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Como João Paulo II venceu a Guerra Fria

AFP PHOTO/ARTURO MARI

George Weigel - publicado em 17/07/14

A política do Vaticano da década de 1970 não tem nenhum crédito a reivindicar

No 25º aniversário das eleições polonesas de junho de 1989, que levaram ao poder no país o primeiro dirigente não comunista desde a Segunda Guerra Mundial, aconteceu no Vaticano a conferência “A Igreja no momento da mudança, de 1980 a 1989, na Europa Central do Leste” (o bom costume de elaborar títulos sucintos e incisivos não é muito desenvolvido em Roma).

Houve, nessa conferência, comoventes testemunhos do ex-líder do sindicato Solidariedade, Lech Walesa, e de ucranianos que vivem hoje um drama semelhante. E houve um discurso do ex-secretário de Estado do Vaticano e atual decano do colégio cardinalício, Angelo Sodano.

O cardeal Sodano afirmou, basicamente, que as realizações de João Paulo II na Europa Central e Oriental durante a década de 1980 foram “preparadas” pela Ostpolitik vaticana da década de 1970, conduzida pelo papa Paulo VI, pelo seu agente diplomático dom Agostino Casaroli e pelo diretor adjunto de Casaroli, dom Achille Silvestrini. Os dois se tornaram cardeais. Sodano pôs especial ênfase na reunião de 1977 entre Paulo VI e o líder do partido comunista polonês Edward Gierek, bem como nas conversas Casaroli-Silvestrini com Stefan Olszowski, membro do politburo polonês. Tudo isso, concluiu Sodano, foi um processo como o de João Batista preparando os caminhos do Senhor.

Fora de certos círculos italianos, seria difícil encontrar um historiador que acreditasse na sustentabilidade dessa análise.

A Ostpolitik de Paulo VI (que temia não estar conduzindo uma “política de glória”) se baseou na premissa de que a divisão da Europa na Guerra Fria permaneceria na paisagem internacional durante décadas, se não séculos; que a Igreja tinha que “salvar o salvável” e fazer os acordos que pudesse com os governos comunistas; e que a crítica católica às violações dos direitos humanos por parte dos regimes comunistas deveria ser silenciada. Os resultados dessa estratégia incluem a destruição da Igreja na Hungria, cuja liderança se tornou subsidiária do partido comunista húngaro; a penetração de agências de inteligência do Pacto de Varsóvia no Vaticano (em benefício dos negociadores comunistas); e o enfraquecimento de líderes católicos na Polônia e na ex-Tchecoslováquia.

A perspectiva que João Paulo II tinha da Europa Central e do Leste, por sua vez, baseava-se em premissas diferentes: que a divisão da Europa do pós-guerra era imoral e historicamente artificial; que as violações comunistas dos direitos humanos básicos tinham que ser chamadas pelo nome; e que as “nações-cativas” poderiam encontrar ferramentas de resistência ao comunismo se resgatassem a verdade religiosa, moral e cultural sobre si mesmas e vivessem aquelas verdades sem medo. João Paulo II, astutamente, deixou a diplomacia Casaroli-Silvestrini continuar. Mas, por trás dessa fachada inteligente, o papa polonês liderou uma campanha moral de resistência ao comunismo, que triunfou na Revolução de 1989. É um evento histórico certamente complexo, mas, a propósito dele, a Ostpolitik vaticana da década de 1970 não pode exigir nenhum crédito sério.

É especialmente lamentável que os diplomatas curiais italianos, como o cardeal Sodano, se recusem a reconhecer os tristes efeitos reais da Ostpolitik na segurança e na integridade da Santa Sé. A penetração profunda de agências de inteligência do bloco soviético no Vaticano foi documentada em numerosos estudos acadêmicos, muitos dos quais são citados no segundo volume da minha biografia de João Paulo II, “The End and the Beginning” [O Fim e o Princípio]. Quando homens inteligentes como Sodano, que não está sozinho entre os seus compatriotas na defesa da Ostpolitk, deixam de se apoiar nas vastas provas documentais daquilo que de fato aconteceu na década de 1970 entre o Vaticano e os governos comunistas da Europa Central e do Leste, nós somos obrigados a supor que existe por trás disso alguma coisa que não é a preocupação com a realidade dos registros históricos.

Trata-se, penso eu, de uma desagradável arrogância nacional unida à defesa de um modelo ultrapassado do papel da Igreja nos assuntos mundiais: um modelo que funcionou razoavelmente bem no Congresso de Viena de 1814-1815, mas que chegou perto de causar um desastre na década de 1970.

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