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Aceitar a velhice dos seus pais, um passo difícil, mas necessário

© Shutterstock

Edifa - publicado em 24/02/20

Eles ouvem menos, sua visão se deteriora, são menos reativos, mais cansados... Nossos pais envelhecem e, quando percebemos, muita coisa já mudou. Mas por que é tão difícil aceitar que nossos pais entraram na terceira idade?

De repente, ou como em doses homeopáticas, começamos a perceber que nossos pais estão envelhecendo. Mesmo que você não queira ver, chega um dia em que a fraqueza física deles se torna indiscutível. Uma mudança que nos vira de cabeça para baixo, mas que precisamos acabar aceitando.

Quando os papéis se invertem

Os sinais do envelhecimento entram furtivamente na vida cotidiana: o som da TV ao máximo, o cochilo que se torna essencial, as consultas médicas que se multiplicam, as pequenas “repetições” e os centros de interesse que estão ficando mais pobres.

Desconectados do mundo profissional, um fator de integração social, os pais aposentados veem seu ritmo de vida diminuir e cria-se uma lacuna com o mundo dos “ativos”, o dos filhos adultos.

Gradualmente, o idoso perde seus papéis: papel de filho com a morte de seus próprios pais, papel profissional com aposentadoria, papel de pai educador, papel de cônjuge no caso de viuvez. E assim uma nova maneira de se relacionar com o mundo começa a tomarforma. Isso resulta em um estreitamento do espaço – auditivo, visual, motor, mas também social, intelectual etc. -, e paradoxalmente, leva ao distanciamento. Tudo parece mais complicado e distante”, explica em uma de suas obras Maximilienne Levet-Gautrat, especialista em problemas de envelhecimento.

Para o filho adulto, aceitar ver o envelhecimento dos pais nunca é fácil. Todas as modificações físicas e comportamentais do adulto idoso causam, em seu filho, uma modificação que ele tem da imagem dos pais. A imagem de autoridade, autonomia, aptidão física e, às vezes, sucesso social está desaparecendo.

Como os pais veem sua força física e sua reatividade declinar, é comum que seus filhos assumam o controle, às vezes se tornando os protetores de seus pais.

A relação pai-filho é invertida. De protegido, o filho se torna protetor. De repente, ele entende que cabe a ele tomar o controle”, observa Dominique Duvernier, psiquiatra.

Aceite a velhice de seus pais, e a sua própria!

Tomar as rédeas significa não apenas assumir o controle, mas também enfrentar a ideia da morte. A de seus pais primeiro, mas também a própria morte. E, portanto, seu próprio envelhecimento. E isso é assustador. Diante dessa situação, o que fazer? Fugir ou se esconder dos primeiros sinais de envelhecimento por trás dos cremes antirrugas?

Aceitar que seus pais estão envelhecendo não é apenas um estágio doloroso e improdutivo, é também uma oportunidade de meditar sobre o significado da existência.

É uma chance, uma verdadeira lição de vida e humildade“, diz Patrick, 50 anos, que acolheu sua sogra por vários anos e a viu morrer aos 95 anos.

Estamos em uma sociedade que associa vida à juventude, beleza e recusa qualquer ideia de morte, sinônimo de nada. No entanto, a vida forma um todo, da concepção à morte, e cada estágio tem sua riqueza”.

“O fim da vida ainda é vida. Existem valores que só podem ser realizados ali”, cita o padre André Ravier, jesuíta, em um livreto de reflexão espiritual sobre a velhice, antes de retomar: “Para o cristão, a velhice é de fato uma vocação, e uma vocação pessoal”. É também um tempo que dá tempo: meditar, rever o filme da vida, aprender a perdoar.

O tempo de se doar

Esse período do adulto idoso costuma exigir muito dos filhos. “Uma mulher que esquece o aniversário dos filhos, não sabe mais receber duas pessoas para jantar sem entrar em pânico, se recusa a aprender a usar um telefone celular, não consegue mais suportar os gritos das crianças”.

Sim, é minha mãe, diz Bento, que cuida de sua mãe de 88 anos. “Quando tenho que explicar pela terceira vez a meu pai as missões da empresa que acabei de integrar, muitas vezes perco a paciência e estou à beira de um colapso nervoso! No entanto, é após momentos assim que medito sobre a exigência do amor filial. Quando criança, recebemos, aceitamos, consumimos, mas quando surgem dificuldades relacionais, chega a hora de dar. É aqui que o ponto principal é abordado: o amor verdadeiro é um ato de vontade”, analisa Bento.

Quanto mais amamos, mais difícil é aceitar ver o outro enfraquecer, sofrer e deixar de corresponder à imagem que tínhamos dele. E amar nossos pais em todos esses pequenos e irritantes problemas diários exige esforço. Mas o que seria isso se não amor verdadeiro?

Aceitar ver seus pais envelhecerem, não é simplesmente aprender a os amar em verdade?

Béatrice Courtois

Tags:
FamíliaMortepaisSaúde
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