Aleteia

O que os protestos nos EUA têm a nos ensinar

KNEELING
EVA MARIE UZCATEGUI | AFP
Compartilhar

Onda de manifestações coincide com casos emblemáticos de racismo no país

Na audiência da última quarta-feira (3), o Papa Francisco se pronunciou a respeito da morte da George Floyd, afro-norte-americano brutalmente assassinado pela polícia de Minneapolis, EUA, no último dia 25, vítima do que o pontífice classificou como “o pecado do racismo”.

“Uma morte trágica”, disse o Papa. “Acompanho com grande preocupação a dolorosa desordem social dos últimos dias”, disse ele. “Ninguém pode fechar os olhos ao racismo ou à exclusão, nem deixar de defender a sacralidade de toda vida humana”, acrescentou o Papa, que também condenou a violência nas ruas que tomou conta das metrópoles norte-americanas pelos últimos dez dias. “Temos que reconhecer que a violência das noites recentes é autodestrutiva. Nada se ganha com a violência e muito se perde.” 

A onda de manifestações nos Estados Unidos inspirou outros movimentos populares ao redor do mundo, como a manifestação antifascista, organizada pelas torcidas de futebol, que ocorreu na avenida Paulista no último domingo (31). A morte de George Floyd ressoa em um momento em que o país digere dois casos gritantes de racismo em nosso próprio território.

No dia 14 de maio, o jovem João Pedro de Mattos, negro, de apenas 14 anos, foi morto a tiros, em sua própria casa, durante uma operação das polícias federal e civil no Complexo do Salgueiro, no Rio de Janeiro. E, nesta terça (2), amargamos a morte do jovem Miguel Otávio, de apenas cinco anos, em um bairro nobre de Recife. Ele tinha acompanhado a mãe, Mirtes Renata Santana da Silva, empregada doméstica, ao trabalho. Em dado momento, a funcionária do lar precisou sair para passear com os cachorros da família, e Mirtes deixou o garoto aos cuidados da patroa, Sarí Hacker. A criança logo começou a chorar e a pedir pela mãe, então a senhora Hacker simplesmente colocou o garoto de cinco anos no elevador e apertou o nono andar. A criança, desassistida, subiu no parapeito e caiu do nono andar. Sarí Hacker responde a inquérito de homicídio culposo. O descaso da madame com a vida é tamanho que sequer dispensou a empregada quando esta foi diagnosticada com Covid-19.  

O que nos remete à primeira morte pelo novo coronavírus no Rio de Janeiro, de uma empregada doméstica negra de Miguel Pereira (RJ), no dia 17 de março. Ela havia sido contaminada pela patroa, que havia sido diagnosticada com a doença ao retornar de uma viagem para a itália e ainda assim não dispensou a doméstica. 

Casos de assassinatos brutais de negros pela polícia não são novidade nos EUA, o mais recente de grande repercussão havia sido o de Rodney King, em 1991, que inspirou as Revoltas de Los Angeles. Assim como o descaso com a vida dos negros no Brasil, pela polícia e pela elite, que há muito faz parte da nossa realidade. 

A morte de George Floyd ajudou a dar visibilidade ao movimento Black Lives Matter (Vidas Negras Importam), que luta pelos direitos dos negros nos EUA. E também está dando repercussão à causa em nosso próprio país. Não podemos mais conviver com, como o Papa coloca, o “pecado do racismo”. Vidas negras importam e devemos lutar por justiça racial em todas as esferas da nossa sociedade.

Minhas preces são dedicadas a George Floyd, João Pedro de Mattos, Miguel Otávio e suas famílias. 

  

Boletim
Receba Aleteia todo dia