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Qual é a história da formação do cânon bíblico?

Christian woman holds bible in her hands

Nastyaofly | Shutterstock

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Vanderlei de Lima - publicado em 02/07/23

Quantos livros tem a Bíblia: 73 (Católica) ou 66 (Protestante)?

“O Cânon Bíblico”. Eis o título do oportuno livro do Professor Alessandro Lima, casado e pai, que, deixando, em 2000, o protestantismo, se tornou católico e pôs-se a estudar a fé da Igreja. Na obra ora apresentada, estuda, à luz de farta documentação, a história da formação do cânon (ou catálogo) bíblico.

A base do debate está, a nosso ver, na seguinte questão: Quantos livros tem a Bíblia: 73 (Católica) ou 66 (Protestante)? – Respondemos que razão de a Bíblia católica ter 73 livros e a “crente” possuir só 66 se dá pelos seguintes fatos históricos: entre os anos de 250 e 100 antes de Cristo, os judeus de Alexandria, no Egito, traduziram a Bíblia do hebraico, língua usual entre os hebreus, para a sua língua local, o grego, idioma comum na época. 

Ao escreverem os livros do Novo Testamento, os Apóstolos tiveram por base essa tradução de Alexandria, também chamada dos “Setenta” (LXX), pois, segundo uma piedosa tradição, teria sido traduzida por setenta sábios. Ora, no século I depois de Cristo, começaram a aparecer os livros cristãos, em especial as Cartas de São Paulo e os Evangelhos, como uma continuação dos livros sagrados dos judeus. Eles, que não aceitaram (nem aceitam) a Cristo, trataram de pôr um fim a essa fusão de escritos judaicos e cristãos. De que modo?

Reuniram-se esses judeus, em Jamnia (ou Jabnes), no sul da Palestina, e com alguns critérios próprios, decidiram não aceitar os livros de Tobias (1), de Judite (2), da Sabedoria (3), de Baruque (4), do Eclesiástico (5), o primeiro (6) e o segundo (7) livro de Macabeus, além de recusarem alguns trechos de outros livros, como Ester 10,4-16.24, Daniel 3,24-90 e 13-14 – estes dados vêm da Vulgata, de São Jerônimo, ou de traduções a partir dela (cf. p. 33-44).

Igreja Católica

Pois bem, a Igreja Católica, perenemente assistida pelo Senhor Jesus, seu divino fundador (cf. Mt 16,18; 28,20), ficou com o catálogo de livros dos “Setenta”, usado, como dissemos, pelos Apóstolos, e definido oficialmente, pela primeira vez, no Concílio regional de Hipona, em 393. No século IV, portanto (cf. Catecismo da Igreja Católica n. 120). Lima assevera, aliás, que “das 350 citações do Antigo Testamento existentes no Novo, 300 são tiradas da versão dos LXX” (p. 11; cf. o Apêndice nas p. 123-131). 

Todavia, querendo contestar a autoridade da Igreja, no século XVI, Lutero, o reformador protestante, retirou os sete livros inteiros e os demais trechos citados, que estavam na Bíblia por ele mesmo traduzida, pouco antes, para o alemão. Sem saber disso, ou sabendo, mas usando de má-fé, alguns desses “irmãos separados” dizem que foi a Igreja Católica que acrescentou livros à Sagrada Escritura quando, na verdade, foi Lutero quem dela os retirou. O reformador foi, infelizmente, seguido, no que diz respeito ao cânon bíblico, por alguns outros grupos cristãos já separados de Roma (cf. p. 12).

Depois de analisar, de modo minucioso, competente e original, os testemunhos da Tradição (cf. p. 45-100), Alessandro Lima deixa claro ser a Igreja quem nos deu a Bíblia e não o contrário. Quem, de Bíblia na mão, se põe a julgar a Igreja Católica, age sem bem saber o que está fazendo. Afinal, importa lembrar a seguinte verdade: “a Igreja, na formação da Bíblia, não colaborou somente no discernimento do Cânon Bíblico, mas também deu a esta ‘biblioteca’ de livros sagrados o nome ‘Bíblia’; criou a divisão em capítulos e versículos, os primeiros dicionários bíblicos, as primeiras traduções para as línguas nacionais, as primeiras obras críticas e etc.” (p. 109). 

Concluamos, pois, este modesto artigo com esta sábia constatação de Alessandro Lima: “Embora os vários testemunhos acerca do Cânon Bíblico colhidos do séc. I ao XII, sejam das opiniões mais variadas, podemos identificar neles algo em comum no critério utilizado para avaliar a canonicidade de um livro: a Tradição da Igreja. Neste importante trabalho, sempre foram consideradas as informações conservadas e transmitidas pelos antigos presbíteros” (p. 119).

Ainda que mereça melhor revisão de português e possa ter uma diagramação apta a deixar mais espaço entre o texto e a margem interna, a obra é ímpar. Parabéns ao autor!

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