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Ruanda: O país onde o genocídio dos tutsis é ainda uma memória dolorosa

RWANDA GENOCIDE

Ilene Perlman/Shutterstock

Fundação AIS - publicado em 07/05/23

Foi há precisamente 29 anos. Por estes dias, o Ruanda estava transformado num quase matadouro. Viveram-se situações brutais de violência étnica. De violência dos hutus contra os tutsis. Houve cerca de 1 milhão de mortos

Foram apenas cem dias. Em 1994, grupos de homens armados, pertencentes à etnia hutu, mataram membros da minoria tutsi. Provavelmente nunca se saberá o número exacto dos que morreram. A contabilidade ainda não está feita. Estima-se que entre 800 mil a 1 milhão de pessoas tenham sido assassinadas, muitas vezes com requintes de malvadez, em cerca de três meses. Foram cem dias que enlutarem o país. Ainda hoje é difícil olhar para trás e recordar o que se passou. Mas sempre que se fala desses três meses de violência, empregam-se palavras como massacre ou genocídio. O Padre Thégène Ngoboka, director da Comissão Justiça e Paz de Cyangugu, é voluntário na prisão de Rusizi, onde realiza o seu trabalho pastoral. 

Recentemente, Agnès Sebaux, do gabinete de comunicação internacional da Fundação AIS, esteve no Ruanda e falou com ele. “Os homens que ainda se encontram na prisão, 29 anos depois, são aqueles que não quiseram confessar e reconhecer os factos incriminatórios ou os que praticaram crimes em várias áreas e cujas sentenças foram combinadas, ou aqueles que foram os mentores do genocídio e que deram as ordens”, explica.

Salvo-conduto na prisão

O trabalho deste sacerdote é essencial para que o perdão e a reconciliação sejam uma realidade, apesar de se estar a lidar com memórias extremamente dolorosas. Ele tem salvo-conduto. Pode entrar e sair livremente da cadeia, juntamente com outros voluntários da Comissão de Justiça e Paz. A sua preocupação principal é preparar os reclusos que estão a terminar as suas penas de prisão e que se preparam, portanto, para sair, mas que têm de lidar ainda com uma sociedade que ainda não se pacificou, que olha para eles acusando, julgando. “Eu explico aos reclusos que é importante e necessário reconciliar-se com a comunidade”, diz o Padre Ngoboka. Esta é uma tarefa difícil, que obriga a muita paciência, a muito diálogo. “É realmente um processo de acompanhamento dos presos, mas também da comunidade para a qual vão regressar e estabelecer-se, para caminhar juntos no sentido da reconciliação. Antes de mais – diz o padre – preparamos os presos sensibilizando-os para a necessidade de pedir perdão.” Neste delicado processo a Igreja funciona como intermediário entre os presos e os sobreviventes e suas famílias.

Emoções fortes

O processo de reconciliação passa por os reclusos escreverem uma carta a todas as pessoas a quem sentem que têm de pedir perdão. É algo levado muito a sério e que conta com o apoio directo da Fundação AIS. Há um pedido de perdão e o compromisso também de que se está preparado para viver em harmonia com a comunidade. A direcção da prisão autentica as cartas que são depois entregues às famílias dos sobreviventes pelos padres ou voluntários da Comissão de Justiça e Paz. E assim se faz o processo, incentivando-se um encontro na prisão entre as famílias das vítimas e o agressor agora arrependido. “Uma vez por mês organizamos estas visitas com os serviços sociais da prisão. Continuamos a ser mediadores e estamos presentes nestas reuniões. Ajudamos no diálogo. As emoções são fortes”, relata o sacerdote. “Depois, se o perdão for dado e aceite, temos de o levar até aos membros da família. O perdão deve relacionar-se com a família, tanto a família do sobrevivente como a família do preso”, acrescenta, explicando ainda que “a fé desempenha um papel fundamental no processo de perdão”.

Superar os medos

A saída da prisão não encerra este processo. É apenas uma etapa. “É por isso que começamos três anos antes da libertação. E depois de serem libertados, isso não é o fim. Comprometemo-nos a acompanhá-los durante pelo menos seis meses, para permitir que os presos e as vítimas superem os seus medos. Organizamos encontros em torno da Palavra de Deus, projectos comunitários que lhes permitam trabalhar em conjunto num campo ou num estaleiro de construção… Pedimos-lhes que se visitem mutuamente. A reconciliação não é automática. Tem de se conquistar a confiança. É um longo caminho”, explica ainda o Padre Thégène Ngoboka. Se tudo correr bem, é organizado, pela Igreja, um momento de unidade e reconciliação. Nada é deixado ao acaso. “Os presos são acolhidos na igreja e pedem perdão oficialmente. Confessam publicamente o que fizeram e pedem perdão. As vítimas também oferecem o seu perdão publicamente.”

“O perdão é um milagre…”

É necessário todos estes passos, é preciso cumprir com todo este rigor pois o que esta em causa é algo que poderá ser inultrapassável: o perdão exige muito trabalho. “As feridas ainda são sensíveis, mesmo 29 anos depois. Algumas pessoas não querem abrir as feridas quando elas começam a sarar. Para que esta reconciliação tenha uma hipótese de sucesso, a vítima tem de estar convencida da sinceridade do pedido de perdão e que todos os actos cometidos foram revelados. Algumas vítimas ainda não conseguem fazer o luto pelos seus entes queridos porque não sabem onde estão os corpos. Estão à espera que o executor revele a cena dos seus crimes…” Mas este processo também não é fácil para o antigo agressor. “Outra dificuldade surge quando o resto da família não quer perdoar. É preciso respeitar o ritmo de cada um e acompanhá-los neste caminho”, explica o sacerdote. Seja como for, mais difícil ou mais fácil, nada disto seria possível sem a ajuda de Deus. Para o padre Ngoboka, “o perdão é um milagre, um dom de Deus… quando se ouve falar em todas as atrocidades cometidas… o perdão é um poder dado por Deus”. Todo este trabalho tem o apoio directo da Fundação AIS através do financiamento de um programa de formação para 120 sacerdotes, religiosos e religiosas em três dioceses, para que possam compreender o trauma, as técnicas de escuta activa e o acompanhamento psicoespiritual para a resiliência da comunidade.

(AIS)

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