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Conheça a Irmã Ignatia, a fantástica freira por trás dos Alcoólicos Anônimos

Irmã Ignatia Gavin, a freira por trás dos Alcoólicos Anônimos

Sister Ignatia Gavin - Cause for Canonization

Dr. Patrick McNamara - publicado em 26/10/22

Entenda como nasceu esta obra que transformou a vida de milhões de famílias no mundo inteiro tratando o corpo, a mente e a alma

Você sabia que a extraordinária iniciativa dos Alcoólicos Anônimos nasceu com a crucial ajuda de uma freira católica?

Não, não se trata de uma iniciativa especificamente católica: os AA não estão vinculados a nenhuma religião em particular. Entretanto, em seus primeiros anos, os católicos exerceram papel decisivo na consolidação desta obra – e uma das figuras-chave entre esses católicos foi a irmã Ignatia Gavin, S.C. (1889-1966), uma religiosa do Estado norte-americano de Ohio.

Ela ajudou o Dr. Robert H. Smith, co-fundador dos Alcoólicos Anônimos, a combater a ideia equivocada de que o alcoolismo fosse “apenas um defeito moral” e não uma verdadeira doença – espiritual, mental e física.

Em 1951, de fato, a escritora Katherine Neuhaus Haffner registrou a este respeito:

“[O AA] não é, como se supõe, apenas mais um movimento em favor da temperança ou mais uma cruzada fanática pela reforma dos costumes. É uma sociedade que opera em grupos, baseada em princípios espirituais, e esses princípios estão lado a lado com o que é ensinado pela Igreja Católica”.

A infância de Bridget, futura irmã Ignatia

O nome de batismo da futura Irmã Ignatia era Bridget Della Mary Gavin. Ela era uma das três crianças nascidas de um casal de camponeses da Irlanda.

Segundo Mary Darrah, sua biógrafa, Bridget já nutria desde pequena uma “crua compaixão” pelos alcoólatras:

“Sempre que eu via qualquer pessoa sob a influência do alcoolismo, aquilo realmente me partia o coração. Eu tentava oferecer eterna reparação ao Sagrado Coração de Nosso Senhor para compensar aquela ofensa contra a Sua Divina Majestade”.

Em 1896, os Gavins emigraram da Irlanda para Cleveland, em Ohio, uma cidade industrial com grande população operária – e onde o alcoolismo era um problema de proporções enormes. Nesse contexto, vários párocos criavam grupos de abstinência e os jovens faziam uma espécie de “promessa” de não beber.

O chamado à vida religiosa

Bridget pensava em ser freira, mas a sua mãe se opunha. Ela se formou em escolas católicas, estudava e dava aulas de música. Ficou até noiva.

Em 1914, porém, acabou conseguindo ingressar a congregação das Irmãs da Caridade de Santo Agostinho, que administram escolas e hospitais em todo o Estado de Ohio.

Aos 25 anos, considerada uma “vocação tardia” para os padrões da época, professou os votos religiosos e adotou o nome de Ignatia em homenagem a Santo Inácio de Loyola, o fundador dos jesuítas, a quem admirava profundamente e por cujos ensinamentos espirituais tinha grande apreço, em particular pelo conceito de “amar com atos concretos”.

Ao longo de anos, a irmã deu aulas de música em escolas de Ohio até que, em 1933, sofreu um grave colapso físico e mental que quase a matou. Seu médico lhe disse que não poderia continuar trabalhando como maestrina de música sob tanta pressão.

O trabalho no hospital

Em decorrência daquele episódio, aceitou um posto de trabalho mais tranquilo e menos distinto como responsável pelas admissões no Hospital St. Thomas, em Akron, que tinha sido fundado pela sua própria congregação em 1928.

Foi nas instalações do hospital que ela conheceu o Dr. Robert Holbrook Smith, o Dr. Bob – ele próprio um alcoólatra afastado dos hospitais mais prestigiosos da região. Ambos prepararam o terreno para a aceitação generalizada de que o alcoolismo é, sim, um diagnóstico legítimo de uma doença que precisa de tratamento hospitalar. E, juntos, tralharam nesse campo durante mais de dez anos, o Dr. Bob adoecer e falecer em 1950.

Antes disso, porém, já em 1934, a Irmã Ignatia tinha começado a cuidar de alcoólatras, de modo privado, com a ajuda de um jovem estagiário, o Dr. Thomas Scuderi. Ela tentava tratá-los tanto da perspectiva médica quanto da pastoral, um campo então inexplorado. Numa época em que os alcoólatras crônicos eram rotineiramente enviados para hospícios, a Irmã Ignatia percebia que eles precisavam de um tratamento que não ficasse na mera medicação.

No entanto, outros médicos – e outras freiras- não agiam da mesma forma. Os hospitais, no geral, tinham “pouco entusiasmo” por acolher as pessoas que bebiam demais.

O “Anjo do AA”

Em 1935, o Dr. Smith e o corretor da Bolsa de Nova York Bill Wilson fundam os Alcoólicos Anônimos como um programa de regeneração moral e espiritual. Trabalhando com eles, a Irmã Ignatia abriu o primeiro centro de tratamento hospitalar para alcoólatras, considerado um modelo histórico para muitos programas de tratamento químico nos Estados Unidos.

Embora tivesse compleição pequena e frágil, a irmã tinha “uma intensidade que superava as suas outras características”, conforme escreveu a sua biógrafa, acrescentando:

“O anjo do AA era uma mulher forte e empática, que encontrava o bem em todas as situações e que estava decidida a tornar o mundo um pouco melhor do que o tinha encontrado. Ignatia tinha todo o carisma de uma alma amiga”.

Não faltaram pacientes dando testemunhos fortes como “ela salvou a minha vida”, “eu encontrei a Deus e a sobriedade graças a ela” ou “ela me deu amor quando não havia nada em mim que pudesse ser amado”. Esse amor, entretanto, era exigente: total abstinência de álcool e drogas, reconhecimento de que precisamos de poder superior, comprometimento com o programa do AA e apoio àqueles que ainda sofriam o alcoolismo.

Tratamento do corpo, da mente e da alma

Ignatia via um claro paralelo entre os escritos de Santo Inácio de Loyola e os Doze Passos dos AA. Levava frequentemente consigo um compêndio dos pensamentos do santo fundador e um exemplar da Imitação de Cristo, clássico da espiritualidade católica escrito no século XIV. Dava cópias de ambos os textos aos pacientes já nos primeiros dias do tratamento. Mas sabia acolher também os que não eram católicos. A um paciente protestante, ela afirmou:

“A importância da nossa religião está em ajudar as pessoas ao nosso redor a encontrarem o paraíso. Na sua essência, o catolicismo não está tão distante quanto você imagina das crenças dos nossos irmãos separados. O amor consegue superar qualquer obstáculo”.

Em 1952, a Irmã Ignatia abriu o Rosary Hill Solarium em Cleveland, onde trabalhou durante 14 anos. Ao longo da sua vida, estima-se que cerca de 15 mil alcoólatras estiveram sob seus cuidados. Como fruto do seu ministério, um autor escreveu que “o mundo dos alcoólatras mudou”.

A Irmã Ignatia faleceu em 1º de abril de 1966, aos 77 anos. A multidão que fez questão de comparecer ao seu velório foi tamanha que as irmãs serviram mais de 6.000 xícaras de café. Na missa de exéquias, celebrada na Catedral de Cleveland, não houve espaço suficiente para todos.

Naquela ocasião, alguém afirmou:

“Se a Igreja Católica não a canonizar, os protestantes a canonizarão”.

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Adaptado de artigo original de Patrick McNamara, PhD, para Aleteia em inglês

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