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Por que envelhecer é uma bênção

Casal idoso

Shutterstock I Ruslan Huzau

Xavier Patier - publicado em 21/07/23

Na velhice não há mais nada a provar aos outros: é tempo de doação e conversão do coração

A velhice é a fase em que a verdade da nossa vida ressurge e nos tornamos verdadeiramente nós mesmos. Enfrentamos as nossas limitações físicas como nunca antes e, ao mesmo tempo, desfrutamos da liberdade de não ter que provar mais nada a ninguém. Paramos de querer provar e começamos a doar-nos: esta é a diretriz básica.

Temos menos energia, mas também a desperdiçamos menos. Em sua primeira sátira, Horácio Flaco compara a nossa vida terrena com um banquete. A aposentadoria é a hora daquela sobremesa que os romanos chamavam de “tragemata“, a última iguaria. Quando chega a sobremesa, falamos menos alto e contemplamos em perspectiva o banquete que se aproxima do fim. Não meditamos mais sobre o que está faltando. Finalmente estamos focados no que estamos fazendo. Saboreamos a doçura, e o “carpe diem” se torna, literalmente, “carpe tragemata“. Como sobremesa da nossa vida, Deus nos oferece um tempo para servir. Não o percamos! Podemos vivê-lo como monges.

A era da conversão do coração

Você foi engenheiro, professor, cozinheiro, agricultor? Agora você é um vizinho comprometido com a comunidade, um jardineiro na sua própria casa, um ciclista, um catequista, um vereador. E, principalmente, você é marido, pai, avô. Sim, você já era – mas se antes isso tinha sido secundário, agora é o principal. A sua vida não se limita mais a uma profissão: ela se torna a soma de tudo o que você ama. E a soma de tudo o que você ama se transforma em serviço.

É hora de agradecer por este paradoxo: você se torna único justamente ao se encaixar na elegante categoria de “veterano”. Talvez “idoso” seja uma definição suficiente de você para a sociedade, mas não é suficiente para você mesmo. Como você pode aproveitar as forças da juventude que ainda persistem? Medite nisto: a velhice é a idade mais aberta de todas, a idade da conversão do coração. Abdique todos os dias de um pouco do seu tempo livre para se preparar para a grande aventura — a morte — que nos conduz à Vida plena.

Tempo de ser

Esta preparação alegre e vigilante para a morte iminente nem sempre é fácil de explicar. Eu, quando as pessoas me perguntam o que estou fazendo da vida agora que me aposentei, respondo: “Sou escritor”. É uma maneira tão boa quanto qualquer outra de anunciar a mudança. Digo “escritor” porque a sociedade não reconhece a condição de avô e não gosta de ouvir falar em morte.

Lembro-me de um político francês, Jacques Attali, explicando, já faz uns bons dez anos, que preferia escrever livros a concorrer a eleições. A razão era que o futuro de um político é um dia tornar-se ex-algo, como ex-ministro do governo, enquanto o futuro do escritor é tornar-se escritor. Apesar do seu lado narcisista, a reflexão de Attali é profunda, porque mostra que chega uma hora na vida em que o centro não é mais fazer, mas ser.

Para alguns, esse momento chega bem cedo; para outros, nunca chega. Mas esse momento em que o ser finalmente encontra o seu lugar é uma bênção de Deus. Nunca é tarde para vivê-lo de todo o coração antes de deixar tudo para trás. Talvez não haja ex-escritores, nem ex-artistas, mas certamente não há ex-batizados.

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