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O dia em que o filho pródigo “caiu em si” (Lc 15,17)

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Uma reflexão inspirada em uma das mais sublimes obras-mestras de toda a história universal da literatura: a parábola do filho pródigo

No site do jornal O São Paulo, da arquidiocese paulistana, o pe. João Bechara publicou nesta semana uma instigante reflexão inspirada em uma das mais sublimes obras-mestras de toda a história universal da literatura: a extraordinária parábola do filho pródigo.

Eis o que escreveu o padre Bechara:

Depois de uma “vida desenfreada” em um “lugar distante”, desejando sem sucesso se saciar com o alimento de porcos, o “Filho Pródigo” (Lc 15) finalmente retornou à casa. Segundo Nosso Senhor, a decisão foi possível quando ele “caiu em si” (Lc 15,17). 

Não se trata de ser autocentrados e fechados ao exterior, porém a conversão a Deus e a santificação cotidiana somente acontecem quando nos confrontamos com quem realmente somos. Temos de olhar com serenidade a nossa alma, nossa vida, identidade, história, pecados, fracassos, defeitos e qualidades. Precisamos “cair em nós mesmos”: eliminar os “personagens” que inventamos; abrir mão dos planos que não correspondem aos de Deus; vencer o orgulho ferido; ver que sem o Senhor não temos salvação… Confrontar-se com a verdade sobre si é um passo necessário para se falar de verdade com Deus e se dizer sinceramente: “Pai”. 

Se por um lado esse “cair em si mesmo” tem algo de difícil e mesmo humilhante, por outro é o único modo de se chegar à paz e à alegria de filhos de Deus. Ao contemplar sem máscaras nossa insuficiência, choramos mais de gratidão do que de desespero! Não  simplesmente porque nossos pecados nos envergonham, ou porque tememos receber o inferno e perder o paraíso… Nem porque nos sentimos como “monstros”… Os filhos de Deus se arrependem principalmente porque reconhecem sua dignidade: de Quem vieram, para Quem irão!  

Não somos escravos, que obedecem ao Senhor apenas por serem obrigados; não somos mercenários, que trabalham e combatem somente em função da recompensa; não somos egoístas, que querem ser bons como quem se admira num espelho. Somos filhos! Não à toa, a primeira coisa que o Filho Pródigo pensou em dizer ao retornar foi “Pai…”. Sem confiança de filhos, é difícil arrepender-se! 

Talvez na primeira conversão (ou ainda hoje), tais como o filho da parábola, “estávamos ainda distantes” quando o Senhor veio e nos manifestou o Seu amor e a sua escolha. Porém é chegada a hora de “cairmos em nós mesmos” mais profundamente, reconhecendo que o Senhor habita em nossa alma em graça! Se queremos realmente viver com Ele, é preciso parar de pensar só no material, no “urgente”, no sensível, e comprometer-nos a entrar no “quarto interior”, explorando o mundo riquíssimo que é a presença de Deus em nós. 

Este foi o caminho de Santo Agostinho! Após uma vida de pecado e busca, finalmente se converteu quando entrou em seu íntimo e buscou o Senhor na oração. Escreveria mais tarde: “Tarde te amei, ó beleza tão antiga e tão nova, tarde te amei! Eis que estavas dentro e eu, fora. E fora te procurava e lançava-me nada belo ante a beleza que tu criaste. Estavas comigo e eu não estava contigo. Seguravam-me longe de ti as coisas, as quais não existiriam se não existissem em ti. Chamaste, clamaste e rompeste minha surdez, brilhaste, resplandeceste e afugentaste minha cegueira” (“Confissões”). Que Nosso Senhor nos faça “cair em nós mesmos”!

Leia também: O irmão mais velho do filho pródigo e o desejo secreto das “terras longínquas”

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