica espiritualidade dos Padres do Deserto leva em conta o ser humano no seu todo em suas peculiaridades próprias. Nas palavras de Paul Evidokimov, “a ascese do deserto é uma imensa psicanálise seguida de uma psicossíntese da alma humana universal” (p. 113). Eis um exemplo de que o ser humano deve se sacrificar pelo Reino de Deus, mas sem menosprezar a própria natureza humana carente de repouso, por exemplo: “836. Sisoés 33. Narrava um dos Padres a respeito do abade Sisoés de Calamon que, desejando um dia vencer o sono, suspendeu-se acima do precipício de Petra; um anjo, porém, apareceu para desamarrá-lo e ordenar-lhe que não mais fizesse aquilo, e nem ensinasse os outros a fazê-lo” (volume II, p. 187).

Possa, pois, esta obra encontrar o seu lugar no nosso conturbado século XXI.

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