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Saber se afastar dos pais, um detalhe essencial para um jovem casal

IN-LAW - FAMILY - COUPLE

© wavebreakmedia - shutterstock

Edifa - publicado em 22/09/20

Se honrar e afastar-se dos pais podem parecer comportamentos paradoxais, eles são, na verdade, atitudes complementares e muito importantes para um casal que deseja constituir uma família. Veja algumas dicas para cortar o cordão umbilical com seus pais e viver em harmonia em seu relacionamento conjugal

Quando criança, Estela sempre foi “leal e obediente”. À medida que cresceu, ela ganhou sua independência, assim como seus irmãos. Foi estudar no exterior, mudou-se para seu próprio apartamento. Foi quando conheceu Guilherme que percebeu a dependência emocional que ela ainda nutria com relação aos pais: “Eu achava que era independente, mas não era de verdade”. E ainda pior, seu namorado não correspondia exatamente ao que seus pais queriam para ela. “Não pensei que discordaria deles em uma escolha tão fundamental. Tive de trabalhar muito sobre mim mesma para chegar às raízes desta dependência”, indo a consultas com psicólogo e retiros espirituais. Embora às vezes ainda seja chamada de “meu bebê” pela mãe, Estela tomou a decisão de que Guilherme seria seu marido. “Quando contei aos meus pais, eles respeitaram minha escolha”.

Uma necessidade para o casal

Saber deixar os pais é uma questão fundamental para os jovens casais. O padre Pierre-Marie Castaignos, que prepara muitos noivos para o matrimônio, nos fala a respeito: “Este é um assunto que dedico tempo para discutir com jovens casais. Eu os incentivo a revisitar a educação dada por seus pais. Mesmo que eles tenham saído da casa dos pais para estudar, por exemplo, é essencial verificar se sua independência foi adquirida. Ainda mais quando os noivos são muito jovens”. O padre faz um balanço concreto: as férias de verão serão sistematicamente repartidas entre os pais de cada um? A noiva liga para a mãe todos os dias? Falar sobre herança é algo difícil? Você tem a impressão de que precisa se casar com uma família inteira?

Quando necessário, o afastamento dos pais é doloroso, como observa o padre Cédric Burgun: “Como amamos muito os nossos pais, temos dificuldade em nos afastar deles. Principalmente porque no momento atual ainda existe uma dependência financeira e emocional deles. Essa “separação” pode ser experimentada como um verdadeiro desapontamento para alguns, especialmente em famílias muito unidas. O outro atua como um revelador sobre nossa vida. Sob o olhar daquele que amamos aparecem as faltas, os excessos, as pequenas faltas dos pais e dos irmãos. Às vezes muito isso é muito difícil!

Alice nos conta que só depois do noivado e do casamento que se deu conta que a sua família poderia impactar bastante o seu relacionamento. “A gente formava uma verdadeira tribo! Nos finais de semana, fazíamos tudo juntos: missa de domingo, trabalhos de casa, todas as refeições. No início, a ideia de que eu e meu marido pudéssemos ir à um jantar romântico no restaurante da esquina não era nem mesmo concebida”. Talvez Alice esteja bem com essa realidade, mas o mesmo não acontece com o seu marido, que tem uma personalidade bem mais independente, não cresceu com esses mesmos moldes e não se sente feliz com esse contato intenso. Ele fica até irritado ao ver sua esposa “continuar sendo a menina que obedece aos pais”. A jovem está dividida entre o desejo de manter seu status de menina amada e o de colaborar com um relacionamento pacífico a dois. Depois de quase três anos de casamento e alguns ajustes, ela conseguiu dizer à mãe que não era bom ouvi-la sempre perguntando “quando você vai voltar?”, cada vez que saía da sua casa. Precisava falar, mesmo que se sentisse culpada por isso. Segundo o padre Burgun, uma relação saudável com os pais “nos deixa livres, não nos faz sentir culpa, não nos obriga a nada”.

Um desapego que pode ser ensinado desde a infância

Se nos concentrarmos nos textos bíblicos, o relacionamento com os pais pode parecer paradoxal. O Decálogo coloca em perspectiva a necessidade de “honrar seu pai e sua mãe”, enquanto que no Gênesis se diz que “o homem deixará seu pai e sua mãe, e ficará apegado à sua esposa”. Para o Padre Burgun, é importante não reagir de forma simplista e binária a essas frases aparentemente contraditórias, visto que “não há contradição em Deus! Ao casar-se, um homem e uma mulher são levados a viver uma justa autonomia, uma justa independência”. Cortar o cordão é então uma forma de honrar seu pai e sua mãe pois “a primeira coisa que Deus nos pede é que deixemos nossos pais. E é assim que os honramos, porque assim nos tornamos plenamente quem somos. Nós permitimos que eles sejam este casal que deixa partir os seus filhos e graças a isso nos tonamos plenamente autônomos na nossa relação conjugal. Nós honramos a nossa própria vocação”.

Esse bom desapego, desejado por Deus, pode ser ensinado a partir da infância. O novo casal deve viver a sua vocação matrimonial longe das asas dos pais, mas o desapego não ocorre apenas no dia do casamento. A relação muito fechada com a sua família pode ser um obstáculo para o noivado, como observa o padre Pascal Ide: “Estar solteiro não é apenas um acaso do presente”. Para o sacerdote, “todos devemos reconhecer de forma justa aquilo que os nossos pais nos deram. Não devemos demonizá-los, nem tampouco idealizá-los”. Pessoas solteiras têm uma chance maior de “sair da imagem idealizada dos pais. O amor que sentimos por eles deve ser realista”. O sacerdote também os aconselha a não buscarem imitar o que aconteceu acidentalmente com seus pais, seja casar-se muito jovem, ou buscar uma profissão intelectual, mas antes de tudo, buscar suas “principais virtudes: a generosidade de sua mãe, a paciência de seu pai”. Todos são assim levados a progredir e ajustar o relacionamento com seus pais.

Se a relação com os pais é um assunto tenso entre o casal, o padre Burgun aconselha-os a dialogar para encontrar soluções. “O cônjuge que está muito próximo dos pais deve entender que o outro está sofrendo com essa relação muito intensa. É um sofrimento antes de ser uma acusação. Já quem tem dificuldade em compreender o vínculo entre o ente querido e os pais, deve, por outro lado, aceitar que a família faz parte da bagagem. Quando nos casamos, nos tornamos um, e é nessa unidade conjugal que devemos honrar nossos pais”.

Ariane Lecointre-Cloix

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