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Apontado como um dos ditadores mais ricos do mundo, Fidel está morto. E agora, Cuba?

Sven Creutzmann/Mambo Photography/Getty Images
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Um futuro de verdade para a ilha depende de muitos esclarecimentos sobre a verdade do passado do ex-“Comandante”

TRÊS PAPAS E OS DISSIDENTES

Três Papas se encontraram com Fidel Castro em Cuba: Francisco, Bento XVI e João Paulo II.

Em comum entre as visitas, a tentativa de fomentar diplomaticamente o diálogo e aumentar na ilha de Cuba o respeito pelos direitos humanos mais básicos, entre os quais a liberdade: de movimento, de crença, de expressão… de vida.

Houve alguns avanços – mas muitos e grandes desafios continuaram e ainda permanecem. Saiba mais sobre as visitas dos três Papas neste outro artigo.

Nenhum dos três pontífices que visitaram Cuba, porém, teve permissão para conversar com os dissidentes políticos do país. Trata-se de um fato relevante que desperta pelo menos uma pergunta instigante:

Por que não?

A resposta tem a ver, necessariamente, com uma palavra incômoda para todo regime autoritário: “verdade”.

 

A VERDADE DE CUBA

Qual é, afinal, a verdade sobre Cuba que os dissidentes do regime castrista teriam a compartilhar com o mundo se lhes fosse permitido falar e ser ouvidos?

Por que essa versão da verdade, fosse ela objetiva, fosse ela subjetiva, não poderia ser apresentada e debatida com clareza e aos olhos do mundo?

A propósito de verdade, Bento XVI não deixou passar a oportunidade de destacar esta palavra e a força do seu conteúdo ao fazer uma das suas homilias na ilha comunista: ele declarou, em plena Plaza de la Revolución, que a verdade é uma “condição inevitável para a conquista da liberdade”, porque a verdade nos proporciona os alicerces éticos capazes de unir “diferentes culturas, povos e religiões, autoridades e cidadãos, cidadãos entre si, além de crentes e não-crentes em Cristo (…) O cristianismo, ao ressaltar os valores que sustentam a ética, não impõe, mas propõe o convite de Cristo a conhecer a verdade que nos torna livres”.

Será que o problema do regime cubano com a verdade seria precisamente o fato de que a verdade nos torna livres?

A verdade em Cuba é um assunto que volta à tona com força após a morte de Fidel Castro neste fim de semana. Qual é a verdade de Cuba? Qual é a verdade de Fidel Castro?

 

AS “VERDADES” DE FIDEL

O futuro da ilha e dos seus cidadãos ainda é ligado intimamente à figura de Fidel, e, portanto, a um passado nebuloso, cuja fachada de heroísmos e virtudes, como é típico dos regimes autoritários, foi pintada por ele próprio e rigidamente imposta ao público por uma propaganda oficial que em nada “socializou” suas fontes e supostas provas, nem o direito de questioná-las, conferi-las e avaliá-las.

Representantes da assim chamada “esquerda ideológica” (o que quer que isto signifique) tendem a revender ao mundo essa mesma pintura do Fidel-herói, ignorando as manchas e cicatrizes que ela pode maquiar. Lula, por exemplo, declarou a respeito do “Comandante” que o “seu espírito combativo e solidário animou sonhos de liberdade, soberania e igualdade. Nos piores momentos, quando ditaduras dominavam as principais nações de nossa região, a bravura de Fidel Castro e o exemplo da Revolução Cubana inspiravam os que resistiam à tirania”. O ex-presidente brasileiro passa ao largo do “detalhe” de que o próprio regime cubano é ditatorial e tirânico e de que os “sonhos de liberdade” continuam sendo apenas sonhos para a maioria da população da ilha – inclusive o sonho de fugir de lá. Seguindo a fila dos panegíricos alinhados, o primeiro-ministro da falida Grécia, Aléxis Tsípras, optou pelos batidos jargões ideológicos que rivalizam com charutos e rum na briga pela melhor caricatura de Cuba: “Adeus, comandante. Hasta la victoria siempre” –o mesmo mantra, aliás, rezado por Dilma Rousseff e pelo próprio Raúl Castro, em seu pronunciamento na televisão estatal para noticiar o falecimento do irmão. Nicolás Maduro, o assim chamado “presidente” da ainda mais falida Venezuela, tuitou que “a tod@s @s Revolucionari@s do Mundo cabe seguir com seu Legado e sua Bandeira de Independência, de Socialismo, de Pátria Humana”, missão que, segundo o equatoriano Rafael Correa, Fidel “cumpriu de sobra, em demasia”, ao “libertar sua adorada Cuba, demonstrar que outro mundo é possível [e] lutar pela equidade, pela justiça social”. O premier canadense Justin Trudeau considerou que “Castro fez importantes avanços nos âmbitos da Educação e da Saúde em sua ilha natal”, mas não mencionou as raízes pré-revolução dos bons indicadores educacionais e sanitários de Cuba, nem o fracasso do regime castrista na economia e, muito menos, os sistemáticos ataques da “Revolução” contra as liberdades e direitos humanos. Menos distante de uma declaração que tenta olhar para mais do que um lado, o presidente socialista da França, François Hollande, reconheceu os abusos contra os direitos humanos em Cuba e destacou, em paralelo, que o embargo econômico norte-americano, definido como “inaceitável”, pesou muito contra a economia da ilha – de passagem, recorde-se que ambos os fatos, isto é, os abusos do regime cubano e os abusos do embargo norte-americano, foram imparcialmente denunciados com vigor por São João Paulo II na sua histórica visita à ilha em janeiro de 1998, indicando que a verdade não está plenamente nas mãos de um espectro nem do outro do anacronismo ideológico.

Já no time da assim chamada “direita” (o que quer que isto também signifique – ou, para subdividir o indefinível, na “extrema-direita”, como prefere chamá-la a mídia que errou em peso e por margem vexaminosa os resultados da última eleição presidencial norte-americana), Donald Trump disparou as suas já populares rajadas sem papas na língua ao tratar da morte do ex-“Comandante”: “Hoje o mundo testemunha o falecimento de um ditador brutal que oprimiu seu próprio povo durante quase seis décadas (…) Embora as tragédias, as mortes e a dor provocadas por Fidel Castro não possam ser apagadas, o nosso governo fará todo o possível para assegurar que os cubanos finalmente comecem o seu caminho rumo à prosperidade e à liberdade que tanto merecem”.

Quem tem razão?

Ou, considerando-se que todos estejam dizendo apenas parcelas de uma verdade muito mais complexa do que as pinturas ideológicas reducionistas e interesseiras, quem estará mais distante da mentira deslavada?

Fidel levou para o túmulo boa parte das respostas às perguntas mais frequentes que o mundo já se fez a seu respeito. Ele próprio chegou a declarar que as autoridades não deveriam misturar sua vida pública e privada: “Sendo assim, eu me reservei uma liberdade absoluta”, afirmou, num documentário de 2001.

 

O SÉTIMO LÍDER MAIS RICO DO MUNDO

Uma das muitas perguntas sobre a verdadeira face de Fidel Castro que ainda pedem resposta objetiva tem a ver com a fortuna do ditador, várias vezes denunciada e veementemente negada com frases de efeito por ele e seus defensores.

A revista Forbes, referência mundial no levantamento de dados sobre as maiores fortunas do planeta, incluiu Fidel Castro em seu ranking dos mais ricos do mundo em 1997. Segundo a publicação, Fidel teria à sua disposição pessoal um patrimônio estimado em 110 milhões de dólares no ano de 2003. Dois anos depois, quintuplicada, essa quantia teria atingido 550 milhões. Em 2006, a fortuna do “Comandante” teria saltado para 900 milhões de dólares, posicionando-o como o sétimo líder mais rico do mundo – o que ele negou com fúria, declarando que a revista contava uma “mentira repugnante”.

Castro teria superado, com esse montante, as rainhas Elizabeth, da Inglaterra, e Beatriz, da Holanda, cujas fortunas precisavam ser somadas para totalizarem cerca de 770 milhões de dólares – e nem assim, juntas, atingiriam o patrimônio atribuído a ele.

Acima de Fidel, na lista dos mais ricos mandatários de nações, estavam apenas o rei da Arábia Saudita, Abdullah Bin Abdelaziz, no topo da tabela com 21 bilhões de dólares; o sultão de Brunei, Hassanal Bolkiah, com 20 bilhões; o presidente dos Emirados Árabes Unidos, Khalifa bin Zayed Al Nahyan, com 19 bilhões; o emir de Dubai, Rashid bin Mohamad, com 14 bilhões; o príncipe de Liechtenstein, Hans-Adam, com 4 bilhões; e o príncipe de Mônaco, Albert II, com 1 bilhão de dólares.

Entre parênteses: cabe registrar que a lista dos presidentes e/ou ditadores bilionários ainda incluiria um “seleto” grupo cuja fortuna é de muito difícil comprovação por não se tratar de patrimônio oficial. Islam Karimov, do Uzbequistão, e Ali Bongo Ondimba, do Gabão, teriam 1 bilhão de dólares cada; o sírio Bashar Al-Assad, 1,5 bilhão; o norte-coreano Kim Jong-Un, 5 bilhões; e o iraquiano Saddam Hussein, morto em 2006, teria alcançado um patrimônio de 7 bilhões de dólares em 2000. Muito acima de todos eles, no entanto, estariam o ex-ditador egípcio Hosni Mubarak, com 70 bilhões de dólares de fortuna estimada, e o autointitulado “Rei dos Reis da África”, o sanguinário ditador líbio Muammar Gaddafi, com impressionantes 200 bilhões de dólares em 2011, o que o colocava na absoluta dianteira, por uma distância quase inatingível, daqueles que foram apontados em setembro de 2016, de modo oficial, como os dois homens mais ricos do mundo na atualidade: o norte-americano Bill Gates, fundador da Microsoft, e o espanhol Amancio Ortega, dono da Zara, cujas fortunas oscilam em torno dos 78 a 80 bilhões de dólares cada um.

Mas, fechando os parênteses sobre a vizinhança de Fidel Castro nos rankings da, digamos, distribuição de renda, como se explicaria a alegada riqueza do ex-ditador cubano?

A origem do alegado patrimônio de Fidel foi atribuída pela Forbes ao controle econômico exercido por ele sobre o seu país ao longo de décadas através de uma rede de empresas estatais, que incluíam desde o centro de eventos Palacio de Convenciones até o conglomerado de lojas de varejo Cimex, passando pela Medicuba, comercializadora de vacinas e outros produtos farmacêuticos produzidos na ilha. Além disso, em 1993, Fidel teria recebido 50 milhões de dólares pela venda da estatal Havana Club, fabricante de rum, à francesa Pernod Ricard.

 

O LIVRO-BOMBA DO EX-SEGURANÇA

Origens do dinheiro à parte, os indícios (e detalhes) de uma vida luxuosa por parte do ditador foram corroborados por um ex-segurança pessoal de Fidel Castro, o tenente-coronel Juan Reinaldo Sánchez, que denunciou a dupla cara do “Comandante” no livro-bomba A Vida Secreta de Fidel, publicado em 2014 em parceria com o jornalista francês Axel Gyldén e lançado no Brasil pela Editora Paralela. Em Portugal, o título da obra é A Face Oculta de Fidel Castro, publicado pela Editora Planeta.

Apesar do que sempre fala, Fidel nunca abandonou os confortos capitalistas nem escolheu viver com austeridade. Muito pelo contrário: o seu modo de vida é de um capitalista sem limites”, afirma o ex-guarda-costas.

Em entrevista ao jornal britâncio The Guardian, o co-autor Axel Gyldén reforçou informações contidas na obra, como a de que o ex-presidente cubano vivia na ilha privada de Cayo Piedra, ao sul da Baía dos Porcos, num local descrito por Sánchez como um “Jardim do Éden”.

Para transitar entre esse paraíso e o resto de Cuba, Fidel usava, segundo Sánchez, o iate de luxo Aquarama II, construído com madeira importada de Angola e dotado de quatro motores doados por Leonid Brejnev, um dos últimos líderes da falida União Soviética. Já por terra, Fidel costumava andar a bordo de carros Mercedes-Benz, sempre escoltado por dez seguranças, dos quais dois deveriam ter o mesmo tipo sanguíneo do ditador para serem doadores em caso de emergência. Na sua mansão de Havana, Fidel contava com porto particular, centro médico, quadra de basquete e pista de boliche no telhado. Além de fumar os melhores charutos cubanos, Fidel era amante do uísque: seu favorito era o caríssimo Chivas Regal, importado da Escócia.

As denúncias de Sánchez apontam um estilo de vida muito distante da abnegação que Fidel sempre professou. “Ele era como um deus. Eu degustava cada palavra que ele falava e acreditava em tudo que ele dizia. Teria morrido por ele. Mas, depois, percebi que muitas coisas estavam erradas (…) Para ele, a riqueza era um instrumento de poder, de sobrevivência política e de proteção pessoal (…) Às vezes, Fidel tinha a mentalidade de um pirata do Caribe”.

O autor do livro considera: “Esta é a primeira vez que alguém do círculo íntimo de Castro fala, alguém que fazia parte do sistema e que foi testemunha ocular dos eventos que descreveu. Isso muda a imagem que temos dele. Não apenas o seu estilo de vida contradiz suas palavras, mas coloca em questão a sua psicologia e motivações”.

 

QUEM SABERÁ RESPONDER?

A vida de Fidel Castro, em suma, não conta apenas com a versão oficial. Qual das histórias é a verdadeira continua sendo uma pergunta aberta. Quem saberá esclarecer?

Talvez alguém da família. Poderia ser o caso de perguntar a uma das filhas em número desconhecido que Fidel foi tendo ao longo dos anos com diversas mulheres: Alina Fernández, que fugiu de Cuba em 1993 e se tornou uma das maiores críticas do regime. Ou a Juanita, irmã de Fidel exilada em Miami desde a década de 1960, que se negou a viajar a Cuba para o funeral apesar de esclarecer que “não me alegro com a morte de nenhum ser humano, muito menos com a de alguém com o meu sangue e os meus sobrenomes”. Ou a qualquer das esposas e amantes do “Comandante”, tenham ou não sido mães de seus filhos de número desconhecido.

Ou talvez algum cidadão que tenha visto mais do que só um lado da suposta “verdade”. Poderia ser o caso de algum dos atletas ou médicos cubanos que, depois de conseguirem deixar o país, pediram asilo político no exterior para não precisarem retornar à ilha sob o regime dos Castro. Ou aos dissidentes políticos… Se bem que, neste caso, a conversa provavelmente seria um tanto mais complicada, já que nem mesmo os Papas tiveram a oportunidade de tentar.

Enquanto não se revela a “verdadeira verdade” sobre quem foi Fidel Castro, a própria verdade é a melhor maneira de finalizar um artigo que vai ficar aberto à espera de respostas: “A verdade é condição inevitável para a conquista da liberdade(Bento XVI, em homilia na Praça da Revolução, Havana, Cuba).

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