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Como ajudar as crianças a superarem a angústia da primeira separação?

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Vasilii Koval I Shutterstock

Edifa - publicado em 10/11/20

Deixar os pais e ir para um novo ambiente com novas pessoas pode ser difícil para as crianças. E se essa separação inicial correr mal, a criança pode ter diferentes distúrbios psicológicos. A seguir encontre algumas dicas para diminuir a ansiedade e o medo de seus pequenos

Deixar a segurança dos pais, especialmente da mãe, é uma etapa necessária mas difícil para os filhos. A psicóloga Bernadette Lemoine, autora de Mamãe, não me deixa! Aprendendo sobre separações (em tradução livre), fornece aos pais algumas soluções para esse momento de separação inicial entre eles e seus filhos.

Em sua opinião, a ansiedade da separação está na raiz da maioria dos problemas psicológicos vividos por crianças e adolescentes?

Em nove a cada dez casos, a causa raiz das dificuldades psicológicas das crianças é a ansiedade da separação. Esse é um transtorno de ansiedade que os psicólogos chamam de “ADS”. Ele ocorre principalmente durante a infância e às vezes durante a adolescência.

Nós somos feitos para a comunhão e a criança é construída sobre uma relação de amor. Acontece que ela experimenta essa separação precoce como um trauma, um abandono, uma perda desse amor. Surge então a ansiedade, muitas vezes comparável a uma ansiedade de morte, sendo mais forte quando a separação dura muito tempo ou quando a criança ainda é muito pequena. Essa ansiedade corre o risco de reaparecer a cada nova separação, mesmo quando inofensiva, e causa vários transtornos. Compreender os mecanismos em funcionamento desse transtorno será como uma chave que reabrirá as portas que se fecharam durante a vida.

Que separações, em termos concretos, podem bloquear o desenvolvimento de uma criança?

Se o curso do parto impedir a mãe de receber seu filho (por exemplo, após uma cesariana sob anestesia geral), se este estiver longe de sua mãe por estar em uma incubadora ou em terapia intensiva, ele pode se sentir abandonado. No entanto, ele ainda não consegue compreender racionalmente que a separação da qual sofre é apenas temporária, que não põe em perigo a sua vida e que não é um sinal de falta de amor materno.

Existe então o risco dele manifestar sua ansiedade e reagir contra qualquer separação posterior. Ele se apegará à mãe de todas as maneiras, físicas e psíquicas. A menos que, no sentido inverso, ele se recuse a se apegar, por medo de sofrer novamente no caso de outra separação. É como se ele estivesse reagindo a uma traição e não pudesse mais confiar. Ele se isola e se torna totalmente independente, não dependente.

Passo decisivo

Outro passo decisivo é o desmame. Para a criança é como uma perda, uma separação. Se acontecer em más condições, a criança corre o risco de interpretar isso como uma rejeição. Pode haver muitas outras causas para a ansiedade da separação que parecem triviais num primeiro momento. A mãe que precisa cuidar de outras tarefas, uma doença que acometa outro filho ou a própria mãe, a arrumação da casa, uma hospitalização, uma mudança repentina de babá, o luto, um pai ausente, a chegada de um irmão ou irmã mais novo, a ausência de ambos os pais, a entrada na creche ou escola, dentre outros.

Há também a angústia da mãe diante do crescimento do filho. Ela sente muito o distanciamento, embora normal e necessário, do filho. E ela reage superprotegendo-o , tratando-o como um bebê. Ele tira as vantagens que pode disso, mas por sua vez reage contra esse “aprisionamento”, que perturba gravemente os relacionamentos e não prepara a criança para separações futuras.

E toda vez que um desses eventos acontece, a criança se sentirá ansiosa e ferida?

Claro que não! Depende do temperamento, da sensibilidade de cada um. A primeira fragilização in utero; a forma como a família vivencia o suposto evento; do grau de adaptação de cada um; da liberdade pessoal, etc. Às vezes, uma única causa é suficiente para despertar esses sentimentos, outras vezes é preciso mais de uma. Nada é automático ou matematicamente previsível! De toda forma, fique tranquilo, tudo pode evoluir favoravelmente, desde que você saiba ouvir seu filho e reconhecer os sinais que manifestam um transtorno de ansiedade. Trata-se então de lhe falar com verdade, de todo o coração, juntando-se a ele nesse sofrimento que o fez duvidar do amor.

Viver é aprender a lidar com a separação?

Sim. A capacidade de autonomia, maturidade e equilíbrio de uma pessoa dependem em grande parte de sua experiência de separação e de seu aprendizado para se desapegar. Esta é uma parte essencial, mas delicada, da educação. Ao longo da vida, vivemos muitas experiências de separação. Quer estejam ligadas aos estágios de nosso crescimento ou a circunstâncias acidentais, a provação da separação é sempre sentida como uma pequena morte, até a separação final da morte definitiva.

Desde que isso aconteça em boas condições, a criança supera esse sofrimento com bastante facilidade, e até ganha mais autonomia: ela cresce, fica feliz em viver. Mas basta que, nessa sucessão de separações, haja uma que seja vivida em péssimas condições, para que a criança corra o risco de ficar bloqueada nesse sofrimento, de ser impedida de crescer. Todas as situações que tenham analogia com esta separação traumática irão provocar um reforço do bloqueio e reações relacionadas com o sofrimento inicial.

Como essa ansiedade se manifesta?

Através de distúrbios do sono ou da nutrição, reações emocionais, recusa em ir à escola, tristeza profunda, fracasso escolar ligado a ansiedade paralisante, desconforto psicossomático, compensação por comida, bebida, drogas, dificuldades de relacionamento, etc.

Temos a impressão de que todas as crianças serão um dia afetadas por um ou outro desses sintomas! Quando precisamos nos preocupar?

Quando a criança sofre e faz sofrer os que estão ao seu redor. Notamos, esquematicamente, dois tipos de reações nas crianças. Primeiro existem aquelas que se opõem, que têm uma “tendência à revolta” e querem fazer tudo sozinhas com comportamentos de risco. Elas desconfiam do amor e não querem dever nada a ninguém. Algumas pessoas “testam” incessantemente o amor de seus pais, tentando opor-se a eles, e os colocam em situações impossíveis por meio de atitudes constantemente provocativas e inaceitáveis. Não devemos permitir que sejamos destruídos, nem permitir que eles se destruam.

Em contrapartida, outros, não dispostos a correr o risco de sofrer uma nova separação, recusam qualquer autonomia e exigem uma relação de amor exclusiva. Eles se refugiam no vício. Há também os que se desligam da vida e se deixam levar: “Não sou amado, a vida não me interessa, me deixo apenas levar”.

Se a separação é necessária para crescer, por que a ansiedade parece inevitável?

A ansiedade da separação está ligada à ferida do abandono. Essa ferida interior é uma falta em relação ao desejo infinito de ser amado que vive em todos nós. Está na raiz de todas as nossas feridas e é inevitável, como consequência imediata desta separação de Deus que foi o pecado original. Na verdade, desde o ventre materno, somos feridos, visto que fomos separados do amor de Deus para o qual fomos feitos e, como resultado, tornamo-nos vulneráveis a qualquer falta de amor e a qualquer coisa que nos pareça uma separação. Criados à imagem de Deus, aspiramos ao amor perfeito, mas somos privados dele, pois ninguém – nem mesmo nossos pais – é perfeito. Essas inevitáveis faltas de amor que se somam à ferida original geram sofrimento, angústia e dúvidas sobre o amor.

Antes do pecado original, a separação não envolvia sofrimento. Até mesmo permitiu a Criação: vemos, no Gênesis, que Deus, para criar, começa separando a luz das trevas, as águas da terra, a mulher do homem tirando uma costela de Adão. E “Deus viu que era bom”! Mas depois do pecado, tudo pareceu ficar ruim. E a educação é a arte de aprender a aceitar a separação e a frustração que dela resulta, pois em última instância teremos que nos separar de tudo e de todos para alcançar a comunhão total com Deus. Evitar qualquer dano de separação a nossos filhos não é educá-los.

Então não podemos evitar machucar seus filhos?

Não. Ninguém pode dar à luz uma criança “intacta”. Se você quer um filho sem “feridas”, é melhor não ter nenhum. Insisto neste ponto: não existem pais perfeitos. É inevitável que os pais machuquem seus filhos. Mas é claro que farão o possível para amar, pois é o amor que cura as feridas. É importante que a criança compreenda que seus pais não são Deus, que não são perfeitos, mas que com o amor que recebe deles, ou mesmo que não tenha todo o amor que desejou, pode crescer e viver feliz. O culto à perfeição na educação pode ser desastroso. Os pais desejam que a educação que eles dão seja “bem-sucedida”, mas esse é um trabalho que leva tempo, e esse tempo não é nosso. Não somos chamados a “ter sucesso”, mas a amar da melhor forma que pudermos. E o Senhor faz o resto.

Os traumas do parto ou causados durante a gestação são irremediáveis?

Esses traumas podem ser grandemente minimizados na medida em que a mãe, assim que se sente melhor, ou o pai, ou outra pessoa profundamente amorosa, fala ao filho com o coração aberto, com “entranhas de misericórdia”, e o consola. Para além das palavras, a criança “compreende” com a consciência do amor – essa capacidade que a criança tem, desde o ventre materno, de sentir o amor ou o não amor de que é objeto – que ele é amado. O trauma então passa a ter consequências menores.

E se as reações subsequentes mostrarem uma ferida que não cicatriza?

Haverá ainda uma maneira de aliviar a criança do peso da angústia com uma explicação dos fatos traumáticos, se possível por uma terceira pessoa, um psicoterapeuta por exemplo, e com a condição de que essas explicações sejam dadas com amor e compaixão. Nunca é tarde demais. Mas quanto antes intervirmos, melhor.

Conversar é suficiente?

Não. É preciso também mostrar ternura à criança com olhares e gestos afetuosos – carinho, beijos. Valorizá-la com elogios merecidos: “Você é linda , tenho orgulho de você, uu te amo …”. Mas, ao mesmo tempo, devemos evitar mantê-lo permanentemente em um casulo e dar-lhe tudo. Um mínimo de frustração é essencial. Ele deve aprender a não ser o umbigo do mundo, ou pelo menos de sua família.

Devemos ir tão longe a ponto de provocar ocasiões de separação?

Sim, mas desde que os prepare, independentemente da idade da criança. Você sempre tem que avisá-lo, dizer a ele que estarão fora mas que vão voltar, que ele tem o direito de ficar triste, mas que isso não é o fim do mundo. Isso é particularmente importante por volta dos 8-9 meses, na idade sensível em que surge a ansiedade, quando começamos aos poucos a aprender a nos separar ao precisar ir à creche ou ao berçário.

E depois disso?

Dos 2 aos 3 anos, até os 7 anos, as separações se multiplicarão, diversificarão e se alongarão. Se as primeiras separações antes de 2 anos correram bem, o risco de ansiedade diminui; também é necessário que não haja eventos traumáticos (luto, divórcio). O pai tem um papel importante, o de “separador”. É ele quem deve impedir a fusão mãe-filho. Ele deve ser o educador primário após os 7 anos.

Em geral, como viver de forma saudável essa “pequena morte” que é uma separação?

Nós temos uma escolha. Ou nos recusamos a passar pela provação, entregando-nos a nós mesmos, destruindo a nós mesmos e destruindo os outros, direta ou indiretamente – e escolhemos o caminho da morte; ou concordamos em cruzá-lo, vivendo a angústia e o sofrimento, e permanecendo fiéis ao amor – assim avançamos no caminho da vida. Aos poucos devemos passar da dolorosa sensação de abandono sofrido para o abandono de si mesmo nas mãos do Amor. É o difícil caminho percorrido por Cristo que, na Cruz, passou do abandono de sofrimento (“Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?”) ao abandono da confiança (“Pai, em suas mãos, eu entrego o meu espírito”). Este é o caminho da Ressurreição.

Se o Amor é nosso companheiro no sofrimento (“É na no seu lado aberto que encontramos a cura”, como lemos em Isaías), podemos atravessar o vale da morte e das separações. Este caminho poderia ter nos destruído nos fará, pelo contrário, crescer e estar mais vivos! Nossas feridas, lugar de nossa fragilidade, serão a ocasião para amar melhor. Cabe a nós garantir que “nossas separações sejam lágrimas cheias de amor”.


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Agnes Flepp

Tags:
EducaçãoFamíliaFilhosMaternidade
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