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Presidente da Polônia escreve artigo sobre a recém-beatificada família Ulma

ANDRZEJ DUDA E O PAPA FRANCISCO

ALBERTO PIZZOLI/AFP/East News

Andrzej Duda com o Papa Francisco

Francisco Vêneto - publicado em 13/09/23

"A história da família Ulma deve ser conhecida em todo o mundo", afirma Andrzej Duda

O presidente da Polônia, Andrzej Duda, se pronunciou publicamente sobre a relevância histórica da beatificação da família Ulma, celebrada neste domingo pelo Papa Francisco.

O político polonês, compatriota dos heróis e agora beatos, destacou que “a importância deste evento vai além da dimensão religiosa”.

Andrzej Duda escreveu:

“Uma Bíblia desgastada e amarelada, aberta na página da parábola do Bom Samaritano, com o título desta passagem destacado por uma linha vermelha e com uma anotação manuscrita: SIM! É precisamente esta imagem que surge diante dos meus olhos toda vez que o meu pensamento volta ao Museu da Família Ulma, dedicado aos poloneses que salvaram os judeus durante a Segunda Guerra Mundial, na cidade de Markowa, no sul da Polônia.

O mencionado exemplar das Sagradas Escrituras pertencia ao casal Józef e Wiktoria Ulma. Eram agricultores poloneses que abrigaram em casa oito compatriotas judeus: Saul Goldman com os seus quatro filhos, Gołda Grünfeld e Lea Didner com uma filha pequena. Pouco antes do amanhecer de 24 de março de 1944, os policiais alemães invadiram o sítio dos Ulma em Markowa. Fuzilaram no local os judeus escondidos e os seus protetores. Não só assassinaram Józef Ulma e a sua mulher Wiktoria, que estava grávida, mas também os seus seis filhos pequenos.

A ocupação alemã nazista, o Holocausto e as atrocidades em massa contra os poloneses são um assunto extremamente importante e ainda doloroso que perpassa a história do meu país.

O destino da família Ulma foi partilhado por muitos dos meus compatriotas. No dia 24 de março de cada ano, celebramos um feriado: o Dia Nacional em Memória dos Poloneses que Salvaram os Judeus sob a ocupação alemã.

Antes da eclosão da Segunda Guerra Mundial, a Polônia tinha uma comunidade judaica muito grande, uma das maiores da história do país. Durante séculos, os judeus desejaram instalar-se no nosso país, que eles próprios denominaram com uma palavra fácil de pronunciar: Polin, traduzida de hebraico como “aqui descansarás”. Desfrutavam de paz e de oportunidades de desenvolvimento na Polônia, e a nossa capital, Varsóvia, no final da década de 1930, era o segundo maior centro de população judaica no mundo, depois apenas de Nova Iorque.

O plano alemão para o extermínio total dos judeus – terrível no seu caráter desumano, mecânico, quase industrial – teve de levar estes fatos em conta. Por esta razão, na Polônia ocupada, os nazistas alemães criaram fábricas de morte: os campos de extermínio para onde também eram transportados judeus de outros países conquistados pelo Terceiro Reich. Além disso, a Polônia tinha séculos de reconhecimento como um país tolerante, onde a cultura e as relações sociais eram moldadas pelos valores cristãos. As autoridades da ocupação alemã, portanto, esperavam encontrar resistência às suas ações criminosas. Por isso mesmo, ameaçaram matar cada pessoa em nossa terra que tentasse oferecer qualquer apoio a um judeu escondido. No entanto, apesar dessa temível ameaça, milhares de judeus poloneses receberam apoio para salvar a sua vida. Eram ajudados a fugir do gueto, conseguiam lugares secretos para esconder-se, obtinham comida, dinheiro e documentos falsos.

Os historiadores continuam a reconstruir o curso dos acontecimentos dramáticos daqueles anos. Até o presente, mais de 7 mil poloneses, incluindo Wiktoria e Józef Ulma, já receberam o título de Justos entre as Nações do Instituto Yad Vashem, com sede em Jerusalém. Neste venerável grupo de Justos, os poloneses constituem o maior grupo nacional. As autoridades da Polônia e as instituições do estado continuam os seus esforços para homenagear dignamente estes heróis silenciosos e muitas vezes anônimos, particularmente aqueles que pagaram a generosidade e a bravura com a própria vida.

Como poloneses, temos orgulho de que, no dia 10 de setembro de 2023, a família Ulma – os nossos compatriotas – tenha sido incluída nas fileiras dos Beatos da Igreja Católica.

A importância deste evento vai além da dimensão religiosa. Foi também uma homenagem aos heróis que personificam os ideais mais elevados da humanidade. A história do seu martírio – que nos comove e, ao mesmo tempo, inspira – é um extraordinário testemunho de amor ao nosso próximo e deveria ser conhecida em todo o mundo. Queremos que ela transforme o coração das pessoas e seja um modelo de abertura e solidariedade para com os outros”.

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