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Não use Deus para tapar buracos

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Alexandre Zabot - publicado em 14/08/15

Razão e fé são perfeitamente compatíveis: não é preciso cair em misticismos e mitologias anticientíficas

Nos mitos antigos, e na maioria das crenças atuais, o divino se apresenta como "explicação mágica" para o mundo natural. Os deuses são aqueles seres que decidem sobre a chuva ou a seca, sobre a fartura ou a miséria. Quando não estão felizes, lançam pragas sobre o povo e, nesse caso, é preciso cumprir vários rituais para contentá-los. Esses deuses “humanizados” são carrascos dos homens, pois não lhes oferecem a liberdade: apenas os escravizam. Estão sempre pedindo algum agrado para não os castigar com diversas pragas.

O Deus único e trinitário é muito diferente. Na sarça ardente, Ele revelou Seu nome a Moisés:

“Eu sou Aquele que É” (Ex 3, 14).


O Deus cristão não é mais um desses falsos deuses usados para explicar os mistérios da natureza. Ele é o Criador, que nos deu a inteligência e submeteu a criação a nós (Gn 1, 28ss). O homem, na visão cristã, não está mais escravizado pelos mistérios da natureza. Deus lhe deu o domínio sobre ela. Este mesmo Deus é amor e misericórdia: não o escraviza, mas, para a sua redenção, chegou a lhe oferecer seu próprio Filho feito homem.

Apesar da superioridade absoluta do Deus de Abraão, muitos cristãos parecem querer diminuí-lo atribuindo-lhe um caráter parecido com o dos deuses pagãos. Quem nunca ouviu falar, por exemplo, que a aids é uma praga enviada por Deus, ou que os terremotos foram causados por Deus devido à iniquidade do povo? Pensar desta forma é “rebaixar” Deus a uma mera explicação mitológica para fenômenos naturais. Ele deixa de ser “Aquele que É” para se tornar uma divindade castigadora, sem misericórdia, que usa da natureza para castigar os homens. Na teologia cristã, as coisas ruins acontecem porque nós nos afastamos de Deus, não porque Ele se afaste de nós.

E não é só nesses aspectos mais banais que se diminui o papel de Deus. Na teoria da evolução, por exemplo, mesmo ela sendo compatível com a revelação cristã, há quem tente colocar Deus num papel mais “ativo”: segundo essas pessoas, a evolução acontece, sim, mas, em algumas etapas, é preciso que haja uma intervenção direta de Deus. É uma deturpação da teoria do “design inteligente”. Seus defensores argumentam que alguns órgãos, como o olho, por exemplo, não podem ser explicados simplesmente pela evolução. Seria preciso que Deus fizesse o olho. De fato, poucos biólogos discordam que a teoria da evolução ainda não está completa. Existem vários pontos em aberto, que não podem ser explicados com o conhecimento atual. Para os adeptos dessa redução do design inteligente, os pontos em aberto são uma prova de que é preciso uma intervenção direta de Deus; por conseguinte, tais lacunas seriam uma prova da existência dele.

Mas usar Deus para tapar buracos de teorias científicas é uma péssima ideia.

Primeiro, porque a ciência não é estática. Amanhã ela vai explicar o que não é entendido hoje. É só uma questão de tempo. É assim que o método científico funciona: vai-se construindo o conhecimento aos poucos. Quando se vincula a existência de Deus a um aspecto científico que hoje não é entendido, o que se dirá da existência do Criador quando a ciência conseguir explicar aquele fato?

Segundo, como já dito antes, usar Deus para explicar aspectos da natureza é reduzi-lo às deidades míticas antigas. Deus é muito maior que isso.

Nestes tempos de debate sobre células-tronco, muitas pessoas correm para dizer que o fato de não haver resultados com as células embrionárias prova que elas não devem ser usadas. Parecem querer dizer que Deus permitiu resultados com as células-tronco adultas, mas não com as embrionárias, e que por isso não devemos pesquisar as últimas. Não é esse o ponto. Deve-se proibir a pesquisa com células embrionárias por motivos

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Tags:
CiênciaDeusVirtudes
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